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“Nasce da alma, sem pele, sem cor”

Marcelo Peixoto sabe que caminhou pela contramão durante boa parte dos seus 41 anos.
E tem a certeza de que as suas muitas confusões com a Justiça, passagens pela polícia, prisão, ameaças de morte e brigas não lhe renderam nada mais que uma dezena de cicatrizes pelo corpo.

Como um mutante

Em relação às tatuagens, o rapper mal sabe quantas ostenta ao longo dos seus 1,70 m de altura. Tem o escudo do Flamengo, uma cruz sobre o escrito Zona Norte e o nome dos seus quatro filhos cravados em diferentes regiões do corpo. Luca, 7, está grafado em seus dedos da mão esquerda; a caçula Maria Joana, 4, mereceu uma grande intervenção acima do peitoral, assim como Stephan, 17.

“FUMO MACONHA TODOS OS DIAS. E NUNCA VOU
DEIXAR DE FUMAR, NEM DE ESCREVER SOBRE ISSO”

Viva a polêmica

D2 está recostado numa cadeira reclinável, numa sala nos fundos do número 626 da Rua Dias Ferreira, no Leblon. É lá que funciona o QG da Na Moral produções, agência do empresário Marcelo Lobatto, que cuida da sua carreira desde os tem pós do Planet Hemp, há 15 anos. “Tô muito ruim, cara. Carranca pesada de ‘quero ir embora agora!’. Esse negócio de tirar foto… Tu não sabe onde pôr a mão, o vira-lata da esquina fica latindo e enchendo o teu saco. Esse dia tava foda”, resmunga, enquanto observa as imagens de uma sessão realizada para o seu quarto álbum solo, A arte do barulho, produzido por Mario Caldato e lançado na última semana. Pede opinião, troca idéia, marca o número dos melhores cliques no papel e em frases como “Esse sorrisão fake táfoda”, “essa aqui tá natural”, “os azulejos atrás dão uma onda, hein?”. D2 é um sujeito muito ligado à imagem, “tipão” marrento que construiu à base de uma persona trangressora, impulsiva, mordaz.

Desabafo social

É o tal estilo de vida “na boa” que ajuda Marcelo D2 a focar em questões fundamentais para ele. A “falta de possibilidade” é a expressão da vez que pende de seu arsenal verborrágico. Juntam-se a ela sentenças que miram a exclusão e segregação de tipos sociais em guetos, além da retração em participarmos mais da vida uns dos outros. São as angústias que calam no peito, escorregam no lápis e explodem navoz do rapper. A bordo do single Desabafo  que recupera o refrão do samba Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro), gravado pela cantora Cláudia, em 1973  D2 reverbera seus questionamentos via estéreo 5.1. “As pessoas não têm a oportunidade de levar adiante um sentimento tão básico e nobre como o querer. Isso dá nó na garganta, porque vejo a molecada estudando em escola pública, onde os professores entram em greve e o tráfico esconde armas no pátio.” Apenas quando escreve sente-se efetivamente participativo.

A VERBORRAGIA DO RAPPER VAI PARAR NO CINEMA  LEMBRANDO DE UM VELHO AMIGO

Em parceria com o diretor Johnny Araújo, D2 elabora o roteiro para um longa-metragem. O filme, em parte autobiográfico, conta a história de dois amigos, ou seja, D2 e seu parceiro de noitadas na Lapa e de Planet Hemp, Skunk.”Foi um anjo que apareceu na minha vida. Colocou o sonho dele nas minhas mãos e partiu dessa para uma melhor.” A amizade durou três anos. Era muito forte e contraditória. “Eu era de classe média baixa, família branca, da Zona Norte e ligada ao candomblé e umbanda. Ele era da classe média alta, família negra, da Zona Sul e católica.” A partir dessas contradições, Marcelo D2 conta a história “de dois caras que buscam seu caminho de afirmação através da música.” Marcelo,  em casa, com dois dos quatro filhos, Luca e Maria Joana: pai presente.

De bar em bar

D2 tem um roteiro de chopp que  segue religiosamente: “bebo todos os dias” O caminho começa no Leblon. no Jobi, no azeitona ou no bracarense. O rolé boêmio do flamenguista criado entre os bairros do Andaraí, Catete e Glória também se estende aos pagodes da Zona Norte, como o da tia Doca, em Oswaldo Cruz, e no morro da Serrinha, que abriga a escola de samba Império Serrano, em Madureira.  O rapper, diz sentir-se em casa mesmo no bar do serafim, em Laranjeiras.

“Chego aqui a qualquer hora do dia e não preciso combinar com ninguém. o Juca (Ferreira, dono do boteco) aparece, a gente troca uma idéia e as vezes ele me dá aquela moral… não deixa eu pagar a conta.”

O MANIFESTO

“É PRECISO ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA”

O texto “serve para que as pessoas não se deixem acomodar. Caiu, levantou. Chega de viver o sonho dos outros. Tem que fazer acontecer.” Quando sinto o impulso escrevo sem pensar Tudo que meu inconsciente me grita Penso depois, não só para corrigir, Como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história…

Deixar de viver os sonhos dos outros…

Queremos cumprir nossa missão que é fazer Algo de verdade que venha do coração Nós temos a coragem do Afrosamba, De Vinicius de Moraes e Baden Powell…

A visão de Tom Jobim, Nós queremos modernizar o passado, como Chico Science falou Nós declaramos que não somos só um número E queremos escrever o nosso nome Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade A possibilidade de fazer e de participar…

Fácil de entender

A preocupação de falar as coisas na lata, para que todos possam entender o seu discurso é uma tônica no trabalho do rapper. Nada a ver com o rap “sisudo e pseudo intelectual que gosta de usar palavras rebuscadas, como a simbiose da puta que o pariu”. Bastam alguns tiros para entender que o universo dos DJs, grafiteiros e MCs é o que melhor define a atual geração jovem e o mundo globalizado em que vivemos. “Musicalmente, é o estilo que abriga todos. Você pode tacar rock, música africana e samba, como fiz agora, que vai dar caldo com o rap. É a coisa mais livre que existe.” Mas tem sempre uma galera que tenta restringir. “É que nem botar tapa-olho em focinho de cavalo”, advoga. E continua falando do aspecto globalizado da parada: “Na Praça Vermelha, em Moscou; na Palestina e até na China você encontra um cara como eu, de boné para o lado, bermudão e tênis old school.”

“QUANDO ESCUTAM A MINHA MÚSICA, AÍ, SIM, MEU IRMÃO, CUMPRO O MEU PAPEL”

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“Siricotico ticotico no fubá ticotico pó de mico quero ver no que vai dá”

Divulgação

Foi difícil pra
você, que faz rap, cantar samba?
Foi tranquilo gravar a voz, sabia? Mas, fiquei um pouco nervoso. Me deu uma rouquidão, cara, que eu nunca tive na minha vida. Nunca fiquei rouco três dias seguidos.

Insegurança, talvez?
Acho que foi um nervosismo, mesmo, Gravei quatro dias num dia e fiquei tão nervoso, que no outro dia não consegui gravar nenhuma.

Ficou de fora algum clássico do Bezerra?
Porra, cara, o Bezerra tem clássico pra caralho! [risos]. Tem neguinho que falou: “Porras, tu não colocou ‘Zé Fofinho de Ogun?’ Tem um que ele diz [canta] “Se quiser cafungar ou dá dois vai na sacristia com o sacristão”, essa também não gravei. Vou te falar, eu fugi um pouco das músicas de pó. Não queria cantar “Cocada Boa”.

