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Celebridade do Século 21

Um dia ele já foi contra a ordem do dia. Não tinha carro, cultivava uma vasta e encrespada cabeleira e morava de aluguel na Lapa. Hoje aos 37 anos , pai de quatro filhos, Marcelo Peixoto conseguiu reverter a situação. Em 1996, Marcelo pertencia ao raivoso e contestador Planet Hemp, misturava rock, hip hop, funk, com toda a liberdade de expressão que tinha direito. Em 2005, é o Mc que faz rap com samba e desfruta das glórias do seu disco À Procura da Batida Perfeita, que já vendeu muito mais de 150 mil cópias. O Marcelo D2 do século 21 é um cara “repaginado”. Deixou de encarar o antiestablishment e assumiu seu lado celebridade e foi para a ribalta da mídia.

O que você diria pra quem te chama de vendido?

Tira o olho do meu dinheiro e corre atrás do seu. Eu sei onde meu calo dói. Se eu não for na Daslu ou no Big Brother quero ver quem vai pagar minhas contas.

Mas, nos tempos do Planet..

Nós éramos radicais pra caramba. Não iríamos no Faustão nem fudendo!

O que te fez mudar?

Eu não mudei, o que mudou foi o som. As letras do Planet Hemp eram uma coisa densa e de certa maneira não queria ir ao Faustão para ficar falando aquelas coisas tão pesadas. Com o À Procura, resolvi botar minha cara a tapa e ir ao Faustão, Luciano Huck, Jô Soares. Resolvi usar a máquina a favor da causa. Não só a causa contra a máquina.

E como a reação da gravadora [sony]?

Os caras só viram cifrão voando pra tudo quanto é lado. Meu objetivos são fazer música bem feita e entrar no mercado. Tenho 37 anos. Não quero morrer igual ao Bezerra da Silva, durango, fudido, tendo que fazer show até os 77 anos para sustentar a família.

Você não tem medo de ficar indo à Daslu e perder o público do hip hop, do skate?

Não. Eu não ando na Daslu, só entrei lá uma vez pra tocar. Como tem um garçom que trabalha na Daslu e a Daslu paga o que acha que tem que pagar pra ele. Isso não me torna uma playboy. Sou safo, sei comer lagosta como também sei comer ovo frito (risos).

Você não acha que perdeu a mão na matéria da Vogue RG (“D2 assume seu lado celebridade”)? Você está lá vendendo celular e marcas de roupas…

Não. Quando fui ao Faustão a primeira vez, entrou uma banda de axé depois de mim e eu saí falando “Pqp, onde tô me metendo?”. Aí eu pensei: “Eu já estou aqui e agora vou jogar mesmo. Vou pegar o Motorola e fazer propaganda, vou fazer propaganda de carro, de cerveja”. Mas é lógico que vou tomar cuidado, não quero que minha superexposição prejudique minha música.

Você apareceu na final do Big Brother e cantou [Pilotando o bonde da excursão.. do À procura] uma música que faz referência a maconha. Como você vê isso?

Eu não modifiquei minhas letras. Mudei minha maneira de falar com a imprensa. Não apareço mais no fantástico e fumo maconha na frente da câmera pra chocar. Pelo contrário. Você tem que saber jogar o jogo, o jogo não é só você, tem outros jogadores.

Quando começou a entrar uma grana boa?

Depois que eu ganhei meus primeiros R$ 50 com música, em 1995. Já estava bem satisfeito (risos). Comprei tudo em pó, cerveja, fui pro hotel com a mina, cheirei a porra toda e me acabei.

Você é um cara consumista?

Eu sou um cara consumista, mas não é banal. Não jogo dinheiro fora. Gosto de comprar tênis. Adoro tênis. Acho uma parada foda, não sei se é um trauma de infância (risos). devo ter uns 300 pares, sendo que uns 50 eu nunca usei. Mas não tenho aquele sonho de ter um iate, um apartamento em NY. Eu tenho ambições.

