Category Archives: Planet Hemp

“Ela alegra, ela inspira, ela acalma…”

Cannabis Cup – Amesterdã

Registramos pela primeira vez a fumantina exacerbada da Copa Anual da Cannabis – a popular Cannabis Cup -, na paradisíaca Amsterdã, Holanda. Recordo-me de que a comitiva brazuca era encabeçada pela esquadrilha da fumaça Marcelo D2 e Zé Gonzales, do Planet Hemp, o fotógrafo Vavá Ribeiro e meu amigo Xiko. Uma viagem antológica. Evento promovido pela revista norte-americana especializada em cânhamo High Times.

Amsterdã é a Disneylândia dos malucos. A meca da lúxuria, do prazer e das drogas leves. A beleza da cidade, com seus canais, casario antigo, museus e sex shops, ao lado da camaradagem do povo holandês, permite a qualquer ser humano viver com dignidade.

FUMANDO FEITO TURCO-OTOMANO
Importantes nomes egressos do movimento maconhífero de todo o mundo acompanhavam seminários num ambiente de fumaça sem limites, assim como um grupo de ativistas feministas a favor da descriminação da erva, que fazia parte do júri especial. O primeiro dia foi suportável por duas horas. Não é por nada não – mas foi um trabalho de Hércules acompanhar aquele bando de malucos-belezas fumando feito turco-otomano, falando manso sobre os efeitos benéficos da cannabis à saúde e pregando que o mundo seria outro com a utilização em massa do hemp em nosso dia-a-dia.

Tateando o terreno

Os dois primeiros dias foram de pura excitação. Subíamos e descíamos a escada em sintonia com tudo que ocorria. Conhecemos e fizemos intercâmbios com gente de todos os cantos do mundo, trocando impressões e colhendo dados sobre todas as utilidades possíveis do hemp. O clima de paz e amor harmonizava as relações: velhinhos holandeses colhiam informações com experientes freaks americanos e a todo momento me defrontava com dezenas de clones Jerry Garcia, o guru do Grareful Dead, já falecido.

No transcorrer do evento diversas mesas redondas, palestras e seminários. Ativistas, estudiosos e celebridades do meio falaram sobre vários assuntos: maconha na indústria têxtil, na culinária, na arte psicodélica, na religião: seu uso legal e ilegal, plantio, cultivo…Um fog de fumaça – autêntico smog – envolvia o ambiente por completo. Havíamos retornado aos anos 60/70 e não existia Lei Seca.  O fumo rolava forte por todos os cantos.

No Pax Party Park, um prédio de três andares, acontecia também na paralela, a Hemp Expo, de shampoo a lingerie, todos os produtos que estiveram à disposição do público tinham algo em comum: eram derivados da hemp. Pessoas extremamente lúcidas e ecologicamente corretas, explicavam e vendiam algumas das mais de 25 mil unidades da planta da cannabis em benefício da espécie humana. Da semente às flores, tudo é aproveitado e reciclado. O nível de THC da hemp industrial é quase nulo.

Ficamos em Amesterdã por mais quatro dias, instalados no hoel Kabul. Dentro do avião levantando vôo, olhei pela janela e observei que, por todo o trajeto, estufas gigantescas iluminavam o interior da Holanda – o hemp é a sexta maior produção agrícola do país, com 25 toneladas anuais. Quals erá o conteúdo dessas estufas? Inocentes tulipas? Até a próxima Cannabis Cup.

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Celebridade do Século 21

Um dia ele já foi contra a ordem do dia. Não tinha carro, cultivava uma vasta e encrespada cabeleira e morava de aluguel na Lapa. Hoje aos 37 anos , pai de quatro filhos, Marcelo Peixoto conseguiu reverter a situação. Em 1996, Marcelo pertencia ao raivoso e contestador Planet Hemp, misturava rock, hip hop, funk, com toda a liberdade de expressão que tinha direito. Em 2005, é o Mc que faz rap com samba e desfruta das glórias do seu disco À Procura da Batida Perfeita, que já vendeu muito mais de 150 mil cópias. O Marcelo D2 do século 21 é um cara “repaginado”. Deixou de encarar o antiestablishment e assumiu seu lado celebridade e foi para a ribalta da mídia.

O que você diria pra quem te chama de vendido?

Tira o olho do meu dinheiro e corre atrás do seu. Eu sei onde meu calo dói. Se eu não for na Daslu ou no Big Brother quero ver quem vai pagar minhas contas.

