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“Ela alegra, ela inspira, ela acalma…”

Cannabis Cup – Amesterdã

Registramos pela primeira vez a fumantina exacerbada da Copa Anual da Cannabis – a popular Cannabis Cup -, na paradisíaca Amsterdã, Holanda. Recordo-me de que a comitiva brazuca era encabeçada pela esquadrilha da fumaça Marcelo D2 e Zé Gonzales, do Planet Hemp, o fotógrafo Vavá Ribeiro e meu amigo Xiko. Uma viagem antológica. Evento promovido pela revista norte-americana especializada em cânhamo High Times.

Amsterdã é a Disneylândia dos malucos. A meca da lúxuria, do prazer e das drogas leves. A beleza da cidade, com seus canais, casario antigo, museus e sex shops, ao lado da camaradagem do povo holandês, permite a qualquer ser humano viver com dignidade.

FUMANDO FEITO TURCO-OTOMANO
Importantes nomes egressos do movimento maconhífero de todo o mundo acompanhavam seminários num ambiente de fumaça sem limites, assim como um grupo de ativistas feministas a favor da descriminação da erva, que fazia parte do júri especial. O primeiro dia foi suportável por duas horas. Não é por nada não – mas foi um trabalho de Hércules acompanhar aquele bando de malucos-belezas fumando feito turco-otomano, falando manso sobre os efeitos benéficos da cannabis à saúde e pregando que o mundo seria outro com a utilização em massa do hemp em nosso dia-a-dia.

Tateando o terreno

Os dois primeiros dias foram de pura excitação. Subíamos e descíamos a escada em sintonia com tudo que ocorria. Conhecemos e fizemos intercâmbios com gente de todos os cantos do mundo, trocando impressões e colhendo dados sobre todas as utilidades possíveis do hemp. O clima de paz e amor harmonizava as relações: velhinhos holandeses colhiam informações com experientes freaks americanos e a todo momento me defrontava com dezenas de clones Jerry Garcia, o guru do Grareful Dead, já falecido.

No transcorrer do evento diversas mesas redondas, palestras e seminários. Ativistas, estudiosos e celebridades do meio falaram sobre vários assuntos: maconha na indústria têxtil, na culinária, na arte psicodélica, na religião: seu uso legal e ilegal, plantio, cultivo…Um fog de fumaça – autêntico smog – envolvia o ambiente por completo. Havíamos retornado aos anos 60/70 e não existia Lei Seca.  O fumo rolava forte por todos os cantos.

No Pax Party Park, um prédio de três andares, acontecia também na paralela, a Hemp Expo, de shampoo a lingerie, todos os produtos que estiveram à disposição do público tinham algo em comum: eram derivados da hemp. Pessoas extremamente lúcidas e ecologicamente corretas, explicavam e vendiam algumas das mais de 25 mil unidades da planta da cannabis em benefício da espécie humana. Da semente às flores, tudo é aproveitado e reciclado. O nível de THC da hemp industrial é quase nulo.

Ficamos em Amesterdã por mais quatro dias, instalados no hoel Kabul. Dentro do avião levantando vôo, olhei pela janela e observei que, por todo o trajeto, estufas gigantescas iluminavam o interior da Holanda – o hemp é a sexta maior produção agrícola do país, com 25 toneladas anuais. Quals erá o conteúdo dessas estufas? Inocentes tulipas? Até a próxima Cannabis Cup.

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Memórias Enfumaçadas

Memórias enfumaçadas da turnê do Planet Hemp em Santa Catarina: baladas, gatas e ressacas sem fim.

“Gosto de te ver ao sol, leoãozinho / De te ver entrar no mar / Tua pele, tua luz, tua juba / Rrrrrrrrrhhhhhhr” (disco riscado) Pára, Pára. Enlouqueceu Zé? reclama D2.

Adivinha doutor quem está de volta na praça? Planet Hemp Ex-quadrilha da fumaça!”

Uma multidão de mais de 2 mil usuários da cannabis sativa se espreme na frente do enfumaçado palco. O sumo-sacerdote Marcelo D2, entrando em cena ladeado pelos cardeais Bnegão e Black Alien, deixa em transe a moçada surfer de Floripa.

“Hermanos e irmãos represento todos aquele chapados no chão.
E disso entendo bem…Prensadinho ou solto.
Manga rosa, cabrobró e racha coco.
Eu não quero saber de mais nada. Só quero saber: Quem tem seda?”

