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“Nasce da alma, sem pele, sem cor”

Marcelo Peixoto sabe que caminhou pela contramão durante boa parte dos seus 41 anos.
E tem a certeza de que as suas muitas confusões com a Justiça, passagens pela polícia, prisão, ameaças de morte e brigas não lhe renderam nada mais que uma dezena de cicatrizes pelo corpo.

Como um mutante

Em relação às tatuagens, o rapper mal sabe quantas ostenta ao longo dos seus 1,70 m de altura. Tem o escudo do Flamengo, uma cruz sobre o escrito Zona Norte e o nome dos seus quatro filhos cravados em diferentes regiões do corpo. Luca, 7, está grafado em seus dedos da mão esquerda; a caçula Maria Joana, 4, mereceu uma grande intervenção acima do peitoral, assim como Stephan, 17.

“FUMO MACONHA TODOS OS DIAS. E NUNCA VOU
DEIXAR DE FUMAR, NEM DE ESCREVER SOBRE ISSO”

Viva a polêmica

D2 está recostado numa cadeira reclinável, numa sala nos fundos do número 626 da Rua Dias Ferreira, no Leblon. É lá que funciona o QG da Na Moral produções, agência do empresário Marcelo Lobatto, que cuida da sua carreira desde os tem pós do Planet Hemp, há 15 anos. “Tô muito ruim, cara. Carranca pesada de ‘quero ir embora agora!’. Esse negócio de tirar foto… Tu não sabe onde pôr a mão, o vira-lata da esquina fica latindo e enchendo o teu saco. Esse dia tava foda”, resmunga, enquanto observa as imagens de uma sessão realizada para o seu quarto álbum solo, A arte do barulho, produzido por Mario Caldato e lançado na última semana. Pede opinião, troca idéia, marca o número dos melhores cliques no papel e em frases como “Esse sorrisão fake táfoda”, “essa aqui tá natural”, “os azulejos atrás dão uma onda, hein?”. D2 é um sujeito muito ligado à imagem, “tipão” marrento que construiu à base de uma persona trangressora, impulsiva, mordaz.

Desabafo social

É o tal estilo de vida “na boa” que ajuda Marcelo D2 a focar em questões fundamentais para ele. A “falta de possibilidade” é a expressão da vez que pende de seu arsenal verborrágico. Juntam-se a ela sentenças que miram a exclusão e segregação de tipos sociais em guetos, além da retração em participarmos mais da vida uns dos outros. São as angústias que calam no peito, escorregam no lápis e explodem navoz do rapper. A bordo do single Desabafo  que recupera o refrão do samba Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro), gravado pela cantora Cláudia, em 1973  D2 reverbera seus questionamentos via estéreo 5.1. “As pessoas não têm a oportunidade de levar adiante um sentimento tão básico e nobre como o querer. Isso dá nó na garganta, porque vejo a molecada estudando em escola pública, onde os professores entram em greve e o tráfico esconde armas no pátio.” Apenas quando escreve sente-se efetivamente participativo.

A VERBORRAGIA DO RAPPER VAI PARAR NO CINEMA  LEMBRANDO DE UM VELHO AMIGO

Em parceria com o diretor Johnny Araújo, D2 elabora o roteiro para um longa-metragem. O filme, em parte autobiográfico, conta a história de dois amigos, ou seja, D2 e seu parceiro de noitadas na Lapa e de Planet Hemp, Skunk.”Foi um anjo que apareceu na minha vida. Colocou o sonho dele nas minhas mãos e partiu dessa para uma melhor.” A amizade durou três anos. Era muito forte e contraditória. “Eu era de classe média baixa, família branca, da Zona Norte e ligada ao candomblé e umbanda. Ele era da classe média alta, família negra, da Zona Sul e católica.” A partir dessas contradições, Marcelo D2 conta a história “de dois caras que buscam seu caminho de afirmação através da música.” Marcelo,  em casa, com dois dos quatro filhos, Luca e Maria Joana: pai presente.

De bar em bar

D2 tem um roteiro de chopp que  segue religiosamente: “bebo todos os dias” O caminho começa no Leblon. no Jobi, no azeitona ou no bracarense. O rolé boêmio do flamenguista criado entre os bairros do Andaraí, Catete e Glória também se estende aos pagodes da Zona Norte, como o da tia Doca, em Oswaldo Cruz, e no morro da Serrinha, que abriga a escola de samba Império Serrano, em Madureira.  O rapper, diz sentir-se em casa mesmo no bar do serafim, em Laranjeiras.