Por quê?
Tou meio de saco cheio de pó. Não sou contra ninguém, nem contra nada. Se quiser cheirar aí, pode cheirar tá ligado? Não vou falar que eu parei totalmente, que nunca mais. Mas é que agora eu não gosto mais dessa balada. Aí falei: “Aaaah, não vou gravar essa, não.” Pó antes era uma parada mais yuppie, festa de rico, depois era mais normal e hoje tem pó de 5 [reais], porra! Era uma coisa mais escondida, tá ligado? Hoje é todo mundo no banheiro. Mas aí o Leandro Sapucahy [cantor, campositor e produtor do disco] encheu o saco pra gravar “Cocada Boa”. Gravei a voz meio na má vontade. Quando a gente acabou, o Leandro falou: “Beleza, essa daqui tá boa. Agora, faz com vontade que ela entra no disco” [risos]

Como conheceu o Bezerra da Silva?
Ia rolar um show no Canecão e o Planet pensou em convidar o Bezerra da Silva, tipo um ‘special guest’? Bora! Ligamos pra ele. que disse: “Já ouvi falar, vocês são aqueles maconheireos que aparecem na TV com aquele cabelão!” [risos] “Somos nós mesmos” Qual que é a parada?. Falamos: “Então, a gente queria que o senhor participasse de um show nosso…” E ele: “Primeiro, senhor é o caralho! Senhor tá no céu. Quanto é que tem de dinheiro? Tem dinheiro?” Falei: Ah, a gente tava pensando que seria de graça. , mas se quiser cobrar…” Não, então eu vou lá e vocês ficam me devendo essa”, ele disse. Aí o cara foi no show, meu irmão, a gente ensaiou três músicas pra cantar com ele. A gente sabia que ia tocar duas e, se ficasse bom pra caralho tocava mais uma. Aí tocamos umas cinco, seis, tá ligado? E ele não saia do palco, a molecada tava meio assim já, queriam ver a porrada comer [risos], querendo ver rock e ele lá no palco. Foi demais! Aí logo na sequência, acho que em 96, eu e ele ficamos bem próximos.

O Bezerra da Silva não era muito doido?
Não era, cara. Eu nunca fumei bagulho com o Bezerra. Ele tinha uma parada comigo, principalmente depois que meu pai morreu, em 98. ele me ligou pra falar do meu pai, pra falar que pra qualquer parada tava lá, que se eu precisasse tomar uma cerveja, se quisesse conversar. Ele me tratava muito como filho também. Em 98, quando eu comecei a turnê do Eu Tiro é Onda, a gente foi fazer uma homenagem ao Chico Science, eu liguei pra ele e pedi um pandeirista, tá ligado? Aí ele mandou o Tuca, filho dele. Na hora eu e o Tuca colamos, ficamos parceiraços, os dois porra-loucas pra caralho. Andamos o ano inteiro juntos, passei a frequentar a casa dele.

Em 2010, o Usuário completou 15 anos, é possível uma reunião da banda?
Às vezes sinto saudade daquela época, saudade dos caras mesmo, de tá com os caras ali, tomar cerveja, bater papo. mas, a gente nunca conversou sobre uma reunisão do Planet Hemp.

Tem algum empecilho pessoal? Alguma rusga?
Não, cara. Eu briguei com o Bernardo, Bnegão, ficamos dois anos sem se falar, mas voltamos a nos falar. Tem esse disco de sambas do Bezerra, ano que vem vou morar em Los Angels. Sei lá…pensando agora, neste momento acho impossível. Tem algumas coisas sobre a volta do Planet Hemp que eu queria falar. Primeiro: nós não somos mais aqueles moleques. Se fosse um show ou uns shows pra gente se reunir de novo, pra galera tomar uma cerveja e ver a gente tocando de novo, eu acharia interessante. Mas, pô, cara, eu tenho um receio tão grande disso..

Por quê?
Por que o Planet foi uma parada daquela época, das pessoas que a gente era. Um disco de maconha lançado menos de dez anos depois que a ditadura tinha acabado? Foda, cara, é uma parada muito importante pra vocês ficar, saber qual é? Remexendo.  Sei lá, tenho medo de mexer, tá ligado? E ficar parecendo aquelas bandas que voltam com os caras velhinhos e os fãs vão lá e falam: ” Puta, que merda! Era tão legal antes.” Melhor que fiquem só com aquela imagem, que, porra era tão legal antigamente. Mesmo os caras que dizem que “Marcelo D2 era legal quando era do Planet Hemp.” Prefiro que fiquem pensando assim do que voltar pro Planet Hemp pra agradar esse tipo de gente. E outra coisa, o Planet Hemp dava muito problema, cara. Voltar pra tudo isso, cara? [risos]. A coisa da Justiça. Imagina a Justiça batendo na minha porta de novo? Processos e processos. E só eu que assinei os processos. Foram 18 processos. O Planet era meu, é meu né cara? O bagulho é meu e eu registrei tudo.”

Morar na Califórnia é um sonho seu?
É um sonho meu de moleque. Mas agora esse sonho é mais por eles do que por mim, tá ligado? Porque pra mim é a maior conveniência morar no Leblon, vista pro mar, maior apartamento legal. Em Los Angeles não vai ser essa vida de Leblon, sabe qual é? Vamos ter que morar no subúrbio. No Leblon eu desço de chinelo, tô em casa. Mas, porra, cara, eu e a [minha esposa] Camila temos uma parada muito parecida, a gente é muito nômade, sabe?

Já sabe onde você vai morar em Los Angeles?
Cara, lá fora o estudo é muito caro, mas tem boas escolas públicas, né? E uma escola muito boa é a de Silver Lake, tem aula de música, de teatro, o Flea [baixista do Red Hot Chili Peppers] dá aula lá de música, alguns outros músicos também. E, pô, é do lado da casa do Mario Caldato, do B-Plus, do Madlib, todos os meus amigos dali, sacou? Então quero ficar perto dos caras. E se a gente morar no bairro pode matricular as crianças na escola do bairro.

E você vai fazer o quê lá?
Eu tava querendo abrir uma paradinha lá só pra ter alguma coisa pra fazer. Um bar, um café, uma parada assim. O [DJ] Nuts que botou uma pilha e falou: “A gente leva disco daqui pra lá, faz uma galeriazinha, um barzinho, loja de disco…” Vou acabar vendendo algo brasileiro, né, cara, senão vou vender o que pra eles lá? [risos]

Seu inglês é perfeito? Dá para rimar em inglês?
Cara, eu me viro. Mas rimar em inglês, pelo amor de Deus! Ia ficar tosco pra caralho! Tem que dominar muito a língua. A ideia é a gente ir em fevereiro e, como as aulas começam só em julho, todo mundo estudar inglês nesse tempo. Tem que aprender a falar inglês bem, né, cara? É importante pra caralho. Vou te falar que eu sinto maior falta. Acabei de voltar da Suíça e meu inglês é muito tosco, tá ligado? Pra dar uma entrevista que nem eu tô falando com você assim fica uma merda. Aí o que acaba acontecendo? Tu acaba encurtando a resposta, né? [risos] Não fala o que você tá pensando, fala o que consegue falar e porra, aí é foda.

Foi trabalhar na Europa?
Fui tocar, cara. Foi a quarta vez que fui esse ano pra Europa – Suíça e França. Agora a gente vai de novo esse mês que vem [agosto], são quatro shows na Inglaterra e um em Paris. Em setembro vamos mais uma vez. Tá legal lá na Europa pra gente, cara. Tocamos num festival de rap que teve Eminem e Jay-Z como headliners, mas Nas e Damian Marley foi o melhor show. Caralho, aí, foi foda! Cheguei um dia antes pra ver esse show dos dois juntos. Era a banda do Damian Marley e o Nas participando porque eles lançaram um disco juntos. O Nas tava só se divertindo, animadão, sorriso na cara, toda hora falando que era fã do Damian Marley. Showzaço, cara. Tinha um maluco… rasta. Sabe aquele cara que vem falar uma parada no começo do [filme jamaicano] Rockers, um rasta com um cajado? Era tipo um cara assim, mas com um jogging Puma da Jamaica, o show inteiro, sem sacanagem, uma hora e dez e o cara pulando no palco, dançando com a bandeira da Jamaica [risos].