Mas, nos tempos do Planet..

Nós éramos radicais pra caramba. Não iríamos no Faustão nem fudendo!

O que te fez mudar?

Eu não mudei, o que mudou foi o som. As letras do Planet Hemp eram uma coisa densa e de certa maneira não queria ir ao Faustão para ficar falando aquelas coisas tão pesadas. Com o À Procura, resolvi botar minha cara a tapa e ir ao Faustão, Luciano Huck, Jô Soares. Resolvi usar a máquina a favor da causa. Não só a causa contra a máquina.

E como a reação da gravadora [sony]?

Os caras só viram cifrão voando pra tudo quanto é lado. Meu objetivos são fazer música bem feita e entrar no mercado. Tenho 37 anos. Não quero morrer igual ao Bezerra da Silva, durango, fudido, tendo que fazer show até os 77 anos para sustentar a família.

Você não tem medo de ficar indo à Daslu e perder o público do hip hop, do skate?

Não. Eu não ando na Daslu, só entrei lá uma vez pra tocar. Como tem um garçom que trabalha na Daslu e a Daslu paga o que acha que tem que pagar pra ele. Isso não me torna uma playboy. Sou safo, sei comer lagosta como também sei comer ovo frito (risos).

Você não acha que perdeu a mão na matéria da Vogue RG (“D2 assume seu lado celebridade”)? Você está lá vendendo celular e marcas de roupas…

Não. Quando fui ao Faustão a primeira vez, entrou uma banda de axé depois de mim e eu saí falando “Pqp, onde tô me metendo?”. Aí eu pensei: “Eu já estou aqui e agora vou jogar mesmo. Vou pegar o Motorola e fazer propaganda, vou fazer propaganda de carro, de cerveja”. Mas é lógico que vou tomar cuidado, não quero que minha superexposição prejudique minha música.

Você apareceu na final do Big Brother e cantou [Pilotando o bonde da excursão.. do À procura] uma música que faz referência a maconha. Como você vê isso?

Eu não modifiquei minhas letras. Mudei minha maneira de falar com a imprensa. Não apareço mais no fantástico e fumo maconha na frente da câmera pra chocar. Pelo contrário. Você tem que saber jogar o jogo, o jogo não é só você, tem outros jogadores.

Quando começou a entrar uma grana boa?

Depois que eu ganhei meus primeiros R$ 50 com música, em 1995. Já estava bem satisfeito (risos). Comprei tudo em pó, cerveja, fui pro hotel com a mina, cheirei a porra toda e me acabei.

Você é um cara consumista?

Eu sou um cara consumista, mas não é banal. Não jogo dinheiro fora. Gosto de comprar tênis. Adoro tênis. Acho uma parada foda, não sei se é um trauma de infância (risos). devo ter uns 300 pares, sendo que uns 50 eu nunca usei. Mas não tenho aquele sonho de ter um iate, um apartamento em NY. Eu tenho ambições.

E o lance dos outros rappers falarem que você não é do hip hop de verdade?

Nunca me envolvi com o hip hop porque nunca consegui seguir uma cartilha. E se ser do movimento é seguir uma cartilha eu realmente não sou. Agora, o que faço é rap. E o que neguinho tem que baixar a cabeça e bater palma é que estou levando o rap para outro nível. Sou fã pra caralho de Racionais, mas eu não vou fazer igual a eles. Para onde o rap vai se ficar todo mundo imitando os Racionais? Desde “Sobrevivendo no Inferno”, o rap ficou num lugar-comum. Todo mundo queria fazer o próximo “Sobrevivendo no Inferno” mas ninguém nunca vai fazer porque aquele momento ali dos caras foi mágico.

Qual o papel da maconha na sua vida?

Diversão e só. Eu fumo pra ficar chapado. Não tem uma parada filosófica.

Você chegou onde queria chegar?

Musicalmente estou bem satisfeito, mas sou um cara um pouco inquieto com isso. As pessoas falam “Puta, o disco À Procura da Batida Perfeita e tal”, mas sei que não é nada perto do que eu poderia ter feito. E, se for falar de grana, tenho muito mais do que precisava. Não é luxo. É o que todas as pessoas deveriam ter: uma boa comida na mesa, um carrinho, uma casa. Eu tenho até mais do que um carrinho, mas o básico deveria ser acesso a todos.