“Chego aqui a qualquer hora do dia e não preciso combinar com ninguém. o Juca (Ferreira, dono do boteco) aparece, a gente troca uma idéia e as vezes ele me dá aquela moral… não deixa eu pagar a conta.”

O MANIFESTO

“É PRECISO ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA”

O texto “serve para que as pessoas não se deixem acomodar. Caiu, levantou. Chega de viver o sonho dos outros. Tem que fazer acontecer.” Quando sinto o impulso escrevo sem pensar Tudo que meu inconsciente me grita Penso depois, não só para corrigir, Como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história…

Deixar de viver os sonhos dos outros…

Queremos cumprir nossa missão que é fazer Algo de verdade que venha do coração Nós temos a coragem do Afrosamba, De Vinicius de Moraes e Baden Powell…

A visão de Tom Jobim, Nós queremos modernizar o passado, como Chico Science falou Nós declaramos que não somos só um número E queremos escrever o nosso nome Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade A possibilidade de fazer e de participar…

Fácil de entender

A preocupação de falar as coisas na lata, para que todos possam entender o seu discurso é uma tônica no trabalho do rapper. Nada a ver com o rap “sisudo e pseudo intelectual que gosta de usar palavras rebuscadas, como a simbiose da puta que o pariu”. Bastam alguns tiros para entender que o universo dos DJs, grafiteiros e MCs é o que melhor define a atual geração jovem e o mundo globalizado em que vivemos. “Musicalmente, é o estilo que abriga todos. Você pode tacar rock, música africana e samba, como fiz agora, que vai dar caldo com o rap. É a coisa mais livre que existe.” Mas tem sempre uma galera que tenta restringir. “É que nem botar tapa-olho em focinho de cavalo”, advoga. E continua falando do aspecto globalizado da parada: “Na Praça Vermelha, em Moscou; na Palestina e até na China você encontra um cara como eu, de boné para o lado, bermudão e tênis old school.”

“QUANDO ESCUTAM A MINHA MÚSICA, AÍ, SIM, MEU IRMÃO, CUMPRO O MEU PAPEL”

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“Bem melhor que você, é estar bem comigo. É ter muitos amigos é cantar, é sorrir. É viver a vida, é curtir cada minuto e segundo”

A carreira solo de Marcelo Maldonado Peixoto está entre as mais bem sucedidas do país. Depois de cinco discos azeitando a mistura de rap com samba, ele se entrega de corpo, alma e voz ao mais brasileiro dos ritmos, homenageando um de seus mestres, Bezerra da Silva, em um disco só de sambas de verdade – sem rimas, scracthes, samples ou batidas eletrônicas. Criticado por grande parte da cena hiphop, se diz excluído pela imprensa de São Paulo, cidade que concentra seu maior número de fãs. Marcelo D2 não é Zagalo, mas sentencia: “Eles têm de me engolir!”, correndo à margem das críticas e deslizando suave pelo caminho do sucesso que escolheu lá atrás, antes de fazer parte do hoje quase lendário Planet Hemp, “uma banda tensa”, segundo o seu mais famoso integrante. É um D2 tranquilo, alguns casamentos nas costas, quatro filhos e 42 anos, que abre a porta do quarto de hotel, no bairro paulistano dos Jardins, pausando o videogame. Cervejas depois, ele está à vontade para falar de drogas, Bezerra da Silva, a volta do Planet Hemp, as diferenças entre rap e samba, a confusão com os Racionais, as eleições e os sonhos que ainda pretende realizar.

Você já realizou seus sonhos?
Meus sonhos de quê?

Aqueles que você tinha antes de fazer sucesso.
Os sonhos que eu tinha, sim. Mas eu tenho outros, né, cara? Eu sou um sonhador fodido. Sonho acordado direto, sabe qual é? Minha vida é um sonho legal mesmo… Sei lá, cara, meus sonhos são outros agora. O que era pra mim antigamente, hoje eu sonho mais pros meus filhos, tá ligado? Agora em fevereiro, por exemplo, vou com a família toda pra Los Angeles, pra morar uns dois anos lá. Vai eu, minha mulher, nossos dois filhos, o Luca e a Maria Joana, e o meu filho mais velho, o Stephan. Lógico, eu tô indo pra fazer um disco de rap lá, cantar com os caras de lá, mas, porra, tô indo mais por eles, sabe qual é? Pra eles estudarem inglês. O Stephan tá começando a fazer som, tem banda e tal, vai estudar engenharia de som, tá ligado?

