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“Nasce da alma, sem pele, sem cor”

Marcelo Peixoto sabe que caminhou pela contramão durante boa parte dos seus 41 anos.
E tem a certeza de que as suas muitas confusões com a Justiça, passagens pela polícia, prisão, ameaças de morte e brigas não lhe renderam nada mais que uma dezena de cicatrizes pelo corpo.

Como um mutante

Em relação às tatuagens, o rapper mal sabe quantas ostenta ao longo dos seus 1,70 m de altura. Tem o escudo do Flamengo, uma cruz sobre o escrito Zona Norte e o nome dos seus quatro filhos cravados em diferentes regiões do corpo. Luca, 7, está grafado em seus dedos da mão esquerda; a caçula Maria Joana, 4, mereceu uma grande intervenção acima do peitoral, assim como Stephan, 17.

“FUMO MACONHA TODOS OS DIAS. E NUNCA VOU
DEIXAR DE FUMAR, NEM DE ESCREVER SOBRE ISSO”

Viva a polêmica

D2 está recostado numa cadeira reclinável, numa sala nos fundos do número 626 da Rua Dias Ferreira, no Leblon. É lá que funciona o QG da Na Moral produções, agência do empresário Marcelo Lobatto, que cuida da sua carreira desde os tem pós do Planet Hemp, há 15 anos. “Tô muito ruim, cara. Carranca pesada de ‘quero ir embora agora!’. Esse negócio de tirar foto… Tu não sabe onde pôr a mão, o vira-lata da esquina fica latindo e enchendo o teu saco. Esse dia tava foda”, resmunga, enquanto observa as imagens de uma sessão realizada para o seu quarto álbum solo, A arte do barulho, produzido por Mario Caldato e lançado na última semana. Pede opinião, troca idéia, marca o número dos melhores cliques no papel e em frases como “Esse sorrisão fake táfoda”, “essa aqui tá natural”, “os azulejos atrás dão uma onda, hein?”. D2 é um sujeito muito ligado à imagem, “tipão” marrento que construiu à base de uma persona trangressora, impulsiva, mordaz.

Desabafo social

É o tal estilo de vida “na boa” que ajuda Marcelo D2 a focar em questões fundamentais para ele. A “falta de possibilidade” é a expressão da vez que pende de seu arsenal verborrágico. Juntam-se a ela sentenças que miram a exclusão e segregação de tipos sociais em guetos, além da retração em participarmos mais da vida uns dos outros. São as angústias que calam no peito, escorregam no lápis e explodem navoz do rapper. A bordo do single Desabafo  que recupera o refrão do samba Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro), gravado pela cantora Cláudia, em 1973  D2 reverbera seus questionamentos via estéreo 5.1. “As pessoas não têm a oportunidade de levar adiante um sentimento tão básico e nobre como o querer. Isso dá nó na garganta, porque vejo a molecada estudando em escola pública, onde os professores entram em greve e o tráfico esconde armas no pátio.” Apenas quando escreve sente-se efetivamente participativo.

A VERBORRAGIA DO RAPPER VAI PARAR NO CINEMA  LEMBRANDO DE UM VELHO AMIGO

Em parceria com o diretor Johnny Araújo, D2 elabora o roteiro para um longa-metragem. O filme, em parte autobiográfico, conta a história de dois amigos, ou seja, D2 e seu parceiro de noitadas na Lapa e de Planet Hemp, Skunk.”Foi um anjo que apareceu na minha vida. Colocou o sonho dele nas minhas mãos e partiu dessa para uma melhor.” A amizade durou três anos. Era muito forte e contraditória. “Eu era de classe média baixa, família branca, da Zona Norte e ligada ao candomblé e umbanda. Ele era da classe média alta, família negra, da Zona Sul e católica.” A partir dessas contradições, Marcelo D2 conta a história “de dois caras que buscam seu caminho de afirmação através da música.” Marcelo,  em casa, com dois dos quatro filhos, Luca e Maria Joana: pai presente.

De bar em bar

D2 tem um roteiro de chopp que  segue religiosamente: “bebo todos os dias” O caminho começa no Leblon. no Jobi, no azeitona ou no bracarense. O rolé boêmio do flamenguista criado entre os bairros do Andaraí, Catete e Glória também se estende aos pagodes da Zona Norte, como o da tia Doca, em Oswaldo Cruz, e no morro da Serrinha, que abriga a escola de samba Império Serrano, em Madureira.  O rapper, diz sentir-se em casa mesmo no bar do serafim, em Laranjeiras.

“Chego aqui a qualquer hora do dia e não preciso combinar com ninguém. o Juca (Ferreira, dono do boteco) aparece, a gente troca uma idéia e as vezes ele me dá aquela moral… não deixa eu pagar a conta.”