E o Jay-Z, você viu?
Jay-Z foi animal. O Eminem é que foi meio chato, cara. Mas sabe o que foi foda? Dizzee Rascal. O show dele funciona muito pra festival. Eu já tinha visto ele, cara, em Londres, num clubezinho pra quinhentas pessoas. Foi legal, mas no festival, cara, foi foda. O DJ do cara não tinha um braço! Tocava só com um braço e botava a boca no mixer. Tocava pra caralho! Era inacreditável. Tocava muito, muito! DJ foda! E era só ele, o DJ e um cara. Maior showzaço, a porrada comeu legal.

Você imaginava sucesso, shows na Europa, e tudo mais, quando fazia um som com o Planet Hemp numa garagem qualquer?
Cara, tocar em São Paulo era o máximo pra gente! [risos]. Se viesse pra São Paulo já seria foda, sabe qual é? Eu pensava: “Porra, vou tocar em São Paulo! Que maneiro, cara!” Já tava bom pra caramba. Agora, cara, já toquei em vinte e quatro países.

Viajar tanto não enche o saco depois de certo tempo?
Até 2008, a gente passava 40, 50 dias na Europa. Aí, ano passado eu falei que não queria mais fazer isso. Só ia pra Europa de novo se fosse pra passar uma semana, dez dias, no máximo, e aí volta, passa 15 dias aqui, depois volta pra Europa de novo. Não aguento mais passar 60 dias na Europa, longe da família, andando de ônibus pra lá e pra cá. Porra, é chato, tá ligado? Aí tu vai pra Londres, porra, fica aquela obrigação de ter que ir pra rua, pra passear – “Porra, tô aqui em Londres. Não vou ficar no hotel. Tem que dar um rolê!”. Chato pra caralho, entendeu? Cansativo pra caralho, caro pra caralho.

Você fez alguma preparação para cantar samba? Alguma aula de canto?
Eu tentei, cara. Vou te falar que eu fui uma única vez no professor de canto, mas não teve jeito. Achei muito chato [risos]. Falei: “Ah, meu irmão!, não vai rolar não! Deixa essa porra assim mesmo”. [risos] Foi engraçado porque todo mundo falou: “Faz uma preparação pra tua voz, cara”. E eu queria fazer o disco de uma maneira diferente, estou acostumado a chegar no estúdio sem letra, sabe? Pensei: “Esse disco vou tratar de uma outra maneira, mais profissional, vou fazer uma preparação”. Aí marquei uma hora com o cara, fui lá, e o cara: “Pô, vai no otorrino pra ver se a sua garganta não tem alguma inflamação, alguma coisa, e aí a gente já começa a trabalhar”. E fizemos uma aulinha ali mesmo. Mas, porra, achei chato pra caralho! Fui no médico e ele falou: “Não, tua garganta tá ótima!”. Falei: “Ah, quer saber? Então não precisa de porra nenhuma!”.

E aí rolou tranquilamente?
Cara, assim, os sambas que eu conhecia e sabia de cor sem precisar ficar lendo foram moles, né? Matava uma voz em meia-hora. Mas teve outras que foram mais difíceis. As músicas que têm letra muito grande demorei mais para gravar a voz. Porra, e aí tu começa a ficar irritado, não sabe se tá bom ou se tá ruim. Mas no geral, foi tranquilão, cara. O Leandro canta também, então me ajudou pra caralho, sabe qual é? “Vai aqui, essa nota tá errada, pá, vamo consertar essa nota só, tá bom”, entendeu? A gente escolheu pro disco basicamente as que eu gostei mais da minha voz. As que eu fiquei mais à vontade e tal.

Tem uma história sobre o Bezerra da Silva que conta que ele foi buscar o filho na boca. É verdade?
Tem essa parada aí, mas sei lá. O Tuca tava meio afastado dele porque tinha se envolvido com a bandidagem e o Bezerra tava puto. Aí contam que ele foi buscar o filho na boca. É uma história, que, sei lá, eu soube também. Ele foi lá, pegou o Tuca e falou: “Larga essa porra desse fuzil aí e vamos embora!”. E os cara: “Qual é, Bezerra!”. E ele: “Qual é o caralho, porra! É meu filho!”. Ele era muito respeitado em tudo quanto é favela, né. Era o embaixador das favelas. Ele botava muito a mão no meu ombro na hora de falar. Gostava de falar baixinho comigo, chegava assim e falava calmo.

Ao mesmo tempo em que ele é uma das grandes figuras da nossa música, ele nunca teve o reconhecimento que mereceu em vida. Por quê?
Sei lá, cara, o Brasil é foda nisso aí. O Bezerra teve que tocar até o fim da vida. Ele morreu com 77 anos, mas, porra, parecia que tinha uns 80 e poucos, tá ligado? Ele falava: “Tenho 75 anos de favela mesmo. E não 75 anos de asfalto, zona sul”. Ele tinha de fazer uns shows por cachê baixo, não se valorizava muito, sabe qual é? Ele tinha uma mentalidade daqueles músicos mais antigos, de que a gravadora tinha que fazer tudo. Na minha geração a gente já tava aprendendo a não esperar a gravadora fazer tudo, hoje em dia, então, molecada nem sabe o que é gravadora.

Mas você não conversava com ele, não aconselhava, já que é um cara com uma visão, digamos, mais moderna do negócio da música no Brasil?
Eu tinha um pouco de… Era assim com meu pai também. Não sei se a palavra é vergonha, cara. Mas quem sou eu pra dizer o que o Bezerra da Silva deveria ou não fazer, cara? Eu tinha a minha visão, ele a dele. Era uma questão de respeito, você não pode chegar pra um cara como ele dizendo o que você acha que ele tem de fazer. Mas uma vez eu falei: “Pô, Bezerra, para de regravar coisa, cara. Faz um disco só de inéditas”. Porque ele ficou anos regravando. Pega “Malandragem Dá um Tempo”: tem umas sete ou oito gravações, tá ligado? Então ele tem disco pra caralho, mas repetia muitas músicas. E ele: “Não, vou fazer esse aqui, ó, para reviver as músicas e tal”. O cara naquela idade também, né, cara, não tem mais pique de botar música nova e ir pra rua defender a música, sacou? Ir na rádio, ir no Faustão, não sei aonde, “olha minha música nova”. É foda. E no final ele tava um pouco impaciente com as pessoas. Acho que é aquela coisa também de que todo mundo chegava nele e: “Fala, Bezerra da Silva! Uhu! Vamos dar um teco aê!”. O cara com 75 anos, de saco cheio, já tinha virado crente. No enterro, alguém falou: “Malandro foi o Bezerra, que no fim da vida se converteu e pronto” [risos].

Como você recebeu a notícia da morte dele?
Eu tava em turnê, cara. Cheguei no Rio e fui lá no hospital, mas ele tava dormindo – e já tava bem mal. Saí de lá já sabendo que ele não ia durar muito. Lembro que eu cheguei de viagem, virado, tipo sete da manhã, e a Camila falou: “Deixaram um recado nessa madrugada, o Bezerra morreu”. Foi foda. Tomei um banho e fui pro velório. Não sei lidar muito bem com morte não, sabe? Sempre parece que é uma coisa mais egoísta nossa, tá ligado? Porra, sempre aquela coisa: “Podia ter feito aquela música com ele; por que aquele dia eu não liguei pra ele?; puta merda, devia ter falado não sei o quê pra ele”, sabe qual é? Aí, a Regina, mulher dele, falou: “Ele deixou umas coisa lá pra você. Pediu pra te dar o bongozinho dele e o chapéu”.