É o início da turnê nacional do Planet Hemp. A pegada da banda lembra uma divisão panzer, não há nada comparável no cenário rock hip hop brazuca. O Planet representa a discriminação de tudo que está entalado na garganta.

Na Lupus de Florianópolis o show começa a rolar e a molecada canta em transe todos os hinos da banda, a galera delira com o scratches de Zé Gonçales. A cartase é coletiva. A glória! Mas, depois de duas horas de muita adrenalina e alegria é chegada a hora de terminar.

Uma massa de fãs, puxa-sacos, catarinas e jornalistas segue para a porta do camarim pedindo liberação para entrada – muitos trazem oferendas vegetais à banda. O tiel faz-tudo e segurança Anjinho passa o pente-fino e despacha a microbiagem e outros insetos. As meninas entram e já começa o encoxa-encoxa, os planetários casados se viram como pode.

Exaurida de tanta badalação a família hemp segue rumo ao hotel  prensada em duas vans. A van com D2, Zé Gonzales e Lobatto seguiram rumo ao hotel. A turma da fuzarca, roadies, Bnegão, Black Alien e outros integrantes resolveram parar num bordel fim-de-linha da Ilha.

Depois de um show coalhado de gente, ficamos descansando num hotel em Imbituba. O pico era um engradado de madeira. Alguns integrantes jogam futebol no videogame, já Gonzales e Rafael preferem mofar no quarto.  O bando todo curte uma ressaquice crônica da enigmática noitada anterior. A rapaziada segue para Lages.

“Imbituba, 06:30, no ônibus a galera se prepara para seguir 6 horas de viagem para o destino final da turnê.”


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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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O sagaz homem fumaça

“Na cadeia, pra te falar a real, a gente dava é risada.” Com essa frase o rapper Marcelo D2 colocou abaixo aquilo que a  imaginava ser a causa de sua pior noite: a prisão. Normal imaginar isso, mas talvez não para o Planet Hemp em 1997. Foi nesse ano que a banda foi parar atrás das grades após um show em Brasília, acusada de fazer apologia às drogas. Foram oito dias presos a espera de que algum habeas corpus pudesse livrá-los. “Ano passado fez dez anos de prisão. Caralho, devia ter feito uma festa, né? Uma festa de dez anos da prisão do Planet Hemp”, lembrou D2 às gargalhadas.

E realmente não faltam motivos para o rapper não classificar as noites de cadeia como as piores de sua vida. Alguns meses depois de ser solto ele perdeu seu principal parceiro: o pai. “Na cadeia tinha jeito, sabe qual é? Com o coroa não”, disse. “Foi aquela noite que eu pensava: agora fodeu. Não conseguia pregar o olho, acho que fiquei três dias acordado.”
E mais, para tornar ainda menos traumática a passagem pela cadeia, a repercussão do episódio fez os cofres da banda ficar ao melhor estilo Tio Patinhas. “Quando eu saí tomei um susto, comprei uma casa logo na seqüência. Se tu passa oito dias na cadeia e compra uma casa é um puta negócio”, ria D2.

Mas e as suas melhores noites, Marcelo? “Geralmente a melhor noite tem sexo no meio. Não vou falar, senão isso vai dar merda pra mim.” Compreensível.

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Usuário

“Não compre, plante!” é o singelo título da primeira música do álbum UsuárioPlanet Hemp. Figura mítica dos anos 90, que pariu Bacalhau (hoje no Autoramas), B Negão (hoje no B Negão & Os Seletores de Frequência e Turbo Trio) e Marcelo D2, que segue segurando seu próprio nome. Também faziam parte da banda Skunk, que morreu em decorrência da AIDS, Formigão e Rafael.

Não lembro ao certo, mas foi por volta de 1996/1997 que a banda veio a Natal pela primeira vez. Não existia nem de longe o sonho dos dois festivais que hoje a cidade abriga. Os shows eram feitos na raça mesmo, o underground era underground mesmo. A casa dos shows menores já era a Ribeira, só que sem estrutura. O show aconteceu no Casarão. O nome alusivo a beleza da fachada dos prédios históricos do bairro, e só. Caindo aos pedaços, com dois ventiladores de teto bem próximo as cabeças, banheiros com portas imprestáveis e paredes esburacadas. A banda tinha que passar no meio do público antes de chegar ao palco. Se é que aquele tablado com 50 centímetros de altura pode ser chamado de palco. Atrás de Bacalhau uma luz que fazia o baterista suar que nem uma chaleira.