O MANIFESTO

“É PRECISO ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA”

O texto “serve para que as pessoas não se deixem acomodar. Caiu, levantou. Chega de viver o sonho dos outros. Tem que fazer acontecer.” Quando sinto o impulso escrevo sem pensar Tudo que meu inconsciente me grita Penso depois, não só para corrigir, Como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história…

Deixar de viver os sonhos dos outros…

Queremos cumprir nossa missão que é fazer Algo de verdade que venha do coração Nós temos a coragem do Afrosamba, De Vinicius de Moraes e Baden Powell…

A visão de Tom Jobim, Nós queremos modernizar o passado, como Chico Science falou Nós declaramos que não somos só um número E queremos escrever o nosso nome Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade A possibilidade de fazer e de participar…

Fácil de entender

A preocupação de falar as coisas na lata, para que todos possam entender o seu discurso é uma tônica no trabalho do rapper. Nada a ver com o rap “sisudo e pseudo intelectual que gosta de usar palavras rebuscadas, como a simbiose da puta que o pariu”. Bastam alguns tiros para entender que o universo dos DJs, grafiteiros e MCs é o que melhor define a atual geração jovem e o mundo globalizado em que vivemos. “Musicalmente, é o estilo que abriga todos. Você pode tacar rock, música africana e samba, como fiz agora, que vai dar caldo com o rap. É a coisa mais livre que existe.” Mas tem sempre uma galera que tenta restringir. “É que nem botar tapa-olho em focinho de cavalo”, advoga. E continua falando do aspecto globalizado da parada: “Na Praça Vermelha, em Moscou; na Palestina e até na China você encontra um cara como eu, de boné para o lado, bermudão e tênis old school.”

“QUANDO ESCUTAM A MINHA MÚSICA, AÍ, SIM, MEU IRMÃO, CUMPRO O MEU PAPEL”

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“Ela alegra, ela inspira, ela acalma…”

Cannabis Cup – Amesterdã

Registramos pela primeira vez a fumantina exacerbada da Copa Anual da Cannabis – a popular Cannabis Cup -, na paradisíaca Amsterdã, Holanda. Recordo-me de que a comitiva brazuca era encabeçada pela esquadrilha da fumaça Marcelo D2 e Zé Gonzales, do Planet Hemp, o fotógrafo Vavá Ribeiro e meu amigo Xiko. Uma viagem antológica. Evento promovido pela revista norte-americana especializada em cânhamo High Times.

Amsterdã é a Disneylândia dos malucos. A meca da lúxuria, do prazer e das drogas leves. A beleza da cidade, com seus canais, casario antigo, museus e sex shops, ao lado da camaradagem do povo holandês, permite a qualquer ser humano viver com dignidade.

FUMANDO FEITO TURCO-OTOMANO
Importantes nomes egressos do movimento maconhífero de todo o mundo acompanhavam seminários num ambiente de fumaça sem limites, assim como um grupo de ativistas feministas a favor da descriminação da erva, que fazia parte do júri especial. O primeiro dia foi suportável por duas horas. Não é por nada não – mas foi um trabalho de Hércules acompanhar aquele bando de malucos-belezas fumando feito turco-otomano, falando manso sobre os efeitos benéficos da cannabis à saúde e pregando que o mundo seria outro com a utilização em massa do hemp em nosso dia-a-dia.

Tateando o terreno

Os dois primeiros dias foram de pura excitação. Subíamos e descíamos a escada em sintonia com tudo que ocorria. Conhecemos e fizemos intercâmbios com gente de todos os cantos do mundo, trocando impressões e colhendo dados sobre todas as utilidades possíveis do hemp. O clima de paz e amor harmonizava as relações: velhinhos holandeses colhiam informações com experientes freaks americanos e a todo momento me defrontava com dezenas de clones Jerry Garcia, o guru do Grareful Dead, já falecido.

No transcorrer do evento diversas mesas redondas, palestras e seminários. Ativistas, estudiosos e celebridades do meio falaram sobre vários assuntos: maconha na indústria têxtil, na culinária, na arte psicodélica, na religião: seu uso legal e ilegal, plantio, cultivo…Um fog de fumaça – autêntico smog – envolvia o ambiente por completo. Havíamos retornado aos anos 60/70 e não existia Lei Seca.  O fumo rolava forte por todos os cantos.

No Pax Party Park, um prédio de três andares, acontecia também na paralela, a Hemp Expo, de shampoo a lingerie, todos os produtos que estiveram à disposição do público tinham algo em comum: eram derivados da hemp. Pessoas extremamente lúcidas e ecologicamente corretas, explicavam e vendiam algumas das mais de 25 mil unidades da planta da cannabis em benefício da espécie humana. Da semente às flores, tudo é aproveitado e reciclado. O nível de THC da hemp industrial é quase nulo.

Ficamos em Amesterdã por mais quatro dias, instalados no hoel Kabul. Dentro do avião levantando vôo, olhei pela janela e observei que, por todo o trajeto, estufas gigantescas iluminavam o interior da Holanda – o hemp é a sexta maior produção agrícola do país, com 25 toneladas anuais. Quals erá o conteúdo dessas estufas? Inocentes tulipas? Até a próxima Cannabis Cup.

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“Siricotico ticotico no fubá ticotico pó de mico quero ver no que vai dá”

Divulgação

Foi difícil pra
você, que faz rap, cantar samba?
Foi tranquilo gravar a voz, sabia? Mas, fiquei um pouco nervoso. Me deu uma rouquidão, cara, que eu nunca tive na minha vida. Nunca fiquei rouco três dias seguidos.

Insegurança, talvez?
Acho que foi um nervosismo, mesmo, Gravei quatro dias num dia e fiquei tão nervoso, que no outro dia não consegui gravar nenhuma.

Ficou de fora algum clássico do Bezerra?
Porra, cara, o Bezerra tem clássico pra caralho! [risos]. Tem neguinho que falou: “Porras, tu não colocou ‘Zé Fofinho de Ogun?’ Tem um que ele diz [canta] “Se quiser cafungar ou dá dois vai na sacristia com o sacristão”, essa também não gravei. Vou te falar, eu fugi um pouco das músicas de pó. Não queria cantar “Cocada Boa”.