Você compara de alguma maneira a perda do seu pai com perda do Bezerra da Silva?
Meu pai é meu pai, né, cara. É bem diferente. A morte do Bezerra eu comparo com a morte do Skunk [com quem D2 fundou o Planet Hemp], sacou? Foram duas perdas muito grandes de dois grandes parceiros na música. Perdi aquela coisa de muita troca, sabe? De conversar, de às vezes nem falar nada, mas estar perto ouvindo. O Bezerra falava muita coisa pra mim, cara. Ele foi muito culpado nessa parada de eu me aprofundar mais no samba. Perdi um amigo de verdade, um parceiraço. Ele era aquele tipo de cara que eu tinha uma dúvida na música e ligava: “Bezerra, olha isso aqui que eu escrevi: ‘Essa onda que tu tira qual é? / Essa marra que tu tem qual é? / Tira onda com ninguém, qual é?’. Tô pensando em fazer o seguinte: ‘Tira onda com ninguém, qual é? / Qual é, neguinho? / Qual é?’. O que tu acha?” E ele: “Vai em ‘Qual é, neguinho? / Qual é?’. Todo mundo fala isso. Isso aí tá na cabeça do povo. Vai nessa”. Isso aconteceu mesmo.

Quando falam de rap nacional quase nunca citam seu nome. Você se sente excluído?
Neguinho me exclui muito, né, cara? Principalmente a imprensa de São Paulo. Falam: “O rap nacional – MV Bill, Racionais MCs…” Só que, cara, me desculpa, mas, porra, eu toquei em 24 países, tá ligado? Vendi mais disco e fiz mais show e eu faço rap também. Sou bem recebido pra caramba em São Paulo, meu maior público é em São Paulo. Apesar de alguns não gostarem, tem que me engolir, né cara? Tô há 17 anos nessa porra! É aquela coisa: pra ser rap tem que usar calça larga, ter cabelo de rapper, tem uma cartilha, tá ligado?, que se rege assim. Isso prejudica o rap pra caralho, tá ligado? As pessoas adoram e vai todo mundo ver o show do 50 Cent. Mas vê se neguinho vai no show do Emicida. Eu vou te falar, prefiro o Emicida que o 50 Cent. Alguém tinha esperança de que ia ser bom o show do 50 Cent? Lógico que ia ser uma merda.

Baixe GRÁTIS http://fb.me/BHd7cMsD 3 músicas que não entraram no CD Marcelo D2 canta Bezerra da Silva. Nas lojas em setembro!

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“Bem melhor que você, é estar bem comigo. É ter muitos amigos é cantar, é sorrir. É viver a vida, é curtir cada minuto e segundo”

A carreira solo de Marcelo Maldonado Peixoto está entre as mais bem sucedidas do país. Depois de cinco discos azeitando a mistura de rap com samba, ele se entrega de corpo, alma e voz ao mais brasileiro dos ritmos, homenageando um de seus mestres, Bezerra da Silva, em um disco só de sambas de verdade – sem rimas, scracthes, samples ou batidas eletrônicas. Criticado por grande parte da cena hiphop, se diz excluído pela imprensa de São Paulo, cidade que concentra seu maior número de fãs. Marcelo D2 não é Zagalo, mas sentencia: “Eles têm de me engolir!”, correndo à margem das críticas e deslizando suave pelo caminho do sucesso que escolheu lá atrás, antes de fazer parte do hoje quase lendário Planet Hemp, “uma banda tensa”, segundo o seu mais famoso integrante. É um D2 tranquilo, alguns casamentos nas costas, quatro filhos e 42 anos, que abre a porta do quarto de hotel, no bairro paulistano dos Jardins, pausando o videogame. Cervejas depois, ele está à vontade para falar de drogas, Bezerra da Silva, a volta do Planet Hemp, as diferenças entre rap e samba, a confusão com os Racionais, as eleições e os sonhos que ainda pretende realizar.

Você já realizou seus sonhos?
Meus sonhos de quê?

Aqueles que você tinha antes de fazer sucesso.
Os sonhos que eu tinha, sim. Mas eu tenho outros, né, cara? Eu sou um sonhador fodido. Sonho acordado direto, sabe qual é? Minha vida é um sonho legal mesmo… Sei lá, cara, meus sonhos são outros agora. O que era pra mim antigamente, hoje eu sonho mais pros meus filhos, tá ligado? Agora em fevereiro, por exemplo, vou com a família toda pra Los Angeles, pra morar uns dois anos lá. Vai eu, minha mulher, nossos dois filhos, o Luca e a Maria Joana, e o meu filho mais velho, o Stephan. Lógico, eu tô indo pra fazer um disco de rap lá, cantar com os caras de lá, mas, porra, tô indo mais por eles, sabe qual é? Pra eles estudarem inglês. O Stephan tá começando a fazer som, tem banda e tal, vai estudar engenharia de som, tá ligado?

Ele está com quantos anos?
18.

E as conversas sobre drogas já rolaram?
Já, cara, mas o Stephan é sossegado.

Ele fuma erva?
Maconha ele fuma, cara. Tá com 18 anos, não dá nem pra proibir mais. E quer saber, cara? Não tenho muita preocupação com isso, não. O Stephan é um moleque muito com a cabeça no lugar, tranquilão pra caralho. Só não gosta de estudar, mas isso é normal. Ele repetiu o ano passado.

E álcool ou cocaína?
Eu falo pra ele: “Se quiser experimentar, cara, é comigo. Cuidado aí! Vai cheirar não sabe o quê, pó vagabundo, essas coisas”. Mas é o tipo de coisa, cara, o moleque tem 18 anos, tem a galera dele, não é uma coisa muito que o pai… Só fico ali do lado, vendo o que tá acontecendo, com quem que ele tá andando. O Stephan é mesmo muito sossegado, tipo: “Tá tranquilo, pai. Você acha que eu vou cheirar essa merda?”

Você já foi o usuário de maconha mais notório do país. Como lidar com isso perante os seus filhos?
Primeiro que meus filhos mais novos nem sabem disso, né, cara? Não pegaram essa época.

Quantos anos eles têm?
A Lourdes tem 11 anos; o Luca, 9; e a Maria Joana, 5. Eu não sou o tipo de pai que proíbo as paradas, sacou? Com os mais novos é lógico que imponho coisas, limites. Mas com o Stephan eu não vou proibir nada. Sento com ele e converso. Este ano falei: “Ó, tu repetiu, era pra ter terminado o ano passado e tu repetiu. Não vou ficar pagando R$ 30 mil, R$ 20 mil de escola por ano pra tu repetir, tá ligado? Agora, acaba essa porra! Vai pra uma escola mais barata, um supletivo, de dia, acaba essa porra logo, meu irmão, e aí vê o que tu quer fazer da tua vida. Quer ser músico? Então
vamos investir nisso”.

