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“Bem melhor que você, é estar bem comigo. É ter muitos amigos é cantar, é sorrir. É viver a vida, é curtir cada minuto e segundo”

A carreira solo de Marcelo Maldonado Peixoto está entre as mais bem sucedidas do país. Depois de cinco discos azeitando a mistura de rap com samba, ele se entrega de corpo, alma e voz ao mais brasileiro dos ritmos, homenageando um de seus mestres, Bezerra da Silva, em um disco só de sambas de verdade – sem rimas, scracthes, samples ou batidas eletrônicas. Criticado por grande parte da cena hiphop, se diz excluído pela imprensa de São Paulo, cidade que concentra seu maior número de fãs. Marcelo D2 não é Zagalo, mas sentencia: “Eles têm de me engolir!”, correndo à margem das críticas e deslizando suave pelo caminho do sucesso que escolheu lá atrás, antes de fazer parte do hoje quase lendário Planet Hemp, “uma banda tensa”, segundo o seu mais famoso integrante. É um D2 tranquilo, alguns casamentos nas costas, quatro filhos e 42 anos, que abre a porta do quarto de hotel, no bairro paulistano dos Jardins, pausando o videogame. Cervejas depois, ele está à vontade para falar de drogas, Bezerra da Silva, a volta do Planet Hemp, as diferenças entre rap e samba, a confusão com os Racionais, as eleições e os sonhos que ainda pretende realizar.

Você já realizou seus sonhos?
Meus sonhos de quê?

Aqueles que você tinha antes de fazer sucesso.
Os sonhos que eu tinha, sim. Mas eu tenho outros, né, cara? Eu sou um sonhador fodido. Sonho acordado direto, sabe qual é? Minha vida é um sonho legal mesmo… Sei lá, cara, meus sonhos são outros agora. O que era pra mim antigamente, hoje eu sonho mais pros meus filhos, tá ligado? Agora em fevereiro, por exemplo, vou com a família toda pra Los Angeles, pra morar uns dois anos lá. Vai eu, minha mulher, nossos dois filhos, o Luca e a Maria Joana, e o meu filho mais velho, o Stephan. Lógico, eu tô indo pra fazer um disco de rap lá, cantar com os caras de lá, mas, porra, tô indo mais por eles, sabe qual é? Pra eles estudarem inglês. O Stephan tá começando a fazer som, tem banda e tal, vai estudar engenharia de som, tá ligado?

Ele está com quantos anos?
18.

E as conversas sobre drogas já rolaram?
Já, cara, mas o Stephan é sossegado.

Ele fuma erva?
Maconha ele fuma, cara. Tá com 18 anos, não dá nem pra proibir mais. E quer saber, cara? Não tenho muita preocupação com isso, não. O Stephan é um moleque muito com a cabeça no lugar, tranquilão pra caralho. Só não gosta de estudar, mas isso é normal. Ele repetiu o ano passado.

E álcool ou cocaína?
Eu falo pra ele: “Se quiser experimentar, cara, é comigo. Cuidado aí! Vai cheirar não sabe o quê, pó vagabundo, essas coisas”. Mas é o tipo de coisa, cara, o moleque tem 18 anos, tem a galera dele, não é uma coisa muito que o pai… Só fico ali do lado, vendo o que tá acontecendo, com quem que ele tá andando. O Stephan é mesmo muito sossegado, tipo: “Tá tranquilo, pai. Você acha que eu vou cheirar essa merda?”

Você já foi o usuário de maconha mais notório do país. Como lidar com isso perante os seus filhos?
Primeiro que meus filhos mais novos nem sabem disso, né, cara? Não pegaram essa época.

Quantos anos eles têm?
A Lourdes tem 11 anos; o Luca, 9; e a Maria Joana, 5. Eu não sou o tipo de pai que proíbo as paradas, sacou? Com os mais novos é lógico que imponho coisas, limites. Mas com o Stephan eu não vou proibir nada. Sento com ele e converso. Este ano falei: “Ó, tu repetiu, era pra ter terminado o ano passado e tu repetiu. Não vou ficar pagando R$ 30 mil, R$ 20 mil de escola por ano pra tu repetir, tá ligado? Agora, acaba essa porra! Vai pra uma escola mais barata, um supletivo, de dia, acaba essa porra logo, meu irmão, e aí vê o que tu quer fazer da tua vida. Quer ser músico? Então
vamos investir nisso”.

Como surgiu a ideia do disco em homenagem ao Bezerra da Silva, com sambas que ele gravou?
Quando ele morreu, cheguei no velório e o Zeca [Pagodinho] tava lá, sentado com a cervejinha aberta. O caixão ali, o Zeca sentado perto, lá no [teatro] Carlos Gomes. Eu cheguei sozinho, às 10 da manhã, com o olho cheio de lágrima, e o Zeca: “Ô, D2! Ta chorando? Tá maluco, rapaz? Em enterro de sambista a gente não chora, não! Em enterro de sambista a gente comemora! Senta aí e pega um copo, parceiro!” Peguei um copo e começamos a beber. Porra, aí chegou o Dicró contando história: “Esse é um 171 mesmo! Morreu em 17 de janeiro, 17 do 1!” [risos] Aí chega não sei quem, chega outro, e mais outro, e daqui a pouco tava a maior galera, a gente conversando, contando história do Bezerra. A gente chorava de rir. E no velório mesmo veio esse papo, tá ligado? “A gente tinha que fazer uma coisa pro Bezerra”, não lembro exatamente quem falou. “Porra, o Marcelo é quem tinha que fazer o disco. Todo mundo já gravou pra caralho com o Bezerra, todo mundo conhece o Bezerra há muito tempo. Marcelo era o amigo mais novo dele. Tu tinha que fazer o disco!” Saí de lá, cara, sem sacanagem, às 7 da noite, bêbado, exausto. Fui pra casa, dormi e sonhei com ele pra caralho. Sonheique a gente tava no palco.

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