Por quê?
Tou meio de saco cheio de pó. Não sou contra ninguém, nem contra nada. Se quiser cheirar aí, pode cheirar tá ligado? Não vou falar que eu parei totalmente, que nunca mais. Mas é que agora eu não gosto mais dessa balada. Aí falei: “Aaaah, não vou gravar essa, não.” Pó antes era uma parada mais yuppie, festa de rico, depois era mais normal e hoje tem pó de 5 [reais], porra! Era uma coisa mais escondida, tá ligado? Hoje é todo mundo no banheiro. Mas aí o Leandro Sapucahy [cantor, campositor e produtor do disco] encheu o saco pra gravar “Cocada Boa”. Gravei a voz meio na má vontade. Quando a gente acabou, o Leandro falou: “Beleza, essa daqui tá boa. Agora, faz com vontade que ela entra no disco” [risos]

Como conheceu o Bezerra da Silva?
Ia rolar um show no Canecão e o Planet pensou em convidar o Bezerra da Silva, tipo um ‘special guest’? Bora! Ligamos pra ele. que disse: “Já ouvi falar, vocês são aqueles maconheireos que aparecem na TV com aquele cabelão!” [risos] “Somos nós mesmos” Qual que é a parada?. Falamos: “Então, a gente queria que o senhor participasse de um show nosso…” E ele: “Primeiro, senhor é o caralho! Senhor tá no céu. Quanto é que tem de dinheiro? Tem dinheiro?” Falei: Ah, a gente tava pensando que seria de graça. , mas se quiser cobrar…” Não, então eu vou lá e vocês ficam me devendo essa”, ele disse. Aí o cara foi no show, meu irmão, a gente ensaiou três músicas pra cantar com ele. A gente sabia que ia tocar duas e, se ficasse bom pra caralho tocava mais uma. Aí tocamos umas cinco, seis, tá ligado? E ele não saia do palco, a molecada tava meio assim já, queriam ver a porrada comer [risos], querendo ver rock e ele lá no palco. Foi demais! Aí logo na sequência, acho que em 96, eu e ele ficamos bem próximos.

O Bezerra da Silva não era muito doido?
Não era, cara. Eu nunca fumei bagulho com o Bezerra. Ele tinha uma parada comigo, principalmente depois que meu pai morreu, em 98. ele me ligou pra falar do meu pai, pra falar que pra qualquer parada tava lá, que se eu precisasse tomar uma cerveja, se quisesse conversar. Ele me tratava muito como filho também. Em 98, quando eu comecei a turnê do Eu Tiro é Onda, a gente foi fazer uma homenagem ao Chico Science, eu liguei pra ele e pedi um pandeirista, tá ligado? Aí ele mandou o Tuca, filho dele. Na hora eu e o Tuca colamos, ficamos parceiraços, os dois porra-loucas pra caralho. Andamos o ano inteiro juntos, passei a frequentar a casa dele.

Em 2010, o Usuário completou 15 anos, é possível uma reunião da banda?
Às vezes sinto saudade daquela época, saudade dos caras mesmo, de tá com os caras ali, tomar cerveja, bater papo. mas, a gente nunca conversou sobre uma reunisão do Planet Hemp.

Tem algum empecilho pessoal? Alguma rusga?
Não, cara. Eu briguei com o Bernardo, Bnegão, ficamos dois anos sem se falar, mas voltamos a nos falar. Tem esse disco de sambas do Bezerra, ano que vem vou morar em Los Angels. Sei lá…pensando agora, neste momento acho impossível. Tem algumas coisas sobre a volta do Planet Hemp que eu queria falar. Primeiro: nós não somos mais aqueles moleques. Se fosse um show ou uns shows pra gente se reunir de novo, pra galera tomar uma cerveja e ver a gente tocando de novo, eu acharia interessante. Mas, pô, cara, eu tenho um receio tão grande disso..

Por quê?
Por que o Planet foi uma parada daquela época, das pessoas que a gente era. Um disco de maconha lançado menos de dez anos depois que a ditadura tinha acabado? Foda, cara, é uma parada muito importante pra vocês ficar, saber qual é? Remexendo.  Sei lá, tenho medo de mexer, tá ligado? E ficar parecendo aquelas bandas que voltam com os caras velhinhos e os fãs vão lá e falam: ” Puta, que merda! Era tão legal antes.” Melhor que fiquem só com aquela imagem, que, porra era tão legal antigamente. Mesmo os caras que dizem que “Marcelo D2 era legal quando era do Planet Hemp.” Prefiro que fiquem pensando assim do que voltar pro Planet Hemp pra agradar esse tipo de gente. E outra coisa, o Planet Hemp dava muito problema, cara. Voltar pra tudo isso, cara? [risos]. A coisa da Justiça. Imagina a Justiça batendo na minha porta de novo? Processos e processos. E só eu que assinei os processos. Foram 18 processos. O Planet era meu, é meu né cara? O bagulho é meu e eu registrei tudo.”

Morar na Califórnia é um sonho seu?
É um sonho meu de moleque. Mas agora esse sonho é mais por eles do que por mim, tá ligado? Porque pra mim é a maior conveniência morar no Leblon, vista pro mar, maior apartamento legal. Em Los Angeles não vai ser essa vida de Leblon, sabe qual é? Vamos ter que morar no subúrbio. No Leblon eu desço de chinelo, tô em casa. Mas, porra, cara, eu e a [minha esposa] Camila temos uma parada muito parecida, a gente é muito nômade, sabe?