Como surgiu a ideia do disco em homenagem ao Bezerra da Silva, com sambas que ele gravou?
Quando ele morreu, cheguei no velório e o Zeca [Pagodinho] tava lá, sentado com a cervejinha aberta. O caixão ali, o Zeca sentado perto, lá no [teatro] Carlos Gomes. Eu cheguei sozinho, às 10 da manhã, com o olho cheio de lágrima, e o Zeca: “Ô, D2! Ta chorando? Tá maluco, rapaz? Em enterro de sambista a gente não chora, não! Em enterro de sambista a gente comemora! Senta aí e pega um copo, parceiro!” Peguei um copo e começamos a beber. Porra, aí chegou o Dicró contando história: “Esse é um 171 mesmo! Morreu em 17 de janeiro, 17 do 1!” [risos] Aí chega não sei quem, chega outro, e mais outro, e daqui a pouco tava a maior galera, a gente conversando, contando história do Bezerra. A gente chorava de rir. E no velório mesmo veio esse papo, tá ligado? “A gente tinha que fazer uma coisa pro Bezerra”, não lembro exatamente quem falou. “Porra, o Marcelo é quem tinha que fazer o disco. Todo mundo já gravou pra caralho com o Bezerra, todo mundo conhece o Bezerra há muito tempo. Marcelo era o amigo mais novo dele. Tu tinha que fazer o disco!” Saí de lá, cara, sem sacanagem, às 7 da noite, bêbado, exausto. Fui pra casa, dormi e sonhei com ele pra caralho. Sonheique a gente tava no palco.

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“Brincando com as palavras no meio de uma sessão”

MÚSICA

Pra mim música sempre foi diversão. É difícil definir. Pode ter música pra tudo. Pra te fazer chorar, sorrir, música pra te fazer pensar, pra curtir. Eeei, isso dá música [risos].

ROCK

Rock é atitude. Rock se define em um nome: Jimi Hendrix.

RAP

Isso pode servir para qualquer música. O rap tem também um lado muito escroto, muito comercial. Mas, acho que a atitude e a facilidade do rap de fazer as pessoas se expressarem é que me deixam intrigado. É fácil pegar um papel e escrever uma letra sobre o que está acontecendo no dia a dia. Rap pra mim, é a minha vida.

SAMBA

O samba hoje em dia pra mim significa raiz.. Já tive meu momento de não gostar de samba e só de hardcore e tal. Uma rebeldia da adolescência. Mas, pra mim samba é raiz.  O respeito pelos mais velhos, respeito por quem fez, respeito por quem faz. Acho isso muito bonito no samba. As pessoas do samba têm muito respeito, dignidade. É bonito pra caramba!

POLÍTICA

Porra cara…Se me perguntasse isso há cinco anos, eu diria que nunca me envolveria com política. Hoje, em dia eu já penso daqui uns dez, quinze anos, quando eu estiver cansado de militar através da música, entrar na política partidária. Uma pessoa que me abriu muito a cabeça para isso foi a Soninha [apresentadora de tv e vereadora em São Paulo.] Eu tenho muita admiração por ela, que é do bem total.

DROGAS

Gosto muito! Eu gosto pra caramba. Mas, tem que saber o limite. Hoje, meu corpo não guenta mais tanto. Meus cabelos brancos…

JUVENTUDE

A juventude pode ser dividida em algumas coisas. Outro dia que estava conversando com a minha cunhada. Eu acho que vou ser moleque a vida toda! Não o consigo me ver coroa [risos]. Posso fica velho, acabado, mas vou continuar me vendo meio moleque.

ARTE

É essencial. Cada vez mais eu acho essencial para o ser humano estar envolvido com arte. É bom para desenvolver os sentimentos. É bom para buscar a felicidade. Cinema, música, literatura, teatro… Tudo isso torna a gente mais inteligente. No dia a dia isso é importante pra caramba. Cultura é bom quando podemos levar para o dia a dia. Engrandece o homem.

BRASIL

Não consigo ver o Brasil como um país da América Latina. É uma país tão grande que é difícil definir o povo brasileiro. Os gaúchos, os cearenses, são tão diferentes, que é difícil dizer que são o mesmo povo.  É isso que faz o Brasil ser do caralho. Mas, politicamente acho muito difícil sairmos dessa “pindaíba” em que estamos. Mas, patriotismo eu não acho muito bom. Esse sentimento de colocar a pátria acima de tudo. Acima de tudo estão as pessoas.

RIO DE JANEIRO

Eu sou cria do Rio. Gosto muito de vários lugares do mundo. Sempre vejo paradas maneiras, mas não consigo morar fora do Rio. O Rio de Janeiro sou eu. As pessoas que moram aqui são iguais a mim. É a minha cidade!

VIOLÊNCIA

O mundo tá violento pra caramba. A grande culpada disso tudo é essa forma de tratar essa coisa do vencer, de ser alguém. Isso de precisar ter o tênis tal, o carro tal. Essa coisa de precisar ter. Você junta isso com a desigualdade social, a miséria, a má distribuição de renda. Isso gera muita violência. Eu moro num lugar onde ouço tiros todos os dias, é normal! mas, se eu pensar que esse tiro, mata alguém..Isso não pode se transformar numa coisa normal. Como é todo o dia, a gente se acostuma.  E isso é o pior: a gente vai se acostumando. Quando eu era moleque morava numa área perigosa, mas quando ouvíamos um tiro, era um acontecimento. Hoje, é normal.

AMOR

Essa palavra sempre esteve fora do meu dicionário. Meus filhos me ensinaram. Minha mulher também. Um simples ato de amor vale mais do que qualquer coisa. Meu filho vir dar um beijinho no meu joelho machucado é amor. Parece até que a dor passa.

FAMÍLIA

Família sempre foi importante para mim, mesmo tendo tido uma relação familiar meio confusa. Meus pais nem eram tão presentes assim no meu crescimento. Sabe como é família classe média baixa…Eu tento ser mais presente para os meus filhos. Mas isso nem é o mais importante. Amor de família é uma proteção. É muito bom saber que tem gente que se preocupa contigo. Hoje eu tenho a minha família, a família que eu formei e hoje eu posso dizer que é estável.

FILHOS

A melhor coisa. Não tem amor igual de um filho. E quanto mais filhos você tem mais dá vontade de ter outros. Tenho quatro e cada um é uma figura totalmente diferente. Mas, todos me têm como elo. Os filhos são o melhor amor do mundo. Quando teu filho nasce, você entende o sentido da vida.

AMIZADE

Eu tenho as minhas amizades como se fossem minha família. Gosto muito dos meus amigos. De ter amizades reais. Depois de fazer sucesso, pinta muita gente querendo ser teu amigo, não só por interesse, mas por admiração. Meus amigos têm coisas pra me passar, valores…Tenho poucos amigos, mas são amigos mesmo. O Yuka já falou “Família não é sangue, é sintonia”. Amizade é isso aí. Nem precisa estar falando direto e tal, mas quem é amigo é amigo mesmo. Na hora que encontrar vai ter a mesma intimidade.

JUSTIÇA

Porra cara…Falar de justiça num país como o nosso…Aqui a lei é feita para reprimir. Não é para ser justa. Não existe justiça no Brasil.

TECNOLOGIA

É importante, mas não é tudo. As pessoas estão escravas do avanço tecnológico. Todo mundo tem que ter celular, câmera digital, computador. Acho isso uma escravidão. Vejo meu filho de 13 anos dizendo que tem que ter celular. Outro dia teve uma situação engraçada. Fui com ele na escola e fiquei de papo com os amigos dele. Um me perguntou o meu email e o Stephan disse: “Meu pai não tem email, não!” E todos caíram na gargalhada, incrédulos…Não é a tecnologia que faz o mundo girar e sim o homem. Hoje parece que as pessoas jogam tudo para a tecnologia. Sou do tipo que prefere falar pessoalmente. Hoje, qualquer um grava disco, afina a voz, sampleia…É sinistro.

FUTURO

Se for pensar em futuro a longo prazo, eu digo que o ser humano vai acabar com o mundo [risos].

PRESENTE

Não posso reclamar, minha vida está boa. Estou me sentindo amado, amando, fazendo o que gosto… Minha família está na boa.

PASSADO

Tento não reclamar do passado. A minha infância foi boa para eu aprender a tirar o melhor das coisas. Nesses últimos anos, eu trabalhei muito. Nos últimos 20 anos eu trabalhei muito mesmo. Muita luta. Mas é foda quando a gente percebe que o passado vai ficando maior que o futuro. Acho que estou no meio. Viver até os 74 tá na boa.

