“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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A regra é clara: “Nunca pise no tênis”

Dirigido por Gandja Monteiro, o clipe foi filmado nas ruas do Lower East Side, em Nova York, com imagens de um pequeno show no jardim dos fundos da tão famosa Alife Rivington Club, o mesmo local aonde outros importantes nomes do Hip Hop fizeram apresentações primorosas.

A MTV Brasil divulgou os indicados ao VMB 2010. E como não deveria deixar de ser Marcelo D2 está concorrendo a Clipe do Ano com a música “Meu Tambor”. Vamos fazer o Marcelo D2 levar a estatueta e fazer muito barulho para a Gandja Monteiro, cineasta brasileira que dirigiu o videoclipe.

http://vmb.mtv.uol.com.br/votacao/clipe-do-ano VOTE!

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“O samba é um companheiro. Desses que o coração não trai.”

O Marcelo D2 já traiu e já foi perdoado, mas não perdoaria que o traísse. Jura que sempre quis sossegar. Só que acha difícil não cair em tentação. Quando cai, fica se sentindo culpado. Apaixonado e fiel como nunca, Marcelo se pergunta: “Será que estou virando mulher?” Definitivamente não.

Dilemas de D2

Tem o sotaque mais carioca do mundo e chama as mulheres de “mulé”. Estamos diante do clássico malandro, o sujeito cheio de ginga, gosta de cervejinha com pão e carne assada. Esse é o Marcelo D2, galinha mas “sangue-bom”.
Marcelo Maldonado foi criado no Andaraí na Zona Norte do Rio. Foi camelô e vendedor de móveis. Em 95, lançou seu primeiro disco com o Planet Hemp, Usuário, vendeu 300 mil cópias. O segundo, Os cães ladram mais a caravana não pára, chegou a 350 mil cópias. Reconhecido no continente do rap como estrela de primeira grandeza.
Malandro, faz sucesso com garotas. E Marcelo já desfrutou – e muito – desse sex appeal. Assume que já transou com várias fãs. Até com mais de um ao mesmo tempo. Não conta com quantas mulheres já ficou na vida. Casado com Camila, mamãe de dois filhos com D2, fazem companhia para Stephan e Lourdes, filhos de outros dois casamentos do rapper. Hoje, Marcelo está mais do que nunca na fase: “malandragem dá um tempo”.
Durante a entrevista que você lê a seguir tomou vários copos de coca cola e comeu um pote de geléia de mocotó – nada de maconha.

Vocês está mais sossegado?

Eu gosto muito de beber, mais estou maneirando. Não bebo mais todo dia, só umas quatro vezes por semana (risos).

Você está fiel?

Fidelidade de sentimento é fácil. Difícil para mim é não ter relações com outras pessoas. Agora eu sou fiel, não tem me seduzido tanto o peito ou a bunda passando na rua. Mas, ainda sou mulherengo pra caramba. Gosto de ver a foto de uma mulher nua. Adoro olhar uma Playboy. No meu estúdio ponho na parede um monte de mulher pelada. Só não coloco em casa porque a Camila não deixa. Mas ela gosta de mim do jeito que eu sou. E adorar mulher faz parte disso.

Parece que para você é difícil controlar os instintos sexuais..

Eu sempre quis ser fiel! Quando arrumava outra mulher, voltava com um enorme sentimento de culpa. Me achava um filho da puta, ou ficava pensando que a relação estava ruim. Muitas vezes cogitei abrir o jogo, mas não acredito em relacionamento aberto – não dá para contar que tá tendo um caso fora do casamento, tira todo o romantismo da história.

Você já foi traído?

Que eu saiba não. Mas tenho algumas desconfianças.

E qual seria sua reação se isso rolasse?

Chorar (risos). Ia ficar muito triste. Ia virar as costas e sair fora. Nessas horas, prefiro me trancar, ficar na minha.

Quando você traiu não ficou paranóico achando que podia ser traído também?

Claro que sim, pensava que estava fodido. Mas comigo sempre achei que estivesse tudo às claras – todo mundo sabe que eu catei várias mulheres, mesmo estando namorando ou casado. Acho que não desculparia quem me traísse, como já me desculparam várias vezes (risos).

Você acha que mulher tem tendência a desculpar mais?

Mulher sempre acha que a coisa vai dar certo. Eu estava até falando com um amigo outro dia: “Pô eu estou o maior apaixonado, fiel, será que estou virando mulher?”

Você está casado pela terceira vez, acha que um casamento pode durar para sempre?