E o lance dos outros rappers falarem que você não é do hip hop de verdade?

Nunca me envolvi com o hip hop porque nunca consegui seguir uma cartilha. E se ser do movimento é seguir uma cartilha eu realmente não sou. Agora, o que faço é rap. E o que neguinho tem que baixar a cabeça e bater palma é que estou levando o rap para outro nível. Sou fã pra caralho de Racionais, mas eu não vou fazer igual a eles. Para onde o rap vai se ficar todo mundo imitando os Racionais? Desde “Sobrevivendo no Inferno”, o rap ficou num lugar-comum. Todo mundo queria fazer o próximo “Sobrevivendo no Inferno” mas ninguém nunca vai fazer porque aquele momento ali dos caras foi mágico.

Qual o papel da maconha na sua vida?

Diversão e só. Eu fumo pra ficar chapado. Não tem uma parada filosófica.

Você chegou onde queria chegar?

Musicalmente estou bem satisfeito, mas sou um cara um pouco inquieto com isso. As pessoas falam “Puta, o disco À Procura da Batida Perfeita e tal”, mas sei que não é nada perto do que eu poderia ter feito. E, se for falar de grana, tenho muito mais do que precisava. Não é luxo. É o que todas as pessoas deveriam ter: uma boa comida na mesa, um carrinho, uma casa. Eu tenho até mais do que um carrinho, mas o básico deveria ser acesso a todos.

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Um Brasil inquieto nos pés

Duas cadeiras brancas de boteco. Um sonzinho tomando conta daquele cantinho escondido no fundo do camarim. Uma latinha de cerveja na mão direita e um Brasil inquieto nos pés. Sambinha? Também. A parada é do Marcelo Maldonado Peixoto, ou D2, o cara que colocou o rap para brincar com o ritmo mais contagiante do país.

Marcelo D2 virou playboy?

Por que você aceitou o convite para fazer o show na Daslu?

Eu não tenho nenhum tipo de preconceito. Não deixo de tocar num lugar porque tem muito preto, muito branco, muito pobre ou muito rico. O que eu falo nas minhas músicas não é só pra pobre. Essa coisa de que todo preto é ladrão e todo playboy é racista é uma puta babaquice. Bom se todo mundo pudesse ser rico. O que faz as pessoas mesmo é a cabeça e o coração. Por isso, fui lá e toquei. Fui bem recebido pra caramba, assim como sou bem recebido em qualquer favela que eu vou. Foi um cachê alto, foi ótimo.

Por que você acha que sua música seria atraente a um público que paga mais de R$ 10 mil numa calça, por exemplo?

Dez mil numa calça? Então, meu cachê foi barato pra caralho! [rindo] Eu devo ter ganhado umas duas calças de cachê. Tem muita gente que não ganha isso na vida inteira! Então também foi um sacode nos caras, porque eu passo outros valores na minha música. Se não atingi a todos, se alguns só foram lá e dançaram, tudo bem. E é legal que os caras do rap estejam ligados com a galera que tem grana pra trazer dinheiro pro movimento. Nos Estados Unidos, o rap cresceu pra caramba porque tiveram pessoas qualificadas pro trabalho, não era só o cara do gueto.

Você é um playboy disfarçado?

Cara, eu gosto de me vestir bem, de andar com roupas maneiras. Sou vaidoso. Não sou playboy, não. Não gosto de gastar meu dinheiro com coisas fúteis. Se bem que não sei: se eu ganhasse 1 milhão por mês, comprava uma calça de 10 mil e não tava nem aí. O dinheiro é meu, vou guardar, levar pro caixão? Mas não sou playboy nem fodendo. Sou de família pobre, batalhador, trabalho desde os 14 anos, ralo pra caralho. Já fui porteiro, faxineiro.