MULHER

Gosto muito. Eu tenho fascínio pelo sexo oposto. É foda! Sou mulherengo mesmo. A Camila deve sofrer com isso. Eu já tive problemas e devo ter causado muitos problemas para as mulheres. Mas agora…Eu nunca me acertei tão bem com a Camila. Acho mesmo que vai ser pelo resto da vida. Mulher pra mim agora é sinônimo de Camila.

SEXO

Sexo é foda! Quando eu era mais moleque queria sair trepando com todo mundo. Hoje, é uma parada de risco legal. Uma menininha nova, bonitinha, pode ser o fim da tua vida. Não dá pra pensar em sexo sem ser seguro. Pra mim, o melhor do sexo, era fazer a qualquer hora com qualquer pessoa. Não dá mais para ser assim.

MODA

Acho que a palavra moda é uma besteira. A grande sensação do lance é ter estilo. Quem anda na moda, vai sair da moda. Mas quem tem estilo não.

PALCO

É o lugar onde eu mais me sinto à vontade. Acho que até mais que na cama. No palco não sinto medo de nada. Me transformo numa pessoa que na vida real eu não consigo ser. Não consigo relaxar tanto quanto no palco. Ser eu mesmo e foda-se. Eu saio do palco e já vem um escudo protetor dizendo que eu tenho que ser mais malandro, ali, mais gentil, e assim por diante. No palco não tem essa. Sou do jeito que eu sou e pronto. Desde o começo eu sentia que era um lugar prazeroso pra mim. Nunca fico nervoso.

ESTÚDIO

Gosto de estúdio pra gravar, estúdio de ensaio eu acho um saco. Duas coisas que eu não gosto no meu trabalho: ensaiar e tirar foto. Estúdio de gravação é um dos lugares mais agradáveis pra mim. Adoro ficar no estúdio fumando um, tomando uma cerveja, criando um som. É onde eu me acho músico. Mas até que no palco.

CRIAÇÃO

Antes eu criava com mais espontaneidade. Hoje crio mais por obrigação. Não tenho mais cadernos de rascunho. Hoje em dia, criar é doloroso pra caramba. Fico na neurose pensando se vou conseguir ou não. Tenho deixado para escrever as letras sempre nos último minutos, e isso faz o processo mais doloroso.  Eu guardo alguns assuntos e depois no estúdio eu desenvolvo. Hoje em dia, estúdio e criação estão interligados.

CONSUMISMO

Sou consumista pra caralho. Adoro comprar tênis, roupa, discos…Mas, isso me deixa meio preocupado. Fico com medo que isso se torne algo maléfico para a sociedade como um todo. Os bens de consumo acabam virando status e os moleque mais probres também querem ter tudo isso. Atrapalha na formação, isso é muito fútil. Besteira…

DINHEIRO

Quanto mais dinheiro, mais problemas. Mas, no fundo dinheiro traz conforto. Fico meio abismado. Todo mundo deveria ter, casa, carro, alimentação.. Como aqui ninguém tem isso e os serviços básico não funcionam, a luta pelo dinheiro passa a ser uma luta pela sobrevivência. É desesperador. Não quero ser milionário não. O que eu tenho já está bom.

DEUS

Não sou religioso. Não tenho religião. Deus pra mim é um estado de espírito. Está dentro da gente. Rege a gente. É uma energia. Quanto mais você pratica o bem, mais terá o bem. As pessoas deviam pensar em Deus assim. Quando coloco a mão na cabeça e peço que Deus me ajude, no fundo estou querendo que se abra dentro de mim um caminho. Não estou pedindo para algo fora de mim, uma matéria, Deus. Não é isso, não.

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“O samba é um companheiro. Desses que o coração não trai.”

O Marcelo D2 já traiu e já foi perdoado, mas não perdoaria que o traísse. Jura que sempre quis sossegar. Só que acha difícil não cair em tentação. Quando cai, fica se sentindo culpado. Apaixonado e fiel como nunca, Marcelo se pergunta: “Será que estou virando mulher?” Definitivamente não.

Dilemas de D2

Tem o sotaque mais carioca do mundo e chama as mulheres de “mulé”. Estamos diante do clássico malandro, o sujeito cheio de ginga, gosta de cervejinha com pão e carne assada. Esse é o Marcelo D2, galinha mas “sangue-bom”.
Marcelo Maldonado foi criado no Andaraí na Zona Norte do Rio. Foi camelô e vendedor de móveis. Em 95, lançou seu primeiro disco com o Planet Hemp, Usuário, vendeu 300 mil cópias. O segundo, Os cães ladram mais a caravana não pára, chegou a 350 mil cópias. Reconhecido no continente do rap como estrela de primeira grandeza.
Malandro, faz sucesso com garotas. E Marcelo já desfrutou – e muito – desse sex appeal. Assume que já transou com várias fãs. Até com mais de um ao mesmo tempo. Não conta com quantas mulheres já ficou na vida. Casado com Camila, mamãe de dois filhos com D2, fazem companhia para Stephan e Lourdes, filhos de outros dois casamentos do rapper. Hoje, Marcelo está mais do que nunca na fase: “malandragem dá um tempo”.
Durante a entrevista que você lê a seguir tomou vários copos de coca cola e comeu um pote de geléia de mocotó – nada de maconha.

Vocês está mais sossegado?

Eu gosto muito de beber, mais estou maneirando. Não bebo mais todo dia, só umas quatro vezes por semana (risos).

Você está fiel?

Fidelidade de sentimento é fácil. Difícil para mim é não ter relações com outras pessoas. Agora eu sou fiel, não tem me seduzido tanto o peito ou a bunda passando na rua. Mas, ainda sou mulherengo pra caramba. Gosto de ver a foto de uma mulher nua. Adoro olhar uma Playboy. No meu estúdio ponho na parede um monte de mulher pelada. Só não coloco em casa porque a Camila não deixa. Mas ela gosta de mim do jeito que eu sou. E adorar mulher faz parte disso.

Parece que para você é difícil controlar os instintos sexuais..

Eu sempre quis ser fiel! Quando arrumava outra mulher, voltava com um enorme sentimento de culpa. Me achava um filho da puta, ou ficava pensando que a relação estava ruim. Muitas vezes cogitei abrir o jogo, mas não acredito em relacionamento aberto – não dá para contar que tá tendo um caso fora do casamento, tira todo o romantismo da história.

Você já foi traído?

Que eu saiba não. Mas tenho algumas desconfianças.

E qual seria sua reação se isso rolasse?

Chorar (risos). Ia ficar muito triste. Ia virar as costas e sair fora. Nessas horas, prefiro me trancar, ficar na minha.

Quando você traiu não ficou paranóico achando que podia ser traído também?

Claro que sim, pensava que estava fodido. Mas comigo sempre achei que estivesse tudo às claras – todo mundo sabe que eu catei várias mulheres, mesmo estando namorando ou casado. Acho que não desculparia quem me traísse, como já me desculparam várias vezes (risos).

Você acha que mulher tem tendência a desculpar mais?

Mulher sempre acha que a coisa vai dar certo. Eu estava até falando com um amigo outro dia: “Pô eu estou o maior apaixonado, fiel, será que estou virando mulher?”

Você está casado pela terceira vez, acha que um casamento pode durar para sempre?

Hoje não consigo pensar em viver sem a Camila. Imagino comprar uma casa de praia e ficar velhinho com ela, encher o carro de criança. Acho que não vai acabar, mas a gente nunca sabe. Tive relacionamentos maneiros, mas todos acabaram horríveis. Por isso, se não estiver dando certo, melhor não insistir e cair fora, tá ligado?