Hoje não consigo pensar em viver sem a Camila. Imagino comprar uma casa de praia e ficar velhinho com ela, encher o carro de criança. Acho que não vai acabar, mas a gente nunca sabe. Tive relacionamentos maneiros, mas todos acabaram horríveis. Por isso, se não estiver dando certo, melhor não insistir e cair fora, tá ligado?

Você está sempre namorando ou casado?

Se eu ficasse sozinho ia ficar maluco. Minhas mulheres sempre foram confidentes, companheiras. Mulher é um super amigo que você ainda vai lá e come. Não é ótimo? Namoro direto desde os 15 anos. Comecei e não parei mais. Nunca fiquei um dia sozinho. Sempre fui assim, conheci uma menina e terminei com a outra pra ficar com ela. Não consigo ficar uma semana sem namorar, de jeito nenhum.

E já namorou mais de uma ao mesmo tempo?

Ah..já. Mas, é foda, proque na real sempre me senti culpado por isso. Tem carinho envolvido e, depois do sexo, você já fica pensando: “Porra, o que foi que eu fiz?”. Mas, já tive namorada no Rio, São Paulo, Curtiba, Porto Alegre. Umas já sabiam que eu tinha mulher, pois sempre tive umas duas oficiais (risos). Era muito louco. Uma namorada ligava de São Paulo para o Rio e eu falava: “Não, não vem pra cá, pelo amor de Deus.” Quem se envolveu comigo, já sabia que eu não prestava, tá ligado?

Você acha que dá pra amar duas pessoas de uma vez só?

Acho que sim. E ainda dá pra trair as duas (risos). Já fiz isso. Você não acha possível?!

Acho que mulher é diferente. Somos mais exclusivistas..

Mulher é mais apaixonada né? Mas, eu acho que se são amores diferentes dá pra rolar. Você tem uma mulher que é mãe e companheira. A outra é sua amiga de droga e tem uma foda incrível. Você gosta de cada uma de jeito diferente.

Você já transou com mais de uma mulher ao mesmo tempo?

Já cara. Já realizei todas as minhas fantasias, tá ligado? Todo homem sonha em transar com duas mulheres, ver as duas transando. Na hora é legal, você acha o máximo. Mas, essas transas não estão no meu top 10. Muitas vezes o sexo bem mais normal é melhor.

Você já mediu o tamanho do seu pinto com régua?

Já medi. Mas não vou contar quanto deu. Posso dizer que tirei a maior onda no colégio. Se fosse pouco eu ia dizer: “Não isso não tem importância” (risos).

Você é muito assediado pelas mulheres?

Muito. Antes tinha que dar uma idéia nas minas. Hoje, muitas só faltam tirar a roupa, tem mulher que chega beliscando a minha bunda. Me puxando. Às vezes eu tenho vontade de falar: “Então paga”. Elas parecem homem mexendo com garota na rua.

Acontece muita coisa absurda?

Acontece. Um dia eu estava sentado no palco e chegou uma menina: “Me dá alguma coisa? Me dá seu relógio?” E eu: “Não, esse relógio eu comprei, gosto dele.” E ela: “Então me dá sua camisa?” “A camisa eu ganhei, gosto dela.” Eu acabei dando um pedaço da madeira do palco que estava no chão. E a menina saiu comemorando. Um absurdo. Fico pensando, “será que as pessoas não entendem o que a gente fala?” A gente não é igual ao Daniel, não procuramos esse glamour.

Você é um sujeito vaidoso?

Pra caramba. Vaidade não é só se preocupar com o corpo, essas coisas, mas querer ter estilo. Gosto de comprar roupa, fazer tatuagem. Tenho mania de tênis. Acho que é um trauma de infância, tenho mais de 300 pares, um monte que nunca usei. Sempre que eu viajo trago uns três.

Se sua filha namorasse um cara como você, qual seria sua reação?

Acharia ótimo, tá ligado? Sou um cara carinhoso. Corro atrás das minhas paradas. Só não ia querer que ela sustentasse malandro.

Você é ciumento?

Sou ciumento até com o meu tênis, o sofá, com os meus cds, com os meus camaradas. Mas, me controlo.

Já levou um pé na bunda?

Uma vez, levei. Eu era muito afim de transar com uma mina. Aí, quando rolou, a gente foi para um motel e eu brochei. Estava querendo a parada que não consegui segurar. Aí, depois o sexo não era muito bom, era meio caído, sabe? Ela acabou me dispensando. Disse que ia pra França ficar com um cara. Não sofri muito.

Sexo com amor é diferente?

No fundo, sou daqueles que acham sexo, mesmo quando é ruim, bom. Só que agora, só a Camila está me satisfazendo. A gente tem uma vida sexual muito intensa. Procuramos fugir da rotina. Vamos para o motel, namoramos na praia.