Já sabe onde você vai morar em Los Angeles?
Cara, lá fora o estudo é muito caro, mas tem boas escolas públicas, né? E uma escola muito boa é a de Silver Lake, tem aula de música, de teatro, o Flea [baixista do Red Hot Chili Peppers] dá aula lá de música, alguns outros músicos também. E, pô, é do lado da casa do Mario Caldato, do B-Plus, do Madlib, todos os meus amigos dali, sacou? Então quero ficar perto dos caras. E se a gente morar no bairro pode matricular as crianças na escola do bairro.

E você vai fazer o quê lá?
Eu tava querendo abrir uma paradinha lá só pra ter alguma coisa pra fazer. Um bar, um café, uma parada assim. O [DJ] Nuts que botou uma pilha e falou: “A gente leva disco daqui pra lá, faz uma galeriazinha, um barzinho, loja de disco…” Vou acabar vendendo algo brasileiro, né, cara, senão vou vender o que pra eles lá? [risos]

Seu inglês é perfeito? Dá para rimar em inglês?
Cara, eu me viro. Mas rimar em inglês, pelo amor de Deus! Ia ficar tosco pra caralho! Tem que dominar muito a língua. A ideia é a gente ir em fevereiro e, como as aulas começam só em julho, todo mundo estudar inglês nesse tempo. Tem que aprender a falar inglês bem, né, cara? É importante pra caralho. Vou te falar que eu sinto maior falta. Acabei de voltar da Suíça e meu inglês é muito tosco, tá ligado? Pra dar uma entrevista que nem eu tô falando com você assim fica uma merda. Aí o que acaba acontecendo? Tu acaba encurtando a resposta, né? [risos] Não fala o que você tá pensando, fala o que consegue falar e porra, aí é foda.

Foi trabalhar na Europa?
Fui tocar, cara. Foi a quarta vez que fui esse ano pra Europa – Suíça e França. Agora a gente vai de novo esse mês que vem [agosto], são quatro shows na Inglaterra e um em Paris. Em setembro vamos mais uma vez. Tá legal lá na Europa pra gente, cara. Tocamos num festival de rap que teve Eminem e Jay-Z como headliners, mas Nas e Damian Marley foi o melhor show. Caralho, aí, foi foda! Cheguei um dia antes pra ver esse show dos dois juntos. Era a banda do Damian Marley e o Nas participando porque eles lançaram um disco juntos. O Nas tava só se divertindo, animadão, sorriso na cara, toda hora falando que era fã do Damian Marley. Showzaço, cara. Tinha um maluco… rasta. Sabe aquele cara que vem falar uma parada no começo do [filme jamaicano] Rockers, um rasta com um cajado? Era tipo um cara assim, mas com um jogging Puma da Jamaica, o show inteiro, sem sacanagem, uma hora e dez e o cara pulando no palco, dançando com a bandeira da Jamaica [risos].

E o Jay-Z, você viu?
Jay-Z foi animal. O Eminem é que foi meio chato, cara. Mas sabe o que foi foda? Dizzee Rascal. O show dele funciona muito pra festival. Eu já tinha visto ele, cara, em Londres, num clubezinho pra quinhentas pessoas. Foi legal, mas no festival, cara, foi foda. O DJ do cara não tinha um braço! Tocava só com um braço e botava a boca no mixer. Tocava pra caralho! Era inacreditável. Tocava muito, muito! DJ foda! E era só ele, o DJ e um cara. Maior showzaço, a porrada comeu legal.

Você imaginava sucesso, shows na Europa, e tudo mais, quando fazia um som com o Planet Hemp numa garagem qualquer?
Cara, tocar em São Paulo era o máximo pra gente! [risos]. Se viesse pra São Paulo já seria foda, sabe qual é? Eu pensava: “Porra, vou tocar em São Paulo! Que maneiro, cara!” Já tava bom pra caramba. Agora, cara, já toquei em vinte e quatro países.

Viajar tanto não enche o saco depois de certo tempo?
Até 2008, a gente passava 40, 50 dias na Europa. Aí, ano passado eu falei que não queria mais fazer isso. Só ia pra Europa de novo se fosse pra passar uma semana, dez dias, no máximo, e aí volta, passa 15 dias aqui, depois volta pra Europa de novo. Não aguento mais passar 60 dias na Europa, longe da família, andando de ônibus pra lá e pra cá. Porra, é chato, tá ligado? Aí tu vai pra Londres, porra, fica aquela obrigação de ter que ir pra rua, pra passear – “Porra, tô aqui em Londres. Não vou ficar no hotel. Tem que dar um rolê!”. Chato pra caralho, entendeu? Cansativo pra caralho, caro pra caralho.

Você fez alguma preparação para cantar samba? Alguma aula de canto?
Eu tentei, cara. Vou te falar que eu fui uma única vez no professor de canto, mas não teve jeito. Achei muito chato [risos]. Falei: “Ah, meu irmão!, não vai rolar não! Deixa essa porra assim mesmo”. [risos] Foi engraçado porque todo mundo falou: “Faz uma preparação pra tua voz, cara”. E eu queria fazer o disco de uma maneira diferente, estou acostumado a chegar no estúdio sem letra, sabe? Pensei: “Esse disco vou tratar de uma outra maneira, mais profissional, vou fazer uma preparação”. Aí marquei uma hora com o cara, fui lá, e o cara: “Pô, vai no otorrino pra ver se a sua garganta não tem alguma inflamação, alguma coisa, e aí a gente já começa a trabalhar”. E fizemos uma aulinha ali mesmo. Mas, porra, achei chato pra caralho! Fui no médico e ele falou: “Não, tua garganta tá ótima!”. Falei: “Ah, quer saber? Então não precisa de porra nenhuma!”.