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Memórias Enfumaçadas

Memórias enfumaçadas da turnê do Planet Hemp em Santa Catarina: baladas, gatas e ressacas sem fim.

“Gosto de te ver ao sol, leoãozinho / De te ver entrar no mar / Tua pele, tua luz, tua juba / Rrrrrrrrrhhhhhhr” (disco riscado) Pára, Pára. Enlouqueceu Zé? reclama D2.

Adivinha doutor quem está de volta na praça? Planet Hemp Ex-quadrilha da fumaça!”

Uma multidão de mais de 2 mil usuários da cannabis sativa se espreme na frente do enfumaçado palco. O sumo-sacerdote Marcelo D2, entrando em cena ladeado pelos cardeais Bnegão e Black Alien, deixa em transe a moçada surfer de Floripa.

“Hermanos e irmãos represento todos aquele chapados no chão.
E disso entendo bem…Prensadinho ou solto.
Manga rosa, cabrobró e racha coco.
Eu não quero saber de mais nada. Só quero saber: Quem tem seda?”

É o início da turnê nacional do Planet Hemp. A pegada da banda lembra uma divisão panzer, não há nada comparável no cenário rock hip hop brazuca. O Planet representa a discriminação de tudo que está entalado na garganta.

Na Lupus de Florianópolis o show começa a rolar e a molecada canta em transe todos os hinos da banda, a galera delira com o scratches de Zé Gonçales. A cartase é coletiva. A glória! Mas, depois de duas horas de muita adrenalina e alegria é chegada a hora de terminar.

Uma massa de fãs, puxa-sacos, catarinas e jornalistas segue para a porta do camarim pedindo liberação para entrada – muitos trazem oferendas vegetais à banda. O tiel faz-tudo e segurança Anjinho passa o pente-fino e despacha a microbiagem e outros insetos. As meninas entram e já começa o encoxa-encoxa, os planetários casados se viram como pode.

Exaurida de tanta badalação a família hemp segue rumo ao hotel  prensada em duas vans. A van com D2, Zé Gonzales e Lobatto seguiram rumo ao hotel. A turma da fuzarca, roadies, Bnegão, Black Alien e outros integrantes resolveram parar num bordel fim-de-linha da Ilha.

Depois de um show coalhado de gente, ficamos descansando num hotel em Imbituba. O pico era um engradado de madeira. Alguns integrantes jogam futebol no videogame, já Gonzales e Rafael preferem mofar no quarto.  O bando todo curte uma ressaquice crônica da enigmática noitada anterior. A rapaziada segue para Lages.

“Imbituba, 06:30, no ônibus a galera se prepara para seguir 6 horas de viagem para o destino final da turnê.”


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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

1 Comentário

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“O samba é um companheiro. Desses que o coração não trai.”

O Marcelo D2 já traiu e já foi perdoado, mas não perdoaria que o traísse. Jura que sempre quis sossegar. Só que acha difícil não cair em tentação. Quando cai, fica se sentindo culpado. Apaixonado e fiel como nunca, Marcelo se pergunta: “Será que estou virando mulher?” Definitivamente não.

Dilemas de D2

Tem o sotaque mais carioca do mundo e chama as mulheres de “mulé”. Estamos diante do clássico malandro, o sujeito cheio de ginga, gosta de cervejinha com pão e carne assada. Esse é o Marcelo D2, galinha mas “sangue-bom”.
Marcelo Maldonado foi criado no Andaraí na Zona Norte do Rio. Foi camelô e vendedor de móveis. Em 95, lançou seu primeiro disco com o Planet Hemp, Usuário, vendeu 300 mil cópias. O segundo, Os cães ladram mais a caravana não pára, chegou a 350 mil cópias. Reconhecido no continente do rap como estrela de primeira grandeza.
Malandro, faz sucesso com garotas. E Marcelo já desfrutou – e muito – desse sex appeal. Assume que já transou com várias fãs. Até com mais de um ao mesmo tempo. Não conta com quantas mulheres já ficou na vida. Casado com Camila, mamãe de dois filhos com D2, fazem companhia para Stephan e Lourdes, filhos de outros dois casamentos do rapper. Hoje, Marcelo está mais do que nunca na fase: “malandragem dá um tempo”.
Durante a entrevista que você lê a seguir tomou vários copos de coca cola e comeu um pote de geléia de mocotó – nada de maconha.