Ele está com quantos anos?
18.

E as conversas sobre drogas já rolaram?
Já, cara, mas o Stephan é sossegado.

Ele fuma erva?
Maconha ele fuma, cara. Tá com 18 anos, não dá nem pra proibir mais. E quer saber, cara? Não tenho muita preocupação com isso, não. O Stephan é um moleque muito com a cabeça no lugar, tranquilão pra caralho. Só não gosta de estudar, mas isso é normal. Ele repetiu o ano passado.

E álcool ou cocaína?
Eu falo pra ele: “Se quiser experimentar, cara, é comigo. Cuidado aí! Vai cheirar não sabe o quê, pó vagabundo, essas coisas”. Mas é o tipo de coisa, cara, o moleque tem 18 anos, tem a galera dele, não é uma coisa muito que o pai… Só fico ali do lado, vendo o que tá acontecendo, com quem que ele tá andando. O Stephan é mesmo muito sossegado, tipo: “Tá tranquilo, pai. Você acha que eu vou cheirar essa merda?”

Você já foi o usuário de maconha mais notório do país. Como lidar com isso perante os seus filhos?
Primeiro que meus filhos mais novos nem sabem disso, né, cara? Não pegaram essa época.

Quantos anos eles têm?
A Lourdes tem 11 anos; o Luca, 9; e a Maria Joana, 5. Eu não sou o tipo de pai que proíbo as paradas, sacou? Com os mais novos é lógico que imponho coisas, limites. Mas com o Stephan eu não vou proibir nada. Sento com ele e converso. Este ano falei: “Ó, tu repetiu, era pra ter terminado o ano passado e tu repetiu. Não vou ficar pagando R$ 30 mil, R$ 20 mil de escola por ano pra tu repetir, tá ligado? Agora, acaba essa porra! Vai pra uma escola mais barata, um supletivo, de dia, acaba essa porra logo, meu irmão, e aí vê o que tu quer fazer da tua vida. Quer ser músico? Então
vamos investir nisso”.

Como surgiu a ideia do disco em homenagem ao Bezerra da Silva, com sambas que ele gravou?
Quando ele morreu, cheguei no velório e o Zeca [Pagodinho] tava lá, sentado com a cervejinha aberta. O caixão ali, o Zeca sentado perto, lá no [teatro] Carlos Gomes. Eu cheguei sozinho, às 10 da manhã, com o olho cheio de lágrima, e o Zeca: “Ô, D2! Ta chorando? Tá maluco, rapaz? Em enterro de sambista a gente não chora, não! Em enterro de sambista a gente comemora! Senta aí e pega um copo, parceiro!” Peguei um copo e começamos a beber. Porra, aí chegou o Dicró contando história: “Esse é um 171 mesmo! Morreu em 17 de janeiro, 17 do 1!” [risos] Aí chega não sei quem, chega outro, e mais outro, e daqui a pouco tava a maior galera, a gente conversando, contando história do Bezerra. A gente chorava de rir. E no velório mesmo veio esse papo, tá ligado? “A gente tinha que fazer uma coisa pro Bezerra”, não lembro exatamente quem falou. “Porra, o Marcelo é quem tinha que fazer o disco. Todo mundo já gravou pra caralho com o Bezerra, todo mundo conhece o Bezerra há muito tempo. Marcelo era o amigo mais novo dele. Tu tinha que fazer o disco!” Saí de lá, cara, sem sacanagem, às 7 da noite, bêbado, exausto. Fui pra casa, dormi e sonhei com ele pra caralho. Sonheique a gente tava no palco.

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Celebridade do Século 21

Um dia ele já foi contra a ordem do dia. Não tinha carro, cultivava uma vasta e encrespada cabeleira e morava de aluguel na Lapa. Hoje aos 37 anos , pai de quatro filhos, Marcelo Peixoto conseguiu reverter a situação. Em 1996, Marcelo pertencia ao raivoso e contestador Planet Hemp, misturava rock, hip hop, funk, com toda a liberdade de expressão que tinha direito. Em 2005, é o Mc que faz rap com samba e desfruta das glórias do seu disco À Procura da Batida Perfeita, que já vendeu muito mais de 150 mil cópias. O Marcelo D2 do século 21 é um cara “repaginado”. Deixou de encarar o antiestablishment e assumiu seu lado celebridade e foi para a ribalta da mídia.