E aí rolou tranquilamente?
Cara, assim, os sambas que eu conhecia e sabia de cor sem precisar ficar lendo foram moles, né? Matava uma voz em meia-hora. Mas teve outras que foram mais difíceis. As músicas que têm letra muito grande demorei mais para gravar a voz. Porra, e aí tu começa a ficar irritado, não sabe se tá bom ou se tá ruim. Mas no geral, foi tranquilão, cara. O Leandro canta também, então me ajudou pra caralho, sabe qual é? “Vai aqui, essa nota tá errada, pá, vamo consertar essa nota só, tá bom”, entendeu? A gente escolheu pro disco basicamente as que eu gostei mais da minha voz. As que eu fiquei mais à vontade e tal.

Tem uma história sobre o Bezerra da Silva que conta que ele foi buscar o filho na boca. É verdade?
Tem essa parada aí, mas sei lá. O Tuca tava meio afastado dele porque tinha se envolvido com a bandidagem e o Bezerra tava puto. Aí contam que ele foi buscar o filho na boca. É uma história, que, sei lá, eu soube também. Ele foi lá, pegou o Tuca e falou: “Larga essa porra desse fuzil aí e vamos embora!”. E os cara: “Qual é, Bezerra!”. E ele: “Qual é o caralho, porra! É meu filho!”. Ele era muito respeitado em tudo quanto é favela, né. Era o embaixador das favelas. Ele botava muito a mão no meu ombro na hora de falar. Gostava de falar baixinho comigo, chegava assim e falava calmo.

Ao mesmo tempo em que ele é uma das grandes figuras da nossa música, ele nunca teve o reconhecimento que mereceu em vida. Por quê?
Sei lá, cara, o Brasil é foda nisso aí. O Bezerra teve que tocar até o fim da vida. Ele morreu com 77 anos, mas, porra, parecia que tinha uns 80 e poucos, tá ligado? Ele falava: “Tenho 75 anos de favela mesmo. E não 75 anos de asfalto, zona sul”. Ele tinha de fazer uns shows por cachê baixo, não se valorizava muito, sabe qual é? Ele tinha uma mentalidade daqueles músicos mais antigos, de que a gravadora tinha que fazer tudo. Na minha geração a gente já tava aprendendo a não esperar a gravadora fazer tudo, hoje em dia, então, molecada nem sabe o que é gravadora.

Mas você não conversava com ele, não aconselhava, já que é um cara com uma visão, digamos, mais moderna do negócio da música no Brasil?
Eu tinha um pouco de… Era assim com meu pai também. Não sei se a palavra é vergonha, cara. Mas quem sou eu pra dizer o que o Bezerra da Silva deveria ou não fazer, cara? Eu tinha a minha visão, ele a dele. Era uma questão de respeito, você não pode chegar pra um cara como ele dizendo o que você acha que ele tem de fazer. Mas uma vez eu falei: “Pô, Bezerra, para de regravar coisa, cara. Faz um disco só de inéditas”. Porque ele ficou anos regravando. Pega “Malandragem Dá um Tempo”: tem umas sete ou oito gravações, tá ligado? Então ele tem disco pra caralho, mas repetia muitas músicas. E ele: “Não, vou fazer esse aqui, ó, para reviver as músicas e tal”. O cara naquela idade também, né, cara, não tem mais pique de botar música nova e ir pra rua defender a música, sacou? Ir na rádio, ir no Faustão, não sei aonde, “olha minha música nova”. É foda. E no final ele tava um pouco impaciente com as pessoas. Acho que é aquela coisa também de que todo mundo chegava nele e: “Fala, Bezerra da Silva! Uhu! Vamos dar um teco aê!”. O cara com 75 anos, de saco cheio, já tinha virado crente. No enterro, alguém falou: “Malandro foi o Bezerra, que no fim da vida se converteu e pronto” [risos].

Como você recebeu a notícia da morte dele?
Eu tava em turnê, cara. Cheguei no Rio e fui lá no hospital, mas ele tava dormindo – e já tava bem mal. Saí de lá já sabendo que ele não ia durar muito. Lembro que eu cheguei de viagem, virado, tipo sete da manhã, e a Camila falou: “Deixaram um recado nessa madrugada, o Bezerra morreu”. Foi foda. Tomei um banho e fui pro velório. Não sei lidar muito bem com morte não, sabe? Sempre parece que é uma coisa mais egoísta nossa, tá ligado? Porra, sempre aquela coisa: “Podia ter feito aquela música com ele; por que aquele dia eu não liguei pra ele?; puta merda, devia ter falado não sei o quê pra ele”, sabe qual é? Aí, a Regina, mulher dele, falou: “Ele deixou umas coisa lá pra você. Pediu pra te dar o bongozinho dele e o chapéu”.