Vocês está mais sossegado?

Eu gosto muito de beber, mais estou maneirando. Não bebo mais todo dia, só umas quatro vezes por semana (risos).

Você está fiel?

Fidelidade de sentimento é fácil. Difícil para mim é não ter relações com outras pessoas. Agora eu sou fiel, não tem me seduzido tanto o peito ou a bunda passando na rua. Mas, ainda sou mulherengo pra caramba. Gosto de ver a foto de uma mulher nua. Adoro olhar uma Playboy. No meu estúdio ponho na parede um monte de mulher pelada. Só não coloco em casa porque a Camila não deixa. Mas ela gosta de mim do jeito que eu sou. E adorar mulher faz parte disso.

Parece que para você é difícil controlar os instintos sexuais..

Eu sempre quis ser fiel! Quando arrumava outra mulher, voltava com um enorme sentimento de culpa. Me achava um filho da puta, ou ficava pensando que a relação estava ruim. Muitas vezes cogitei abrir o jogo, mas não acredito em relacionamento aberto – não dá para contar que tá tendo um caso fora do casamento, tira todo o romantismo da história.

Você já foi traído?

Que eu saiba não. Mas tenho algumas desconfianças.

E qual seria sua reação se isso rolasse?

Chorar (risos). Ia ficar muito triste. Ia virar as costas e sair fora. Nessas horas, prefiro me trancar, ficar na minha.

Quando você traiu não ficou paranóico achando que podia ser traído também?

Claro que sim, pensava que estava fodido. Mas comigo sempre achei que estivesse tudo às claras – todo mundo sabe que eu catei várias mulheres, mesmo estando namorando ou casado. Acho que não desculparia quem me traísse, como já me desculparam várias vezes (risos).

Você acha que mulher tem tendência a desculpar mais?

Mulher sempre acha que a coisa vai dar certo. Eu estava até falando com um amigo outro dia: “Pô eu estou o maior apaixonado, fiel, será que estou virando mulher?”

Você está casado pela terceira vez, acha que um casamento pode durar para sempre?

Hoje não consigo pensar em viver sem a Camila. Imagino comprar uma casa de praia e ficar velhinho com ela, encher o carro de criança. Acho que não vai acabar, mas a gente nunca sabe. Tive relacionamentos maneiros, mas todos acabaram horríveis. Por isso, se não estiver dando certo, melhor não insistir e cair fora, tá ligado?

Você está sempre namorando ou casado?

Se eu ficasse sozinho ia ficar maluco. Minhas mulheres sempre foram confidentes, companheiras. Mulher é um super amigo que você ainda vai lá e come. Não é ótimo? Namoro direto desde os 15 anos. Comecei e não parei mais. Nunca fiquei um dia sozinho. Sempre fui assim, conheci uma menina e terminei com a outra pra ficar com ela. Não consigo ficar uma semana sem namorar, de jeito nenhum.

E já namorou mais de uma ao mesmo tempo?

Ah..já. Mas, é foda, proque na real sempre me senti culpado por isso. Tem carinho envolvido e, depois do sexo, você já fica pensando: “Porra, o que foi que eu fiz?”. Mas, já tive namorada no Rio, São Paulo, Curtiba, Porto Alegre. Umas já sabiam que eu tinha mulher, pois sempre tive umas duas oficiais (risos). Era muito louco. Uma namorada ligava de São Paulo para o Rio e eu falava: “Não, não vem pra cá, pelo amor de Deus.” Quem se envolveu comigo, já sabia que eu não prestava, tá ligado?

Você acha que dá pra amar duas pessoas de uma vez só?

Acho que sim. E ainda dá pra trair as duas (risos). Já fiz isso. Você não acha possível?!

Acho que mulher é diferente. Somos mais exclusivistas..

Mulher é mais apaixonada né? Mas, eu acho que se são amores diferentes dá pra rolar. Você tem uma mulher que é mãe e companheira. A outra é sua amiga de droga e tem uma foda incrível. Você gosta de cada uma de jeito diferente.

Você já transou com mais de uma mulher ao mesmo tempo?

Já cara. Já realizei todas as minhas fantasias, tá ligado? Todo homem sonha em transar com duas mulheres, ver as duas transando. Na hora é legal, você acha o máximo. Mas, essas transas não estão no meu top 10. Muitas vezes o sexo bem mais normal é melhor.