O que você diria pra quem te chama de vendido?

Tira o olho do meu dinheiro e corre atrás do seu. Eu sei onde meu calo dói. Se eu não for na Daslu ou no Big Brother quero ver quem vai pagar minhas contas.

Mas, nos tempos do Planet..

Nós éramos radicais pra caramba. Não iríamos no Faustão nem fudendo!

O que te fez mudar?

Eu não mudei, o que mudou foi o som. As letras do Planet Hemp eram uma coisa densa e de certa maneira não queria ir ao Faustão para ficar falando aquelas coisas tão pesadas. Com o À Procura, resolvi botar minha cara a tapa e ir ao Faustão, Luciano Huck, Jô Soares. Resolvi usar a máquina a favor da causa. Não só a causa contra a máquina.

E como a reação da gravadora [sony]?

Os caras só viram cifrão voando pra tudo quanto é lado. Meu objetivos são fazer música bem feita e entrar no mercado. Tenho 37 anos. Não quero morrer igual ao Bezerra da Silva, durango, fudido, tendo que fazer show até os 77 anos para sustentar a família.

Você não tem medo de ficar indo à Daslu e perder o público do hip hop, do skate?

Não. Eu não ando na Daslu, só entrei lá uma vez pra tocar. Como tem um garçom que trabalha na Daslu e a Daslu paga o que acha que tem que pagar pra ele. Isso não me torna uma playboy. Sou safo, sei comer lagosta como também sei comer ovo frito (risos).

Você não acha que perdeu a mão na matéria da Vogue RG (“D2 assume seu lado celebridade”)? Você está lá vendendo celular e marcas de roupas…

Não. Quando fui ao Faustão a primeira vez, entrou uma banda de axé depois de mim e eu saí falando “Pqp, onde tô me metendo?”. Aí eu pensei: “Eu já estou aqui e agora vou jogar mesmo. Vou pegar o Motorola e fazer propaganda, vou fazer propaganda de carro, de cerveja”. Mas é lógico que vou tomar cuidado, não quero que minha superexposição prejudique minha música.

Você apareceu na final do Big Brother e cantou [Pilotando o bonde da excursão.. do À procura] uma música que faz referência a maconha. Como você vê isso?

Eu não modifiquei minhas letras. Mudei minha maneira de falar com a imprensa. Não apareço mais no fantástico e fumo maconha na frente da câmera pra chocar. Pelo contrário. Você tem que saber jogar o jogo, o jogo não é só você, tem outros jogadores.

Quando começou a entrar uma grana boa?

Depois que eu ganhei meus primeiros R$ 50 com música, em 1995. Já estava bem satisfeito (risos). Comprei tudo em pó, cerveja, fui pro hotel com a mina, cheirei a porra toda e me acabei.

Você é um cara consumista?

Eu sou um cara consumista, mas não é banal. Não jogo dinheiro fora. Gosto de comprar tênis. Adoro tênis. Acho uma parada foda, não sei se é um trauma de infância (risos). devo ter uns 300 pares, sendo que uns 50 eu nunca usei. Mas não tenho aquele sonho de ter um iate, um apartamento em NY. Eu tenho ambições.

E o lance dos outros rappers falarem que você não é do hip hop de verdade?

Nunca me envolvi com o hip hop porque nunca consegui seguir uma cartilha. E se ser do movimento é seguir uma cartilha eu realmente não sou. Agora, o que faço é rap. E o que neguinho tem que baixar a cabeça e bater palma é que estou levando o rap para outro nível. Sou fã pra caralho de Racionais, mas eu não vou fazer igual a eles. Para onde o rap vai se ficar todo mundo imitando os Racionais? Desde “Sobrevivendo no Inferno”, o rap ficou num lugar-comum. Todo mundo queria fazer o próximo “Sobrevivendo no Inferno” mas ninguém nunca vai fazer porque aquele momento ali dos caras foi mágico.

Qual o papel da maconha na sua vida?

Diversão e só. Eu fumo pra ficar chapado. Não tem uma parada filosófica.

Você chegou onde queria chegar?

Musicalmente estou bem satisfeito, mas sou um cara um pouco inquieto com isso. As pessoas falam “Puta, o disco À Procura da Batida Perfeita e tal”, mas sei que não é nada perto do que eu poderia ter feito. E, se for falar de grana, tenho muito mais do que precisava. Não é luxo. É o que todas as pessoas deveriam ter: uma boa comida na mesa, um carrinho, uma casa. Eu tenho até mais do que um carrinho, mas o básico deveria ser acesso a todos.