Você compara de alguma maneira a perda do seu pai com perda do Bezerra da Silva?
Meu pai é meu pai, né, cara. É bem diferente. A morte do Bezerra eu comparo com a morte do Skunk [com quem D2 fundou o Planet Hemp], sacou? Foram duas perdas muito grandes de dois grandes parceiros na música. Perdi aquela coisa de muita troca, sabe? De conversar, de às vezes nem falar nada, mas estar perto ouvindo. O Bezerra falava muita coisa pra mim, cara. Ele foi muito culpado nessa parada de eu me aprofundar mais no samba. Perdi um amigo de verdade, um parceiraço. Ele era aquele tipo de cara que eu tinha uma dúvida na música e ligava: “Bezerra, olha isso aqui que eu escrevi: ‘Essa onda que tu tira qual é? / Essa marra que tu tem qual é? / Tira onda com ninguém, qual é?’. Tô pensando em fazer o seguinte: ‘Tira onda com ninguém, qual é? / Qual é, neguinho? / Qual é?’. O que tu acha?” E ele: “Vai em ‘Qual é, neguinho? / Qual é?’. Todo mundo fala isso. Isso aí tá na cabeça do povo. Vai nessa”. Isso aconteceu mesmo.

Quando falam de rap nacional quase nunca citam seu nome. Você se sente excluído?
Neguinho me exclui muito, né, cara? Principalmente a imprensa de São Paulo. Falam: “O rap nacional – MV Bill, Racionais MCs…” Só que, cara, me desculpa, mas, porra, eu toquei em 24 países, tá ligado? Vendi mais disco e fiz mais show e eu faço rap também. Sou bem recebido pra caramba em São Paulo, meu maior público é em São Paulo. Apesar de alguns não gostarem, tem que me engolir, né cara? Tô há 17 anos nessa porra! É aquela coisa: pra ser rap tem que usar calça larga, ter cabelo de rapper, tem uma cartilha, tá ligado?, que se rege assim. Isso prejudica o rap pra caralho, tá ligado? As pessoas adoram e vai todo mundo ver o show do 50 Cent. Mas vê se neguinho vai no show do Emicida. Eu vou te falar, prefiro o Emicida que o 50 Cent. Alguém tinha esperança de que ia ser bom o show do 50 Cent? Lógico que ia ser uma merda.

Baixe GRÁTIS http://fb.me/BHd7cMsD 3 músicas que não entraram no CD Marcelo D2 canta Bezerra da Silva. Nas lojas em setembro!

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“Bem melhor que você, é estar bem comigo. É ter muitos amigos é cantar, é sorrir. É viver a vida, é curtir cada minuto e segundo”

A carreira solo de Marcelo Maldonado Peixoto está entre as mais bem sucedidas do país. Depois de cinco discos azeitando a mistura de rap com samba, ele se entrega de corpo, alma e voz ao mais brasileiro dos ritmos, homenageando um de seus mestres, Bezerra da Silva, em um disco só de sambas de verdade – sem rimas, scracthes, samples ou batidas eletrônicas. Criticado por grande parte da cena hiphop, se diz excluído pela imprensa de São Paulo, cidade que concentra seu maior número de fãs. Marcelo D2 não é Zagalo, mas sentencia: “Eles têm de me engolir!”, correndo à margem das críticas e deslizando suave pelo caminho do sucesso que escolheu lá atrás, antes de fazer parte do hoje quase lendário Planet Hemp, “uma banda tensa”, segundo o seu mais famoso integrante. É um D2 tranquilo, alguns casamentos nas costas, quatro filhos e 42 anos, que abre a porta do quarto de hotel, no bairro paulistano dos Jardins, pausando o videogame. Cervejas depois, ele está à vontade para falar de drogas, Bezerra da Silva, a volta do Planet Hemp, as diferenças entre rap e samba, a confusão com os Racionais, as eleições e os sonhos que ainda pretende realizar.

Você já realizou seus sonhos?
Meus sonhos de quê?

Aqueles que você tinha antes de fazer sucesso.
Os sonhos que eu tinha, sim. Mas eu tenho outros, né, cara? Eu sou um sonhador fodido. Sonho acordado direto, sabe qual é? Minha vida é um sonho legal mesmo… Sei lá, cara, meus sonhos são outros agora. O que era pra mim antigamente, hoje eu sonho mais pros meus filhos, tá ligado? Agora em fevereiro, por exemplo, vou com a família toda pra Los Angeles, pra morar uns dois anos lá. Vai eu, minha mulher, nossos dois filhos, o Luca e a Maria Joana, e o meu filho mais velho, o Stephan. Lógico, eu tô indo pra fazer um disco de rap lá, cantar com os caras de lá, mas, porra, tô indo mais por eles, sabe qual é? Pra eles estudarem inglês. O Stephan tá começando a fazer som, tem banda e tal, vai estudar engenharia de som, tá ligado?

Ele está com quantos anos?
18.

E as conversas sobre drogas já rolaram?
Já, cara, mas o Stephan é sossegado.

Ele fuma erva?
Maconha ele fuma, cara. Tá com 18 anos, não dá nem pra proibir mais. E quer saber, cara? Não tenho muita preocupação com isso, não. O Stephan é um moleque muito com a cabeça no lugar, tranquilão pra caralho. Só não gosta de estudar, mas isso é normal. Ele repetiu o ano passado.