Você já mediu o tamanho do seu pinto com régua?

Já medi. Mas não vou contar quanto deu. Posso dizer que tirei a maior onda no colégio. Se fosse pouco eu ia dizer: “Não isso não tem importância” (risos).

Você é muito assediado pelas mulheres?

Muito. Antes tinha que dar uma idéia nas minas. Hoje, muitas só faltam tirar a roupa, tem mulher que chega beliscando a minha bunda. Me puxando. Às vezes eu tenho vontade de falar: “Então paga”. Elas parecem homem mexendo com garota na rua.

Acontece muita coisa absurda?

Acontece. Um dia eu estava sentado no palco e chegou uma menina: “Me dá alguma coisa? Me dá seu relógio?” E eu: “Não, esse relógio eu comprei, gosto dele.” E ela: “Então me dá sua camisa?” “A camisa eu ganhei, gosto dela.” Eu acabei dando um pedaço da madeira do palco que estava no chão. E a menina saiu comemorando. Um absurdo. Fico pensando, “será que as pessoas não entendem o que a gente fala?” A gente não é igual ao Daniel, não procuramos esse glamour.

Você é um sujeito vaidoso?

Pra caramba. Vaidade não é só se preocupar com o corpo, essas coisas, mas querer ter estilo. Gosto de comprar roupa, fazer tatuagem. Tenho mania de tênis. Acho que é um trauma de infância, tenho mais de 300 pares, um monte que nunca usei. Sempre que eu viajo trago uns três.

Se sua filha namorasse um cara como você, qual seria sua reação?

Acharia ótimo, tá ligado? Sou um cara carinhoso. Corro atrás das minhas paradas. Só não ia querer que ela sustentasse malandro.

Você é ciumento?

Sou ciumento até com o meu tênis, o sofá, com os meus cds, com os meus camaradas. Mas, me controlo.

Já levou um pé na bunda?

Uma vez, levei. Eu era muito afim de transar com uma mina. Aí, quando rolou, a gente foi para um motel e eu brochei. Estava querendo a parada que não consegui segurar. Aí, depois o sexo não era muito bom, era meio caído, sabe? Ela acabou me dispensando. Disse que ia pra França ficar com um cara. Não sofri muito.

Sexo com amor é diferente?

No fundo, sou daqueles que acham sexo, mesmo quando é ruim, bom. Só que agora, só a Camila está me satisfazendo. A gente tem uma vida sexual muito intensa. Procuramos fugir da rotina. Vamos para o motel, namoramos na praia.

Você já fazia sucesso com as mulheres antes de ser famoso?

Não, mas eu sempre fui muito atirado. Quando eu era moleque, morava no morro, tinha roupa e cara de garoto pobre. Ia nas festas, na maior cara-de-pau dá em cima das patricinhas. De algumas eu levava o fora, mas levava outras também.

Já aconteceu de você ficar com alguém quando estava chapado, achar aquela pessoa o máximo e depois perceber que não tem nada a ver?

Já aconteceu de ficar um final de semana viajando de ácido com uma pessoa, achando que estava apaixonado que tinha encontrado o amor da minha vida. Depois que passou a onda, não era nada daquilo. Sinistro..

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O sagaz homem fumaça

“Na cadeia, pra te falar a real, a gente dava é risada.” Com essa frase o rapper Marcelo D2 colocou abaixo aquilo que a  imaginava ser a causa de sua pior noite: a prisão. Normal imaginar isso, mas talvez não para o Planet Hemp em 1997. Foi nesse ano que a banda foi parar atrás das grades após um show em Brasília, acusada de fazer apologia às drogas. Foram oito dias presos a espera de que algum habeas corpus pudesse livrá-los. “Ano passado fez dez anos de prisão. Caralho, devia ter feito uma festa, né? Uma festa de dez anos da prisão do Planet Hemp”, lembrou D2 às gargalhadas.

E realmente não faltam motivos para o rapper não classificar as noites de cadeia como as piores de sua vida. Alguns meses depois de ser solto ele perdeu seu principal parceiro: o pai. “Na cadeia tinha jeito, sabe qual é? Com o coroa não”, disse. “Foi aquela noite que eu pensava: agora fodeu. Não conseguia pregar o olho, acho que fiquei três dias acordado.”
E mais, para tornar ainda menos traumática a passagem pela cadeia, a repercussão do episódio fez os cofres da banda ficar ao melhor estilo Tio Patinhas. “Quando eu saí tomei um susto, comprei uma casa logo na seqüência. Se tu passa oito dias na cadeia e compra uma casa é um puta negócio”, ria D2.