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“Me orgulho de ser carioca. Me orgulho de ser brasileiro”

Cantor lembra suas partidas mais marcantes e  a decepção de ver a seleção de azul na primeira vez que teve contato com TV a cores.

A relação com o Flamego está marcada na pele e na letra de “1967”, quando lembra que o avô Peixoto deixou seu sangue rubro-negro. Mas a seleção também faz parte do lado torcedor de Marcelo D2. Ao lembrar os jogos da Copa do Mundo mais marcantes de sua vida, o cantor cita um que doeu como brasileiro e flamenguista: a derrota para a França em 1986, no México, na qual Zico perdeu um pênalti.

– Aquela foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Fiquei emocionado. Nosso maior ídolo perdendo um pênalti, meu pai chorando… Foi a tristeza de ter perdido a Copa com Zico e de ver meu pai triste pra caramba – disse D2.

Durante a Copa do México, D2 tinha quase 19 anos. A primeira lembrança do cantor em um Mundial é 1974, com seis. Mas também não é uma memória muito feliz. Não por causa da derrota da então tricampeã seleção brasileira, mas pela decepção de não ver a amarelinha na tela da televisão.

– Foi a primeira vez que vi uma TV a cores. Mas o Brasil estava de azul! Foi decepcionante… A primeira vez que vejo a seleção e ela está de azul, não de amarelo. Eu queria ver o amarelo! – contou, rindo.

O garoto que não viu a amarelinha em 1974 esperou 20 anos para comemorar com a seleção. Só em 1994, já cantor da banda Planet Hemp e com o apelido D2 incorporado ao nome, Marcelo viu o Brasil ser tetra. E o jogo inesquecível daquela campanha também teve choro. Não o de Zico, mas o de Branco, que fez o gol da vitória por 3 a 2 sobre a Holanda, no dia 9 de julho, pelas quartas.

Peladeiro assumido e amigo de jogadores, como Vagner Love e Ronaldinho Gaúcho, D2 só esteve presente em uma Copa do Mundo. Em  2006, na Alemanha, foi contratado pela prefeitura de Berlim para shows. No dia 13 de junho, o cantor foi direto do palco para a estreia do Brasil contra a Croácia (1 a 0, gol de Kaká), no Olympiastadion. Detalhe: de carona em um carro de polícia.

– Mandei até ligar a sirene (risos). Eu estava em Berlim, falei que queria ir para o jogo e me colocaram dentro do estádio. O Kaká salvou o jogo, que foi muito ruim – lembrou.

Apesar de estar ligado no que acontece com a seleção, o cantor reconhece que o Flamengo é mais importante em sua vida. Marcelo lembra até o fracasso de 2006 para explicar seu lado mais rubro-negro quando o assunto é futebol:

– Sou muito mais flamenguista. Geralmente, a seleção não é do jeito que você quer, tem jogador que você não gosta. A Copa de 2006 foi meio decepcionante, um timaço, Ronaldinho jogando muito e lá não deu nada. Em Copa, a seleção aguca essa coisa de ser brasileiro, a gente tem poucos momentos assim no povo brasileiro, de ser patriota. Essa é a hora mais patriota – concluiu.

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“1967, o mundo começou pelo menos pra mim”

“A trajetória pelos olhos de Dona Paulete.”

Como você conheceu o Dark, pai de seus filhos?

Conheci o Dark por causa deste dedo aqui. Eu trabalhava numa confecção de roupas. Por sinal, eu nunca tinha costurado na vida [risos]. Precisava arranjar emprego. Cheguei na fábrica, tinha um fila enorme. Só tinha vaga para quem já tinha experiência. Entrei e pensei: “O que vou fazer agora?” Vi que tinha uma mulher coordenando todo mundo. Fui franca para ela. Disse que não tinha experiência, mas que precisava trabalhar para ajudar em casa e que, se ela me ensinasse, eu aprenderia tudo. Aí ela disse que o emprego era meu. Trabalhava pra caramba, trabalhava naquelas máquinas de colocar botão de pressão. Produzia bem naquela máquina. Um dia prendi meu dedo na máquina. O Dark era chefe do departamento pessoal, me levou pro pronto-socorro. Ficamos amigos..