Você já fazia sucesso com as mulheres antes de ser famoso?

Não, mas eu sempre fui muito atirado. Quando eu era moleque, morava no morro, tinha roupa e cara de garoto pobre. Ia nas festas, na maior cara-de-pau dá em cima das patricinhas. De algumas eu levava o fora, mas levava outras também.

Já aconteceu de você ficar com alguém quando estava chapado, achar aquela pessoa o máximo e depois perceber que não tem nada a ver?

Já aconteceu de ficar um final de semana viajando de ácido com uma pessoa, achando que estava apaixonado que tinha encontrado o amor da minha vida. Depois que passou a onda, não era nada daquilo. Sinistro..

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O sagaz homem fumaça

“Na cadeia, pra te falar a real, a gente dava é risada.” Com essa frase o rapper Marcelo D2 colocou abaixo aquilo que a  imaginava ser a causa de sua pior noite: a prisão. Normal imaginar isso, mas talvez não para o Planet Hemp em 1997. Foi nesse ano que a banda foi parar atrás das grades após um show em Brasília, acusada de fazer apologia às drogas. Foram oito dias presos a espera de que algum habeas corpus pudesse livrá-los. “Ano passado fez dez anos de prisão. Caralho, devia ter feito uma festa, né? Uma festa de dez anos da prisão do Planet Hemp”, lembrou D2 às gargalhadas.

E realmente não faltam motivos para o rapper não classificar as noites de cadeia como as piores de sua vida. Alguns meses depois de ser solto ele perdeu seu principal parceiro: o pai. “Na cadeia tinha jeito, sabe qual é? Com o coroa não”, disse. “Foi aquela noite que eu pensava: agora fodeu. Não conseguia pregar o olho, acho que fiquei três dias acordado.”
E mais, para tornar ainda menos traumática a passagem pela cadeia, a repercussão do episódio fez os cofres da banda ficar ao melhor estilo Tio Patinhas. “Quando eu saí tomei um susto, comprei uma casa logo na seqüência. Se tu passa oito dias na cadeia e compra uma casa é um puta negócio”, ria D2.

Mas e as suas melhores noites, Marcelo? “Geralmente a melhor noite tem sexo no meio. Não vou falar, senão isso vai dar merda pra mim.” Compreensível.

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Usuário

“Não compre, plante!” é o singelo título da primeira música do álbum UsuárioPlanet Hemp. Figura mítica dos anos 90, que pariu Bacalhau (hoje no Autoramas), B Negão (hoje no B Negão & Os Seletores de Frequência e Turbo Trio) e Marcelo D2, que segue segurando seu próprio nome. Também faziam parte da banda Skunk, que morreu em decorrência da AIDS, Formigão e Rafael.

Não lembro ao certo, mas foi por volta de 1996/1997 que a banda veio a Natal pela primeira vez. Não existia nem de longe o sonho dos dois festivais que hoje a cidade abriga. Os shows eram feitos na raça mesmo, o underground era underground mesmo. A casa dos shows menores já era a Ribeira, só que sem estrutura. O show aconteceu no Casarão. O nome alusivo a beleza da fachada dos prédios históricos do bairro, e só. Caindo aos pedaços, com dois ventiladores de teto bem próximo as cabeças, banheiros com portas imprestáveis e paredes esburacadas. A banda tinha que passar no meio do público antes de chegar ao palco. Se é que aquele tablado com 50 centímetros de altura pode ser chamado de palco. Atrás de Bacalhau uma luz que fazia o baterista suar que nem uma chaleira.

Antes do show começar, fui com meu amigo Renato tomar uma cerveja em um carrinho de cachorro-quente. Ao sentar observamos duas figuras ao nosso lado em outra mesa. Bacalhau e Formigão. Na maior paz tomavam sua cerveja em meio ao anonimato. Internet eram as revistas e a MTV. Que naquela época tinha uma programação supimpa. Folheando o encarte do álbum enfumaçado, vejo Bacalhau ainda com cabelos vestindo uma camisa da Vision Street Wear, marca que vestia muitas bandas, inclusive a Resist Control que fora um clipe na MTV e participação numa coletânea, nunca mais ouvi falar.

No meio do show Marcelo D2 acende o baseado e convoca o público. O tablado era resistente, porque a banda sumiu em meio a tanta gente que queria fumar. Pra mão de D2 ela não voltou. Mas tudo bem, ele já devia estar com a cabeça feita. O show, como de se esperar, foi curto. Tocaram o disco e tchau. Mas o estrago estava feito. E antes do show começar. Sentados a mesa bebendo a cerveja vislumbramos a polícia dando uma dura numa turma que tinha acabado de chegar por uma das ruas adjacentes. Todo mundo na parede, braços e pernas abertas. O famoso baculejo.