Você está sempre namorando ou casado?

Se eu ficasse sozinho ia ficar maluco. Minhas mulheres sempre foram confidentes, companheiras. Mulher é um super amigo que você ainda vai lá e come. Não é ótimo? Namoro direto desde os 15 anos. Comecei e não parei mais. Nunca fiquei um dia sozinho. Sempre fui assim, conheci uma menina e terminei com a outra pra ficar com ela. Não consigo ficar uma semana sem namorar, de jeito nenhum.

E já namorou mais de uma ao mesmo tempo?

Ah..já. Mas, é foda, proque na real sempre me senti culpado por isso. Tem carinho envolvido e, depois do sexo, você já fica pensando: “Porra, o que foi que eu fiz?”. Mas, já tive namorada no Rio, São Paulo, Curtiba, Porto Alegre. Umas já sabiam que eu tinha mulher, pois sempre tive umas duas oficiais (risos). Era muito louco. Uma namorada ligava de São Paulo para o Rio e eu falava: “Não, não vem pra cá, pelo amor de Deus.” Quem se envolveu comigo, já sabia que eu não prestava, tá ligado?

Você acha que dá pra amar duas pessoas de uma vez só?

Acho que sim. E ainda dá pra trair as duas (risos). Já fiz isso. Você não acha possível?!

Acho que mulher é diferente. Somos mais exclusivistas..

Mulher é mais apaixonada né? Mas, eu acho que se são amores diferentes dá pra rolar. Você tem uma mulher que é mãe e companheira. A outra é sua amiga de droga e tem uma foda incrível. Você gosta de cada uma de jeito diferente.

Você já transou com mais de uma mulher ao mesmo tempo?

Já cara. Já realizei todas as minhas fantasias, tá ligado? Todo homem sonha em transar com duas mulheres, ver as duas transando. Na hora é legal, você acha o máximo. Mas, essas transas não estão no meu top 10. Muitas vezes o sexo bem mais normal é melhor.

Você já mediu o tamanho do seu pinto com régua?

Já medi. Mas não vou contar quanto deu. Posso dizer que tirei a maior onda no colégio. Se fosse pouco eu ia dizer: “Não isso não tem importância” (risos).

Você é muito assediado pelas mulheres?

Muito. Antes tinha que dar uma idéia nas minas. Hoje, muitas só faltam tirar a roupa, tem mulher que chega beliscando a minha bunda. Me puxando. Às vezes eu tenho vontade de falar: “Então paga”. Elas parecem homem mexendo com garota na rua.

Acontece muita coisa absurda?

Acontece. Um dia eu estava sentado no palco e chegou uma menina: “Me dá alguma coisa? Me dá seu relógio?” E eu: “Não, esse relógio eu comprei, gosto dele.” E ela: “Então me dá sua camisa?” “A camisa eu ganhei, gosto dela.” Eu acabei dando um pedaço da madeira do palco que estava no chão. E a menina saiu comemorando. Um absurdo. Fico pensando, “será que as pessoas não entendem o que a gente fala?” A gente não é igual ao Daniel, não procuramos esse glamour.

Você é um sujeito vaidoso?

Pra caramba. Vaidade não é só se preocupar com o corpo, essas coisas, mas querer ter estilo. Gosto de comprar roupa, fazer tatuagem. Tenho mania de tênis. Acho que é um trauma de infância, tenho mais de 300 pares, um monte que nunca usei. Sempre que eu viajo trago uns três.

Se sua filha namorasse um cara como você, qual seria sua reação?

Acharia ótimo, tá ligado? Sou um cara carinhoso. Corro atrás das minhas paradas. Só não ia querer que ela sustentasse malandro.

Você é ciumento?

Sou ciumento até com o meu tênis, o sofá, com os meus cds, com os meus camaradas. Mas, me controlo.

Já levou um pé na bunda?

Uma vez, levei. Eu era muito afim de transar com uma mina. Aí, quando rolou, a gente foi para um motel e eu brochei. Estava querendo a parada que não consegui segurar. Aí, depois o sexo não era muito bom, era meio caído, sabe? Ela acabou me dispensando. Disse que ia pra França ficar com um cara. Não sofri muito.

Sexo com amor é diferente?

No fundo, sou daqueles que acham sexo, mesmo quando é ruim, bom. Só que agora, só a Camila está me satisfazendo. A gente tem uma vida sexual muito intensa. Procuramos fugir da rotina. Vamos para o motel, namoramos na praia.

Você já fazia sucesso com as mulheres antes de ser famoso?

Não, mas eu sempre fui muito atirado. Quando eu era moleque, morava no morro, tinha roupa e cara de garoto pobre. Ia nas festas, na maior cara-de-pau dá em cima das patricinhas. De algumas eu levava o fora, mas levava outras também.

Já aconteceu de você ficar com alguém quando estava chapado, achar aquela pessoa o máximo e depois perceber que não tem nada a ver?

Já aconteceu de ficar um final de semana viajando de ácido com uma pessoa, achando que estava apaixonado que tinha encontrado o amor da minha vida. Depois que passou a onda, não era nada daquilo. Sinistro..

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Um Brasil inquieto nos pés

Duas cadeiras brancas de boteco. Um sonzinho tomando conta daquele cantinho escondido no fundo do camarim. Uma latinha de cerveja na mão direita e um Brasil inquieto nos pés. Sambinha? Também. A parada é do Marcelo Maldonado Peixoto, ou D2, o cara que colocou o rap para brincar com o ritmo mais contagiante do país.

Marcelo D2 virou playboy?

Por que você aceitou o convite para fazer o show na Daslu?

Eu não tenho nenhum tipo de preconceito. Não deixo de tocar num lugar porque tem muito preto, muito branco, muito pobre ou muito rico. O que eu falo nas minhas músicas não é só pra pobre. Essa coisa de que todo preto é ladrão e todo playboy é racista é uma puta babaquice. Bom se todo mundo pudesse ser rico. O que faz as pessoas mesmo é a cabeça e o coração. Por isso, fui lá e toquei. Fui bem recebido pra caramba, assim como sou bem recebido em qualquer favela que eu vou. Foi um cachê alto, foi ótimo.

Por que você acha que sua música seria atraente a um público que paga mais de R$ 10 mil numa calça, por exemplo?

Dez mil numa calça? Então, meu cachê foi barato pra caralho! [rindo] Eu devo ter ganhado umas duas calças de cachê. Tem muita gente que não ganha isso na vida inteira! Então também foi um sacode nos caras, porque eu passo outros valores na minha música. Se não atingi a todos, se alguns só foram lá e dançaram, tudo bem. E é legal que os caras do rap estejam ligados com a galera que tem grana pra trazer dinheiro pro movimento. Nos Estados Unidos, o rap cresceu pra caramba porque tiveram pessoas qualificadas pro trabalho, não era só o cara do gueto.

Você é um playboy disfarçado?

Cara, eu gosto de me vestir bem, de andar com roupas maneiras. Sou vaidoso. Não sou playboy, não. Não gosto de gastar meu dinheiro com coisas fúteis. Se bem que não sei: se eu ganhasse 1 milhão por mês, comprava uma calça de 10 mil e não tava nem aí. O dinheiro é meu, vou guardar, levar pro caixão? Mas não sou playboy nem fodendo. Sou de família pobre, batalhador, trabalho desde os 14 anos, ralo pra caralho. Já fui porteiro, faxineiro.