E álcool ou cocaína?
Eu falo pra ele: “Se quiser experimentar, cara, é comigo. Cuidado aí! Vai cheirar não sabe o quê, pó vagabundo, essas coisas”. Mas é o tipo de coisa, cara, o moleque tem 18 anos, tem a galera dele, não é uma coisa muito que o pai… Só fico ali do lado, vendo o que tá acontecendo, com quem que ele tá andando. O Stephan é mesmo muito sossegado, tipo: “Tá tranquilo, pai. Você acha que eu vou cheirar essa merda?”

Você já foi o usuário de maconha mais notório do país. Como lidar com isso perante os seus filhos?
Primeiro que meus filhos mais novos nem sabem disso, né, cara? Não pegaram essa época.

Quantos anos eles têm?
A Lourdes tem 11 anos; o Luca, 9; e a Maria Joana, 5. Eu não sou o tipo de pai que proíbo as paradas, sacou? Com os mais novos é lógico que imponho coisas, limites. Mas com o Stephan eu não vou proibir nada. Sento com ele e converso. Este ano falei: “Ó, tu repetiu, era pra ter terminado o ano passado e tu repetiu. Não vou ficar pagando R$ 30 mil, R$ 20 mil de escola por ano pra tu repetir, tá ligado? Agora, acaba essa porra! Vai pra uma escola mais barata, um supletivo, de dia, acaba essa porra logo, meu irmão, e aí vê o que tu quer fazer da tua vida. Quer ser músico? Então
vamos investir nisso”.

Como surgiu a ideia do disco em homenagem ao Bezerra da Silva, com sambas que ele gravou?
Quando ele morreu, cheguei no velório e o Zeca [Pagodinho] tava lá, sentado com a cervejinha aberta. O caixão ali, o Zeca sentado perto, lá no [teatro] Carlos Gomes. Eu cheguei sozinho, às 10 da manhã, com o olho cheio de lágrima, e o Zeca: “Ô, D2! Ta chorando? Tá maluco, rapaz? Em enterro de sambista a gente não chora, não! Em enterro de sambista a gente comemora! Senta aí e pega um copo, parceiro!” Peguei um copo e começamos a beber. Porra, aí chegou o Dicró contando história: “Esse é um 171 mesmo! Morreu em 17 de janeiro, 17 do 1!” [risos] Aí chega não sei quem, chega outro, e mais outro, e daqui a pouco tava a maior galera, a gente conversando, contando história do Bezerra. A gente chorava de rir. E no velório mesmo veio esse papo, tá ligado? “A gente tinha que fazer uma coisa pro Bezerra”, não lembro exatamente quem falou. “Porra, o Marcelo é quem tinha que fazer o disco. Todo mundo já gravou pra caralho com o Bezerra, todo mundo conhece o Bezerra há muito tempo. Marcelo era o amigo mais novo dele. Tu tinha que fazer o disco!” Saí de lá, cara, sem sacanagem, às 7 da noite, bêbado, exausto. Fui pra casa, dormi e sonhei com ele pra caralho. Sonheique a gente tava no palco.

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Celebridade do Século 21

Um dia ele já foi contra a ordem do dia. Não tinha carro, cultivava uma vasta e encrespada cabeleira e morava de aluguel na Lapa. Hoje aos 37 anos , pai de quatro filhos, Marcelo Peixoto conseguiu reverter a situação. Em 1996, Marcelo pertencia ao raivoso e contestador Planet Hemp, misturava rock, hip hop, funk, com toda a liberdade de expressão que tinha direito. Em 2005, é o Mc que faz rap com samba e desfruta das glórias do seu disco À Procura da Batida Perfeita, que já vendeu muito mais de 150 mil cópias. O Marcelo D2 do século 21 é um cara “repaginado”. Deixou de encarar o antiestablishment e assumiu seu lado celebridade e foi para a ribalta da mídia.

O que você diria pra quem te chama de vendido?

Tira o olho do meu dinheiro e corre atrás do seu. Eu sei onde meu calo dói. Se eu não for na Daslu ou no Big Brother quero ver quem vai pagar minhas contas.

Mas, nos tempos do Planet..

Nós éramos radicais pra caramba. Não iríamos no Faustão nem fudendo!

O que te fez mudar?

Eu não mudei, o que mudou foi o som. As letras do Planet Hemp eram uma coisa densa e de certa maneira não queria ir ao Faustão para ficar falando aquelas coisas tão pesadas. Com o À Procura, resolvi botar minha cara a tapa e ir ao Faustão, Luciano Huck, Jô Soares. Resolvi usar a máquina a favor da causa. Não só a causa contra a máquina.

E como a reação da gravadora [sony]?

Os caras só viram cifrão voando pra tudo quanto é lado. Meu objetivos são fazer música bem feita e entrar no mercado. Tenho 37 anos. Não quero morrer igual ao Bezerra da Silva, durango, fudido, tendo que fazer show até os 77 anos para sustentar a família.

Você não tem medo de ficar indo à Daslu e perder o público do hip hop, do skate?

Não. Eu não ando na Daslu, só entrei lá uma vez pra tocar. Como tem um garçom que trabalha na Daslu e a Daslu paga o que acha que tem que pagar pra ele. Isso não me torna uma playboy. Sou safo, sei comer lagosta como também sei comer ovo frito (risos).

Você não acha que perdeu a mão na matéria da Vogue RG (“D2 assume seu lado celebridade”)? Você está lá vendendo celular e marcas de roupas…

Não. Quando fui ao Faustão a primeira vez, entrou uma banda de axé depois de mim e eu saí falando “Pqp, onde tô me metendo?”. Aí eu pensei: “Eu já estou aqui e agora vou jogar mesmo. Vou pegar o Motorola e fazer propaganda, vou fazer propaganda de carro, de cerveja”. Mas é lógico que vou tomar cuidado, não quero que minha superexposição prejudique minha música.