Como foi o nascimento do Marcelo?

Engravidei parei de trabalhar, fiquei em casa. O Dark enlouqueceu de felicidade. Passei mal no domingo de manhã, entrei no carro de um vizinho e no caminho a bolsa estourou. Fomos pro hospital mais próximo que era o Bomsucesso. O Marcelo nasceu lá. Naquele tempo não tinha de  ultra-sonografia, eu nem sabia o sexo. Nasceu de parto normal às 17:30 de um domingo no dia 05 de Novembro de 67.
O Dark tomou um porre nesse dia. Ele já gostava, não precisava de muito para beber. Mas, quando nasceu o filho..
Um dia antes de eu ir para a maternidade, pedi pra ele comprar uma caixa de sabão em pó pra lavar as roupinhas do bebê. Aí ele tomou um porre e foi pra casa com o sabão em pó na mão. Chegando lá, minha mãe disse que ele já estava trebâdo, que eu estava na maternidade, e que, ao invés de comprar flores para mulher, comprou uma caixa de sabão em pó. [caí na gargalhada] Louco, louco…
Fui para minha casa aonde estavam o berço e as coisinhas dele, então voltei para Piedade. Quando o Marcelo tinha 1 aninho nós fomos morar em Madureira, na estrada da Portela, numa casa que toda criança gostaria de ter..tinha um quintal enorme.

Como foi a infância dele?

Marcelo foi uma criança muito tranqüila.

E a vida de vocês?

Muita dureza. Eu tinha que trabalhar, fazia unha, vendia roupa, jóia, perfume. O Dark era uma pessoa muito boa. Mas, não era uma pessoa muito responsável.

Como autônoma você ainda podia cuidar do Marcelo?

Quando ele nasceu montei uma firmazinha com uma amiga para fazermos flores. Aquelas flores de tecido que eram muito comuns antigamente. Fazíamos tudo, montavámos arranjos. Eu botava o Marcelo num cantinho e ficava lá trabalhando. Eu sempre gostei de vender.

E o Dark?

Ele ficava empregado, depois desempregado…Mas, eu não ligava muito. A vida inteira eu trabalhei e cuidei dos meus irmãos…É claro que incomodava! Toda mulher gosta de estabilidade, ter um homem do lado..Mas na minha infância eu já tinha assumido os meus irmãos. Então, quando nasceu o meu filho, eu achava que seria o pai e a mãe. Deve ter sido errado da minha parte.

Ele brincava muito sozinho? Ou já tinha amigos?

Mais sozinho. Tinha os brinquedos dele. Mesmo no parquinho ele gostava de ficar quietinho com as coisas dele. Dizia que os outros iriam estragar a brincadeira dele. Ele era calmo até demais, de dar preocupação. Ficava montando as coisas. Até fazia palco com caixa de sapato.

Palco?

É. Palco. Montava palco com caixa de sapato e depois enfiava uns palitos de fósforo e tacava fogo em tudo. É mole? Tacava fogo.

E a saúde?

Era magrelo, mas saudável. Ele era tão ruim pra comer. Tinha umas coisas engraçadas. Me pedia para ver quando eu arrumava o prato dele. Não gostava quando o feijão sujava o arroz. Ele gostava de comer o feijão e depois o arroz limpinho.

Ele fazia muitos amigos?

Fazia.

Como foi a adolescência dele?

A gente morava em Maria da Graça. Eu e o Dark resolvemos nos separar, porque o amor tinha acabado. Nos separamos e ficamos amigos. Até porque tínhamos muito respeito um pelo outro. Ele foi o cara que me deu meus filhos. Eu era jovem não queria viver só como amigos. Até pelas crianças, elas precisavam do pai, mas vivendo bem.

O Marcelo tinha quantos anos quando vocês se separaram?