O caminho que a banda trilhou é o mesmo que centenas de outras. Mas poucas chegam ao estágio de ganhar dinheiro e viver da música. Diversão é garantida, já dinheiro e fama… É engraçado conversar com pessoas que vivem outra realidade, consomem outra música, elas não entendem como uma banda pode pagar pra tocar, viajar sem ter onde ficar, gravar discos que serão distribuídos e não vendidos. A banda fez esse caminho e pouco tempo depois chegou as manchetes. Culpa da apologia ao consumo de drogas. Shows foram cancelados e eles chegaram a ser presos. O grupo aos poucos foi se desvencilhando da fumaça, mesmo sem nunca tê-la abandonado, culminando com o fim, mesmo que não tenha sido anunciado oficialmente. Há rumores de volta. Rumores.

Enquanto isso Bacalhau toca bateria mundo afora com o Autoramas, B Negão faz seu baile funk com Os Seletores de FrequênciaTurbo Trio. E o Marcelo D2 procura a batida perfeita. Nada que Jorge Ben já não tenha achado, na década de 70.  Ainda gravaram Os Cães Ladram, Mas a  Caravana Não PáraA Invasão do Sagaz Homem Fumaça e o MTV Ao Vivo Planet Hemp. Mas nenhum tem a importância do primeiro. Podem até ter vendido mais e tornado a banda mais popular, mas o primeiro é o mais incisivo nos temas e no som.

Hugo Morais: http://www.oinimigo.com/blog/?p=4415

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Um Brasil inquieto nos pés

Duas cadeiras brancas de boteco. Um sonzinho tomando conta daquele cantinho escondido no fundo do camarim. Uma latinha de cerveja na mão direita e um Brasil inquieto nos pés. Sambinha? Também. A parada é do Marcelo Maldonado Peixoto, ou D2, o cara que colocou o rap para brincar com o ritmo mais contagiante do país.

Marcelo D2 virou playboy?

Por que você aceitou o convite para fazer o show na Daslu?

Eu não tenho nenhum tipo de preconceito. Não deixo de tocar num lugar porque tem muito preto, muito branco, muito pobre ou muito rico. O que eu falo nas minhas músicas não é só pra pobre. Essa coisa de que todo preto é ladrão e todo playboy é racista é uma puta babaquice. Bom se todo mundo pudesse ser rico. O que faz as pessoas mesmo é a cabeça e o coração. Por isso, fui lá e toquei. Fui bem recebido pra caramba, assim como sou bem recebido em qualquer favela que eu vou. Foi um cachê alto, foi ótimo.

Por que você acha que sua música seria atraente a um público que paga mais de R$ 10 mil numa calça, por exemplo?

Dez mil numa calça? Então, meu cachê foi barato pra caralho! [rindo] Eu devo ter ganhado umas duas calças de cachê. Tem muita gente que não ganha isso na vida inteira! Então também foi um sacode nos caras, porque eu passo outros valores na minha música. Se não atingi a todos, se alguns só foram lá e dançaram, tudo bem. E é legal que os caras do rap estejam ligados com a galera que tem grana pra trazer dinheiro pro movimento. Nos Estados Unidos, o rap cresceu pra caramba porque tiveram pessoas qualificadas pro trabalho, não era só o cara do gueto.

Você é um playboy disfarçado?

Cara, eu gosto de me vestir bem, de andar com roupas maneiras. Sou vaidoso. Não sou playboy, não. Não gosto de gastar meu dinheiro com coisas fúteis. Se bem que não sei: se eu ganhasse 1 milhão por mês, comprava uma calça de 10 mil e não tava nem aí. O dinheiro é meu, vou guardar, levar pro caixão? Mas não sou playboy nem fodendo. Sou de família pobre, batalhador, trabalho desde os 14 anos, ralo pra caralho. Já fui porteiro, faxineiro.