Mas agora você tem grana, pode virar playboy…

Eu teria que nascer de novo. Isso vem de família, de quem tem muita grana. Eu sou músico, sou suburbano. Quem vem do gueto, vai sempre carregar o gueto. Posso sair dele, mas ele vem no meu coração, na minha maneira de ver. O que muda? Antigamente o churrasco era feito numa churrasqueirinha de caminhão, com carne de segunda. Agora a carne é de primeira e é feita numa puta churrasqueira maneira. Mas eu continuo fazendo churrasco no fundo do quintal com a galera.

aspas

“Eu sou daqueles que levantam, gritam, batem na mesa. Quero que todo mundo aceite a minha opinião”

“Eu esperava um governo mais radical, mas eu entendo o Lula, porque o radicalismo já fez ele perder várias e várias eleições. É melhor que ele vá conquistando a confiança do povo aos poucos”

“Já tenho filho, já fui pra cadeia, já fiz um disco: não sou mais adolescente, virei adulto”

“Nunca deixei de colocar nada [nas letras] porque era muito pesado. Muito pelo contrário: às vezes eu coloco umas paradas ali que é de propósito pra arrepiar mesmo”

“No Rio, eu era revistado pela polícia direto. Eles vêem um cara com o meu biótipo, que é de favelado, num carro maneiro ou num táxi, mandavam parar”

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“Em samba de roda já dei muito nó…Em roda de samba sou considerado”

Tu se consideras o pioneiro do hip hop brasileiro?

Eu sou de uma segunda geração.
A primeira geração que é Racionais Mc’s, Thaide Dj Hum, um dos primeiros a abordar o tema crítico-social com a música “Homens da Lei” que falava da violência social em São Paulo, Osasco e no ABC paulista. No final de década de 80, os Rappers começaram a produzir letras conscientes, versando sobre o racismo, pobreza e injustiças.
A segunda geração é composta por mim, Gabriel O Pensador, Mv Bill, tem até uma terceira geração. A minha época foi bastante influenciada por artistas de outros estilos como, Jorge Ben, Tim Maia, Gerson King Kong, James Brown, além da forte influência do samba que está presente no meu trabalho.
O caminho do rap é esse, regionalizar para tornar universal.

Qual disco da tua carreira solo que tu mais gosta?

Os meus álbuns são como um filho pra mim, não tem como gostar mais de um ou de outro, eles contam muito do meu momento, do que eu to vivendo.
São oito discos, três de platina e cinco de ouro. Os quatro discos, Eu Tiro É Onda, À Procura da Batida Perfeita, Meu Samba É Assim e a Arte do Barulho contam muito bem a história de misturar hip hop com samba. Ainda tem muita coisa para se fazer em cima disso, mas o caminho já ta trilhado.

Tu resgata muito samba antigo que a maioria da galera que escuta as tuas músicas não tem muito conhecimento. João Donato, João Nogueira, Bezerra da Silva…

Depois de Tom Jobim, o João Donato é um dos maiores pianistas de Bossa Nova que tem no Brasil.
Em 1998, quando eu fiz meu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda, resolvi chamar alguns músicos antigos pra participar. Chamei o Dom um Romão, um instrumentistas que tocou com Frank Sinatra, Elis Regina, um dos inventores da batida da Bossa Nova, outros percursionistas participaram também, aí resolvi convidar o João Donato e me surpreendeu muito, porque a maioria dos músicos antigos são mais fechados e ele não, aceitou na hora, gravou duas músicas, contou histórias da época que ele tocou com a Elis Regina.
Foi um dia incrível, ele tocando piano e contando histórias.
É muito bom trazer para a nova geração a velha guarda musical, senão os Arquitetos da Música Brasileira vão ficar perdidos lá atrás, ninguém mais vai ouvir falar de João Nogueira, que é um dos maiores sambistas pra mim, um dos meus preferidos.
Um momento da minha carreira que me deixou muito orgulhoso foi quando eu estava no Aeroporto esperando um vôo e veio um garotinho de 10 anos, eu pensei que ele fosse falar da música que eu cantei com o meu filho, ele virou pra mim e falou:
“Eu nunca tinha ouvido João Nogueira, eu e meu pai adoramos.” Muito legal isso, um garotinho de 10 anos ouvindo João Nogueira porque eu citei.