Uns 12 anos, o Dark foi morar no Catete e no Andaraí. Não tinha mais a figura masculina em casa. Tive que trabalhar muito. Tinha dias que nem comia. Trabalhava mesmo! Ia com uns saltos desse tamanho pra rua, vender. Que energia que eu tinha! Era uma vendedora nata. Vendia mesmo, não tinha vergonha de nada. Parecia uma magazine ambulante! Aí começaram os problemas com o Marcelo. O Dark nem se envolvia com a educação das crianças. Tudo eu que tinha que resolver. O Marcelo crescendo, querendo tênis, as coisas dele. Depois de um tempo o Marcelo não queria mais ir pra escola. Horrível, vocês escutar isso de um filho. Fiquei desesperada. Queria fazer dele um homem. E sem estudar ele ia ser o que na vida?
Nessa época eu mesma estava estudando. Tinha um professor de matemática que dizia que o Marcelo estava desmotivado com a vida. Ele queria ficar o dia inteiro de papo pro ar. Não se interessava por nada. Tentei fazer ele estudar à noite, mas não adiantou. No primeiro dia de aula ele já falou que não queria. Aí não adianta. Desisti. Com 13 anos, não queria mais nada com os estudos. Então eu disse que ele teria que trabalhar. Ele topou. Tinha uma amigo que era Globinho, mas também estudava, o Beto. Falei com o Beto pra ver se ele fazia a cabeça do Marcelo para trabalhar e continuar na escola. O Marcelo acabou topando, trabalhava de manhã e depois ia para o colégio. Ele tentou, mas só matava aula. O Toninho que é meu companheiro há mais de 20 anos, pegava no pé dele. Dizia que ele precisava ter responsabilidade. O Marcelo não gostava. Me disse que queria morar com o pai, que ia cuidar do pai dele. Então foi pro Catete morar com o Dark. Aí, meu filho…O Dark era um farrista. A casa dele era um bordel! Homem morando sozinho, sabe como é…E eu pensando o que seria do meu filho.

Ele tinha quantos anos?

Uns 16. Mas, eu ia sempre vê-lo. Pegava as roupas pra lavar…Queria ficar de olho. Ele gostava muito do pai e da vida que estava levando, né?

O Dark fumava maconha?

Não, não que eu soubesse. Ele bebia demais e fumava muito cigarro. Tanto é que morreu de câncer no pulmão. Não dava nem pra sonhar com o que seria o futuro do Marcelo. Quando ele era pequeno dizia que queria ser palhaço de circo. Eu ficava muito preocupada com ele.

E a Carla?

A Carla sempre foi agarrada comigo. Muito minha amiga, minha companheira. O Marcelo também, mas era bem mais cômodo viver com o pai. Com o Dark ele ficava livre das cobranças, as minhas e as do padrasto. Ele sumia de casa e a gente ia atrás dele. Eu metia o cacete nele! Já quebrei muita mesa de botão do Marcelo. Todo ano ele me pedia uma nova e eu metia o cacete e quebrava. Ele só apanhou depois de grande. Nessa fase de não querer nada com a vida.

Quando você percebeu que ele estava tomando um rumo na vida? Foi com o Planet?

Foi. O pior que foi.

Você conheceu o Skunk?

Lógico. Ele ia muito lá em casa. Eu ficava muito preocupada com o Marcelo. Saí do Andaraí pra morar no Catete e ficar mais próxima. Então ele conheceu a Sonia e quis casar, moravam os três juntos.

A Sonia foi morar com eles?

Na verdade, ela foi antes morar com o Dark. A tia dela era amiga do Dark e a Sonia vivia mal com o padrasto e com a mãe. Um dia o Dark encontrou a Sonia chorando largada na rua e disse que ela poderia ir morar com ele. Resolveu acolher a menina. Foi quando ela conheceu o Marcelo.

Então foi o pai que apresentou ela para o filho?

Foi. E quando Dark soube que eles estavam juntos, falou: “Meu Deus”. Mas aí não tinha mais o que fazer. Ficaram juntos e ela engravidou. Eu comprei um apartamento pra mim e falei pra ela e pro Marcelo irem morar aonde eu morava. Pra ter a vidinha deles, o filho…Deixei o apartamento todo montado pra eles. Comprei carrinho de neném. O Stephan nasceu e o Marcelo tocando a vida dele de camelô. Aí o Dark ficou doente. A Sonia ajudava a cuidar dele. Mas não estava dando. Então, o Dark foi morar com eles. O Marcelo era vendedor, botava dinheiro em casa e a Sonia também. Mas, ganhavam muito pouco e com o filho..

Como foi a morte do Dark?

Foi muito bonito eles terem levado o Dark para morar com eles. Ele melhorou e voltou a trabalhar. Parecia que estava curado. Mas, aí voltou a ficar doente. Ele ainda curtiu muito o Stephan. Levava o neto pra tudo que era lado…viajavam. O Stephan era louco pelo avô. Fala dele com muito carinho. Ele adora o pai, mas o avô foi muito importante na vida dele. O Dark ainda se juntou com a Regina, que foi companheira dele. Eu tinha muito carinho pelo Dark. Ele me deu as coisas mais preciosas da minha vida. Sempre enxerguei isso. Depois ele teve a recaída e não houve mais jeito. Perdeu um pulmão, depois afetou outro…E o Marcelo começando a deslanchar na música.