Mas agora você tem grana, pode virar playboy…

Eu teria que nascer de novo. Isso vem de família, de quem tem muita grana. Eu sou músico, sou suburbano. Quem vem do gueto, vai sempre carregar o gueto. Posso sair dele, mas ele vem no meu coração, na minha maneira de ver. O que muda? Antigamente o churrasco era feito numa churrasqueirinha de caminhão, com carne de segunda. Agora a carne é de primeira e é feita numa puta churrasqueira maneira. Mas eu continuo fazendo churrasco no fundo do quintal com a galera.

aspas

“Eu sou daqueles que levantam, gritam, batem na mesa. Quero que todo mundo aceite a minha opinião”

“Eu esperava um governo mais radical, mas eu entendo o Lula, porque o radicalismo já fez ele perder várias e várias eleições. É melhor que ele vá conquistando a confiança do povo aos poucos”

“Já tenho filho, já fui pra cadeia, já fiz um disco: não sou mais adolescente, virei adulto”

“Nunca deixei de colocar nada [nas letras] porque era muito pesado. Muito pelo contrário: às vezes eu coloco umas paradas ali que é de propósito pra arrepiar mesmo”

“No Rio, eu era revistado pela polícia direto. Eles vêem um cara com o meu biótipo, que é de favelado, num carro maneiro ou num táxi, mandavam parar”

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A cada vento

“Atravessando o mar.
Vou me perder, vou me encontrar.
A cada vento que soprar
o sol prova isso quando cruza o horizonte,
vira fonte que aquece, ilumina..
Ação sem câmera, só a luz para conduzir.
Sinceridade pra sentir a alma reluzir.”

O hip hop promove metalinguagens através histórias de vidas, compostas pelo silêncio abstrato das periferias que ressoa como música feita de ritmo e poesia.

A vida na periferia é algo sem margens, sem começos, sem fim. É a melancolia de um dia nublado, um esforço pela beleza difícil, é andar perto do abismo. Uma vida cheia de detalhes bucólicos.

“Gente pobre, com empregos mal
remunerados, baixa escolaridade, pele escura. Jovens pelas
ruas, desocupados, abandonaram a escola por não verem o
porquê de aprender sobre democracia e liberdade se vivem
apanhando da polícia e sendo discriminados no mercado de
trabalho. Ruas sujas e abandonadas, poucos espaços para o
lazer. Alguns, revoltados ou acovardados, partem para a
violência, o crime, o álcool, as drogas; muitos buscam na
religião a esperança para suportar o dia-a-dia; outros ouvem
música, dançam, desenham nas paredes…”

O hip hop é um movimento de denúncia e crítica a todas às opressões sofridas. Sua característica suburbana produz eco nas periferias. É uma forma de resistência e mudança da realidade. A periferia é marcada pela insignificância e o não poder daqueles que vivem às margens de uma sociedade totalmente desigual.

Partindo do princípio de que a cultura hip-hop é uma resposta frente às condições precárias que os jovens da periferia das grandes cidades enfrentam, pode-se admiti-lo que a manifestação é uma das características essenciais, uma vez que, é a responsável pela forma que protestam a problemática social envolta à marginalidade.

Além disso, o rap é um tradutor de poesia oral. É preciso inventar a cor das vogais, o movimento de cada consoante e com ritmos instintivos, escrever silêncios e fixar vertigens.
O desejo pelo limite entre a luz e o breu e a busca por nuances, faz com que o jovem saia dessa vida densa, cinza e barroca e encontre alívio na monotonia do olhos.

As crianças e adolescentes da favela que convivem desde cedo com a criminalidade, presenciam constantemente o tráfico de drogas, são platéias do abuso de poder dos policiais e que de certa forma são mutilados quando perdem seus parentes e amigos, vítimas de bala perdida. Neste caso, a música, ocupa seus abandonos e desamparos, é a maneira mais pacífica e direta que esses jovens têm para protestar, mostrar sua cara e contar suas histórias de vida, onde todos os minutos são iguais. Dias sem opção, na calada da tarde, no improviso da sílaba.

“Contraditorio vagabundo como Chaplin,
Do tipo que gosta de flores, mas não tem o jardim.
Se ainda houver amor de graça quero um pouco para mim.”

Como estar na periferia economicamente desfavorecida e viver de rap? Estar com o rap nas rádios é uma postura comercial, porém esta postura vislumbra possibilidades para o jovem que pretende viver de arte. Estar na mídia é ingressar num sistema responsável pelo capitalismo que causa exclusão social e desigualdade. É preciso reivindicar a luta contra o preconceito, opressão e as desigualdades. Com isso preencheremos espaços com coisas que vem do mundo, coisas menos materiais, com belezas que moram nas coisas imperfeitas e incompletas, tecendo a poesia das transitoriedades leves.

“Corre as areias da ampulheta e nada, além do amor maior.
Cada degrau na escada onde eu derramei o meu suor.
E se não for por isso então não sei para que serve o hip hop.
Me faz esquecer a fome e botar fé de que eu posso ser alguém.
Mudar o mundo com a ponta de uma caneta.
Momento faz a vida a vida faz o rap.
Existem duas certezas uma é morrer.
A outra é se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser rimando.”

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