Mas e as suas melhores noites, Marcelo? “Geralmente a melhor noite tem sexo no meio. Não vou falar, senão isso vai dar merda pra mim.” Compreensível.

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Usuário

“Não compre, plante!” é o singelo título da primeira música do álbum UsuárioPlanet Hemp. Figura mítica dos anos 90, que pariu Bacalhau (hoje no Autoramas), B Negão (hoje no B Negão & Os Seletores de Frequência e Turbo Trio) e Marcelo D2, que segue segurando seu próprio nome. Também faziam parte da banda Skunk, que morreu em decorrência da AIDS, Formigão e Rafael.

Não lembro ao certo, mas foi por volta de 1996/1997 que a banda veio a Natal pela primeira vez. Não existia nem de longe o sonho dos dois festivais que hoje a cidade abriga. Os shows eram feitos na raça mesmo, o underground era underground mesmo. A casa dos shows menores já era a Ribeira, só que sem estrutura. O show aconteceu no Casarão. O nome alusivo a beleza da fachada dos prédios históricos do bairro, e só. Caindo aos pedaços, com dois ventiladores de teto bem próximo as cabeças, banheiros com portas imprestáveis e paredes esburacadas. A banda tinha que passar no meio do público antes de chegar ao palco. Se é que aquele tablado com 50 centímetros de altura pode ser chamado de palco. Atrás de Bacalhau uma luz que fazia o baterista suar que nem uma chaleira.

Antes do show começar, fui com meu amigo Renato tomar uma cerveja em um carrinho de cachorro-quente. Ao sentar observamos duas figuras ao nosso lado em outra mesa. Bacalhau e Formigão. Na maior paz tomavam sua cerveja em meio ao anonimato. Internet eram as revistas e a MTV. Que naquela época tinha uma programação supimpa. Folheando o encarte do álbum enfumaçado, vejo Bacalhau ainda com cabelos vestindo uma camisa da Vision Street Wear, marca que vestia muitas bandas, inclusive a Resist Control que fora um clipe na MTV e participação numa coletânea, nunca mais ouvi falar.

No meio do show Marcelo D2 acende o baseado e convoca o público. O tablado era resistente, porque a banda sumiu em meio a tanta gente que queria fumar. Pra mão de D2 ela não voltou. Mas tudo bem, ele já devia estar com a cabeça feita. O show, como de se esperar, foi curto. Tocaram o disco e tchau. Mas o estrago estava feito. E antes do show começar. Sentados a mesa bebendo a cerveja vislumbramos a polícia dando uma dura numa turma que tinha acabado de chegar por uma das ruas adjacentes. Todo mundo na parede, braços e pernas abertas. O famoso baculejo.

O caminho que a banda trilhou é o mesmo que centenas de outras. Mas poucas chegam ao estágio de ganhar dinheiro e viver da música. Diversão é garantida, já dinheiro e fama… É engraçado conversar com pessoas que vivem outra realidade, consomem outra música, elas não entendem como uma banda pode pagar pra tocar, viajar sem ter onde ficar, gravar discos que serão distribuídos e não vendidos. A banda fez esse caminho e pouco tempo depois chegou as manchetes. Culpa da apologia ao consumo de drogas. Shows foram cancelados e eles chegaram a ser presos. O grupo aos poucos foi se desvencilhando da fumaça, mesmo sem nunca tê-la abandonado, culminando com o fim, mesmo que não tenha sido anunciado oficialmente. Há rumores de volta. Rumores.

Enquanto isso Bacalhau toca bateria mundo afora com o Autoramas, B Negão faz seu baile funk com Os Seletores de FrequênciaTurbo Trio. E o Marcelo D2 procura a batida perfeita. Nada que Jorge Ben já não tenha achado, na década de 70.  Ainda gravaram Os Cães Ladram, Mas a  Caravana Não PáraA Invasão do Sagaz Homem Fumaça e o MTV Ao Vivo Planet Hemp. Mas nenhum tem a importância do primeiro. Podem até ter vendido mais e tornado a banda mais popular, mas o primeiro é o mais incisivo nos temas e no som.

Hugo Morais: http://www.oinimigo.com/blog/?p=4415

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