Ele não chegou a ver o filho fazendo sucesso?

Não. Foi logo no início. Já tinham gravado um disco. Mas ainda não faziam muito sucesso. Todos os enfermeiros do hospital sabiam que o Marcelo era músico, pois o pai falava dele com muito orgulho.

Como foi pra você ver o disco? Como foi saber que seu filho era o maconheiro nº 1 do Brasil?

Assustador.

Sabia que ele fumava maconha?

Sabia e ficava triste, porque droga é droga. Ficava preocupada.

Como foi o dia da prisão?

Ele era casado com a Manuela. Era aniversário do Stephan. A gente preparou uma festa. Ele estava tocando em Brasília, e a gente esperando que ele fosse conseguir chegar para a festa do filho. Então a Manuela chegou só no final da festa e contou que a banda estava presa. Fiquei desesperada. Aí entrei em contato com o empresário da banda, Marcello Lobatto, e ele ia me tranquilizando. Depois consegui o telefone do Gabeira, esse homem foi um alento. Ele viu o meu sofrimento e disse que eu podia ligar a hora que quisesse. Enquanto eles estavam presos, fiquei em cima da cama com o controle na mão. Só dava isso na televisão…ou eu que só via isso.

E a fama?

A fama do Marcelo aconteceu de forma tão natural…Como mãe acho que não mudou nada na via dele. O Marcelo é a mesma pessoa, trata todo mundo do mesmo jeito. É lógico que hoje ele pode usar coisas melhores, agora ele tem dinheiro. Me lembro que a gente era tão pobre que ele dizia que ia gastar o primeiro salário todo em doce de leite. Tinha vontade de comprar tênis bom, hoje ele compra. Tem uma casa maravilhosa, um carrão. Mas o dinheiro não mexe com a cabeça dele.

Não é esnobe?

Não, ele nem gosta dessa coisa de ostentar, de chamar atenção por essas coisas. Hoje em dia todo mundo tem medo. Mas não vai deixar de ter as coisas e de viver do jeito que pode por causa do medo.

Ele ajuda a família?

Ele tem sido um anjo pra gente. Ele ajuda a vó dele, me ajuda muito, com os meus remédios, me deu esse apartamento…Está sempre preocupado com todos da família. Ele quer ter mais para continuar ajudando a gente e deixar um bom futuro para os filhos.

E os amores que ele teve? As mulheres?

É complicado falar disso..

Qual o maior defeito do Marcelo?

É irresponsável demais. Não cumprir as coisas que combina…Mas ele tá melhorando.

E a maior virtude?

São várias [risos]. Ser um bom filho é uma grande virtude de um homem. O Marcelo tem um coração muito bom. Ele ajuda todo mundo..Agora ele tá dando mais valor para o dinheiro, a Camila ajuda ele a ter os pés no chão.

Tudo veio na hora certa para ele.

É mesmo. Me lembro que na época do Planet , eu achava engraçado ele estar em todo lugar como líder da banda. Eu não achava que ele fosse fazer uma carreira solo. Acho que nem ele imaginava quando começou o Planet.

O Marcelo ainda guarda um grande adolescente dentro dele.

É porque ele nunca pôde ter esse tipo de coisa. Só agora. Acho muito legal. Imagine eu, que nunca tive uma boneca. Isso é uma realização! E que se dane o mundo!

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“Vocês tão prontos para um rolê? Do hip hop ao samba”

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“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer..”

Torcida do Flamengo homenageia Marcelo D2

A torcida do Flamengo “Urubuzada” fez uma bandeira com o rosto do Cantor no jogo contra o Universidad Católica, Libertadores 2010.

“Emocionante balançar uma bandeira no Maracanã com meu rosto”

“Meus grandes ídolos eram do futebol. Zico, Adílio… O Flamengo foi Campeão Brasileiro em 1978, eu tinha 9 anos, o auge do fanatismo por futebol.
Meu pai me levava sempre ao Maracanã. Minhas imagens do Maracanã são em preto-e-branco [risos]. Lembro do Pelé jogando com a camisa do Mengão. Esses eram meus ídolos.”

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