Mas agora você tem grana, pode virar playboy…

Eu teria que nascer de novo. Isso vem de família, de quem tem muita grana. Eu sou músico, sou suburbano. Quem vem do gueto, vai sempre carregar o gueto. Posso sair dele, mas ele vem no meu coração, na minha maneira de ver. O que muda? Antigamente o churrasco era feito numa churrasqueirinha de caminhão, com carne de segunda. Agora a carne é de primeira e é feita numa puta churrasqueira maneira. Mas eu continuo fazendo churrasco no fundo do quintal com a galera.

aspas

“Eu sou daqueles que levantam, gritam, batem na mesa. Quero que todo mundo aceite a minha opinião”

“Eu esperava um governo mais radical, mas eu entendo o Lula, porque o radicalismo já fez ele perder várias e várias eleições. É melhor que ele vá conquistando a confiança do povo aos poucos”

“Já tenho filho, já fui pra cadeia, já fiz um disco: não sou mais adolescente, virei adulto”

“Nunca deixei de colocar nada [nas letras] porque era muito pesado. Muito pelo contrário: às vezes eu coloco umas paradas ali que é de propósito pra arrepiar mesmo”

“No Rio, eu era revistado pela polícia direto. Eles vêem um cara com o meu biótipo, que é de favelado, num carro maneiro ou num táxi, mandavam parar”

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Baseado em Fatos Reais

Madrugada adentro, jogava um bilharzinho na av. Mem de Sá, no coração da Lapa carioca. Prédios centenários, travestis, prostitutas, bandidagem e rapaziada compunham o ambiente do histórico pedaço. O local foi berço de uma das mais fascinantes figuras da mitológica malandragem carioca, o Madame Satã. Meu guia nesta aventura pelas quebradas do Rio de Janeiro é o polêmico vocalista da banda Planet Hemp, o destemido Marcelo D2.
D2 teria como missão mostrar  os locais da cidade maravilhosa que considera os picos mais importantes e que frequenta habitualmente.

No momento em que põe os pés nas ruas, Marcelo é requisitado a todos os instantes para dar autógrafos, cumprimentar os fãs, conversar com os motoristas de táxi. Caminhando ao seu lado é impossível ficar no anonimato.  “Eh, mermão, maconheiro também é gente”, diz D2, caminhando pela cidade.

Depois do Planet Hemp ter lançado o míssil sonoro “Os cães ladram mas a caravana não pára”, que já vendeu mais de 300 mil discos, D2 volta à cena com o maravilhoso trabalho solo: “Eu tiro é onda”. Um lançamento que, pra início de conversa, vem desmistificar esta história de que o seu trabalho é modismo ou coisa passageira. Sem sombra de dúvidas, é disparado o melhor disco do ano em território tupiniquim. As doze faixas são um híbrido de hip hop com samba do crioulo doido e causará um abalo sísmico na mesmice e pasmaceira que impera no pouco criativo cenário da MPB (blergh). Baseado em fatos reais, vamos acompanhar sua saga pelo Rio de Janeiro.

Na tranquila e simpática rua Mário Portela, em Laranjeiras, está a casa, estúdio e laboratório alquímico de D2. A princípio,conseguimos algo que nem a Sharon Stone lograria, isto é, acordar Marcelo às 10 horas da manhã. Normalmente, D2 levanta-se de seu sarcófago entre quatro e seis horas da tarde. Completamente chapado de sono, D2 foi para o banho. Nesse ínterim começamos a xeretar e vasculhar todos os recônditos do seu lar.

Acreditem se quiser, a casa prima pela limpeza e conforto. Tudo se encontra muito bem organizado, a começar pela geladeira, totalmente recheada de produtos. Ele possui na sua coleção de CDs mais de 500 títulos com o melhor do hip hop, rap, samba, funk e jazz do planeta. Marcelo é fã de música negra. Na cabeceira de sua cama um livro de autoria do lama tibetano Chagdu Rimpoche faz parceria com dezenas de revistas de mulher pelada e de skate. A organização da casa fica aos cuidados de Sandra, que dá um trato total no ambiente e faz a comidinha caseira.

Quando íamos saindo para pegar o filho de D2, Stephan, que entra na escola às 12h30, a mãe de Marcelo surgiu porta adentro. Dona Paulette é fã número um do filho e confessa nas entrelinhas que se amarra no som que ele faz. Marcelo comenta: “Cara, minha mãe quando vai nos shows se diverte muito. Ela é minha principal tiete”. A mãe, toda orgulhosa do rebento, exclama que ele é realmente o máximo.

Na porta da escola, Stephan, é puro amor diante do pai. D2 se despede e vamos ao seu restaurante predileto bater uma chepa. Retornando à Lapa caímos no restaurante Nova Capela. O local é um clássico na história do bairro e do Rio de Janeiro. A frequência vai desde figuras globais a notórios bandidos de capa preta.
Depois do almoço, circulando pela Lapa, fomos dar de frente nos escombros do antigo templo da música brasileira, o Circo Voador. O reduto foi fechado devido à perseguição de gente sinistra e de direita. Marcelo explode de raiva e diz: “Porra, o que ocorreu foi um absurdo, o Circo Voador era um cartão de visita obrigatório na cultura popular brasileira em todos os sentidos. O que o prefeito César Maia aprontou foi um terrorismo cultural sem precedentes. Qualé! O cara é maluco, fodeu com a parada. Todo mundo já tocou aqui. O Circo já era um marco, era para ele ter sido tombado e canonizado”.

No final da tarde, quando tem um tempinho, Marcelo gosta de ir ao Posto 9, em Ipanema. A praia é o local mais folclórico da rapaziada inteirada e seus satélites. Pra quem não sabe, foi ali que ocorreu o histórico episódio dos apitos. Quando a polícia chegava e tinha alguém queimando um baseado, o pessoal apitava sem parar. A moçada mais descolada relaxa como lagarto pré-histórico na areia fina do Posto 9, mas o que D2 gosta de fazer é ficar degustando uma cerveja no quiosque à beira-mar, observando os movimentos e o molejo da beleza carioca, como uma mistura de ninja e predador, desde o balanço do mar aos quadris das maravilhosas meninas do Rio.

No caminho para sua casa, pergunto quantos quilos de fumo ele acha que já degustou na vida. “Que perguntinha indiscreta! Mas vamos lá. Como naquela vez que o Jô Soares me intimou perguntando: “Você se esquece muito das coisas por conta da maconha?” E eu respondi: “Que eu me lembre, não” ehehe. Acredito que já traguei mais ou menos uma meia tonelada”.
D2 havia marcado um apontamento no Baixo Gávea para dar uma entrevista para a revista ÉPOCA às 10 horas da noite. O Baixo Gávea é um dos locais em que D2 normalmente aparece para bater o ponto. A região é repleta de bares, botecos e badalação aloprada. Em plena segunda-feira o crowd é absoluto. Uma multidão de gatas deliciosas, malucos terminais e amigos de Marcelo ronda a nossa mesa. A entrevista rola solta e rapidamente é concluída. É dado o sinal verde. Começa então a bebedeira informal da galera. D2 cumprimenta dezenas de pessoas e a sua brodagem o trata como se fosse um Buda reencarnado.

Pelas mesas a descontração é puro delírio. Chego junto do D2, pergunto para ele se finalizamos a parada das atrações turísticas, pois me encontrava esgarçado de tanto agito. Marcelo lança o míssil: “Qualé, sangue bom, isso só foi a entrada, vamos lá para Copacabana dar uma olhadinha no Cicciolina e Barbarella”.
Não teve jeito, fingi que estava tudo pela ordem e saí de fininho. Na esquina peguei um táxi e me dirigi para as Laranjeiras. Estava felizmente precavido com uma chave reserva da casa de D2. Acordei às 8h30 da manhã do dia seguinte e ajeitei minha mala. O silêncio na casa era absoluto e deduzi que o cumpadi estava no segundo sono. Quando estava fechando a porta apareceu a celebridade que sobriamente comentou: “Qualé? Amarelou ou estava sem preparo físico?”

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