Você apareceu na final do Big Brother e cantou [Pilotando o bonde da excursão.. do À procura] uma música que faz referência a maconha. Como você vê isso?

Eu não modifiquei minhas letras. Mudei minha maneira de falar com a imprensa. Não apareço mais no fantástico e fumo maconha na frente da câmera pra chocar. Pelo contrário. Você tem que saber jogar o jogo, o jogo não é só você, tem outros jogadores.

Quando começou a entrar uma grana boa?

Depois que eu ganhei meus primeiros R$ 50 com música, em 1995. Já estava bem satisfeito (risos). Comprei tudo em pó, cerveja, fui pro hotel com a mina, cheirei a porra toda e me acabei.

Você é um cara consumista?

Eu sou um cara consumista, mas não é banal. Não jogo dinheiro fora. Gosto de comprar tênis. Adoro tênis. Acho uma parada foda, não sei se é um trauma de infância (risos). devo ter uns 300 pares, sendo que uns 50 eu nunca usei. Mas não tenho aquele sonho de ter um iate, um apartamento em NY. Eu tenho ambições.

E o lance dos outros rappers falarem que você não é do hip hop de verdade?

Nunca me envolvi com o hip hop porque nunca consegui seguir uma cartilha. E se ser do movimento é seguir uma cartilha eu realmente não sou. Agora, o que faço é rap. E o que neguinho tem que baixar a cabeça e bater palma é que estou levando o rap para outro nível. Sou fã pra caralho de Racionais, mas eu não vou fazer igual a eles. Para onde o rap vai se ficar todo mundo imitando os Racionais? Desde “Sobrevivendo no Inferno”, o rap ficou num lugar-comum. Todo mundo queria fazer o próximo “Sobrevivendo no Inferno” mas ninguém nunca vai fazer porque aquele momento ali dos caras foi mágico.

Qual o papel da maconha na sua vida?

Diversão e só. Eu fumo pra ficar chapado. Não tem uma parada filosófica.

Você chegou onde queria chegar?

Musicalmente estou bem satisfeito, mas sou um cara um pouco inquieto com isso. As pessoas falam “Puta, o disco À Procura da Batida Perfeita e tal”, mas sei que não é nada perto do que eu poderia ter feito. E, se for falar de grana, tenho muito mais do que precisava. Não é luxo. É o que todas as pessoas deveriam ter: uma boa comida na mesa, um carrinho, uma casa. Eu tenho até mais do que um carrinho, mas o básico deveria ser acesso a todos.

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Memórias Enfumaçadas

Memórias enfumaçadas da turnê do Planet Hemp em Santa Catarina: baladas, gatas e ressacas sem fim.

“Gosto de te ver ao sol, leoãozinho / De te ver entrar no mar / Tua pele, tua luz, tua juba / Rrrrrrrrrhhhhhhr” (disco riscado) Pára, Pára. Enlouqueceu Zé? reclama D2.

Adivinha doutor quem está de volta na praça? Planet Hemp Ex-quadrilha da fumaça!”

Uma multidão de mais de 2 mil usuários da cannabis sativa se espreme na frente do enfumaçado palco. O sumo-sacerdote Marcelo D2, entrando em cena ladeado pelos cardeais Bnegão e Black Alien, deixa em transe a moçada surfer de Floripa.

“Hermanos e irmãos represento todos aquele chapados no chão.
E disso entendo bem…Prensadinho ou solto.
Manga rosa, cabrobró e racha coco.
Eu não quero saber de mais nada. Só quero saber: Quem tem seda?”

É o início da turnê nacional do Planet Hemp. A pegada da banda lembra uma divisão panzer, não há nada comparável no cenário rock hip hop brazuca. O Planet representa a discriminação de tudo que está entalado na garganta.

Na Lupus de Florianópolis o show começa a rolar e a molecada canta em transe todos os hinos da banda, a galera delira com o scratches de Zé Gonçales. A cartase é coletiva. A glória! Mas, depois de duas horas de muita adrenalina e alegria é chegada a hora de terminar.

Uma massa de fãs, puxa-sacos, catarinas e jornalistas segue para a porta do camarim pedindo liberação para entrada – muitos trazem oferendas vegetais à banda. O tiel faz-tudo e segurança Anjinho passa o pente-fino e despacha a microbiagem e outros insetos. As meninas entram e já começa o encoxa-encoxa, os planetários casados se viram como pode.

Exaurida de tanta badalação a família hemp segue rumo ao hotel  prensada em duas vans. A van com D2, Zé Gonzales e Lobatto seguiram rumo ao hotel. A turma da fuzarca, roadies, Bnegão, Black Alien e outros integrantes resolveram parar num bordel fim-de-linha da Ilha.

Depois de um show coalhado de gente, ficamos descansando num hotel em Imbituba. O pico era um engradado de madeira. Alguns integrantes jogam futebol no videogame, já Gonzales e Rafael preferem mofar no quarto.  O bando todo curte uma ressaquice crônica da enigmática noitada anterior. A rapaziada segue para Lages.

“Imbituba, 06:30, no ônibus a galera se prepara para seguir 6 horas de viagem para o destino final da turnê.”


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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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