Como é para ti tocar para públicos diferentes?

Eu adoro tocar em festivais, porque tem bastante gente, sem contar que tem um monte de bandas, de vários estilos.
Mas, também gosto de tocar pra uma galera mais engajada, pra público pequeno e tal.

O que muda nos shows quando vai tocar em um festival para uma galera mais nova?

Em festival eu toco as mais conhecidas, é um show menor também. Se o público realmente quer ouvir músicas do meu disco solo, do Planet Hemp, tem que ir num show meu. Porque festival a gente faz um set começando com “Vai Vendo”, “Qual é”, só as músicas que tocaram mais.

Você acha que existe uma relação da moda com a música, um influência o outro?

A moda influência muito a música, você identifica um músico pela roupa que ele veste. O Rock, por exemplo, mexeu com a moda no mundo. Nos anos 80 vários músicos adotaram um estilo extravagante.
Moda é a maneira que tu te mostra para o mundo, fazer moda é fazer arte.

Tu se sente um produto? Rola uma crisezinha?

Pra caralho, mas não tenho crise não. Eu sei usar o marketing ao meu favor pra fazer as coisas que eu gosto. É engraçado que as bandas que fazem música de cunho social na minha geração (década de 90), são as bandas que sobreviveram, Nação Zumbi, O Rappa, Mundo Livre, a gente… Acho que eu já fui mais o “Pesadelo do Pop”.


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“Haja o que houver nunca pise no tênis”

O Marcelo d2 está sempre nos surpreendendo, há tempos ele se tornou um grande arquiteto da música brasileira e vem representando muito bem o Brasil ao redor do mundo.

A novidade é o videoclipe da música “Meu Tambor”, do cd “A Arte do Barulho” cantada por D2 em parceria com a Zuzuka Poderosa, e os beats do DJ Nuts.

O clipe foi dirigido por Gadja Monteiro, filmado nas ruas do Lower East Side em New York, com imagens de um pequeno show no jardim da Alife Rivington Club, onde outros nomes do Hip Hop já fizeram apresentações memoráveis.

“…A regra é clara, nunca tênis. Haja o que houver, nunca pise no tênis!”, é um clássico do “Do The Right Thing”, de Spike Lee.
Vale muito conferir.

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“Esse é só o começo do jogo…”

O filho do Marcelo D2, Stephan, está seguindo o mesmo caminho do pai.

Diretamente das ruas do Rio de Janeiro: Farouk, Shock, Sain e DJ Alves (SP) formam o START.

Fruto de uma geração que foi pioneira no rap carioca, cada integrante iniciou sua caminhada dentro do rap de diferente forma: Sain começou quando lançou sua primeira música em parceria com Marcelo D2. Farouk e Shock já tinham um grupo chamado Vícios in Versos (ex- Black Skull), que faziam shows pela cidade. Depois de algumas idéias e beats em uma tarde entre amigos surgiu o convite para Sain integrar o grupo e dessa forma, nasceu o START.

No começo de 2008, de São Paulo, após longas visitas ao Rio, veio o DJ Alves que se juntou aos 3 Mcs e o START estava completo.

O grupo têm como parceiros os artistas: André Ramiro (Matias – Tropa de Elite), Marcelo D2, Mc Marechal, Mc Aori, Max B.O. e Mario Caldato Jr.

Rap pra eles é compromisso. Sem forçar uma idéia, mas sim, entrar de forma natural na mente das pessoas, de forma que elas possam entender e interagir com a realidade atual.

“Stephan começou bem mais novo do que eu. Procuro não me meter muito na escolha deles. O grupo está no caminho certo, gosto da maneira que eles abordam os temas”, conta D2.

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