Antes do show começar, fui com meu amigo Renato tomar uma cerveja em um carrinho de cachorro-quente. Ao sentar observamos duas figuras ao nosso lado em outra mesa. Bacalhau e Formigão. Na maior paz tomavam sua cerveja em meio ao anonimato. Internet eram as revistas e a MTV. Que naquela época tinha uma programação supimpa. Folheando o encarte do álbum enfumaçado, vejo Bacalhau ainda com cabelos vestindo uma camisa da Vision Street Wear, marca que vestia muitas bandas, inclusive a Resist Control que fora um clipe na MTV e participação numa coletânea, nunca mais ouvi falar.

No meio do show Marcelo D2 acende o baseado e convoca o público. O tablado era resistente, porque a banda sumiu em meio a tanta gente que queria fumar. Pra mão de D2 ela não voltou. Mas tudo bem, ele já devia estar com a cabeça feita. O show, como de se esperar, foi curto. Tocaram o disco e tchau. Mas o estrago estava feito. E antes do show começar. Sentados a mesa bebendo a cerveja vislumbramos a polícia dando uma dura numa turma que tinha acabado de chegar por uma das ruas adjacentes. Todo mundo na parede, braços e pernas abertas. O famoso baculejo.

O caminho que a banda trilhou é o mesmo que centenas de outras. Mas poucas chegam ao estágio de ganhar dinheiro e viver da música. Diversão é garantida, já dinheiro e fama… É engraçado conversar com pessoas que vivem outra realidade, consomem outra música, elas não entendem como uma banda pode pagar pra tocar, viajar sem ter onde ficar, gravar discos que serão distribuídos e não vendidos. A banda fez esse caminho e pouco tempo depois chegou as manchetes. Culpa da apologia ao consumo de drogas. Shows foram cancelados e eles chegaram a ser presos. O grupo aos poucos foi se desvencilhando da fumaça, mesmo sem nunca tê-la abandonado, culminando com o fim, mesmo que não tenha sido anunciado oficialmente. Há rumores de volta. Rumores.

Enquanto isso Bacalhau toca bateria mundo afora com o Autoramas, B Negão faz seu baile funk com Os Seletores de FrequênciaTurbo Trio. E o Marcelo D2 procura a batida perfeita. Nada que Jorge Ben já não tenha achado, na década de 70.  Ainda gravaram Os Cães Ladram, Mas a  Caravana Não PáraA Invasão do Sagaz Homem Fumaça e o MTV Ao Vivo Planet Hemp. Mas nenhum tem a importância do primeiro. Podem até ter vendido mais e tornado a banda mais popular, mas o primeiro é o mais incisivo nos temas e no som.

Hugo Morais: http://www.oinimigo.com/blog/?p=4415

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Que Droga é Essa?

A revisão da política sobre drogas é um dos paradigmas de nossa sociedade. Trata-se de assunto de extrema importância, de interesse direto das novas gerações. O posicionamento utópico do legalize, sem dados e informações, banaliza a discussão e joga todos os defensores de uma reforma na vala comum dos sonhos impossíveis de atingir.

O Planet Hemp surgiu com muita coragem de erguer a bandeira da regulação das drogas no país, para combater o modelo falido que só enriquece policiais corruptos e os chefes dos grandes cartéis de drogas no mundo. O Planet Hemp avançou bastante na discussão econômica do problema.

“Então por favor, não me trate como um marginal. Se o papo for por ai, já começamos mal. Quer me prender só porque eu fumo Cannabis sativa. Na cabeça ativa, na cabeça ativa. E isso te incomoda?”

O comércio lícito e regulado atingiria em cheio a cadeia de produção/distribuição e geraria muito dinheiro em impostos, que poderia ser investido em campanhas educativas e outras políticas públicas prioritárias ao país. A proibição absoluta não é a melhor maneira de lidar com isso. As pessoas consomem de qualquer maneira e até certo ponto devem ter o direito de utilizar.

Em 1995 as rádios de todo o Brasil começaram a brandar que “uma erva natural não pode te prejudicar.” O refrão de Legalize Já faixa de trabalho de um disco chamado Usuário, de uma banda cujo nome significava Planeta Maconha, em inglês. Onde havia fumaça, havia uma popularidade que crescia a cada tragada. Mais de 100 mil pessoas compraram o disco de estréia do Planet Hemp. Os Cães Ladram Mais a Caravana não Pára chegou em julho de 1997 e rapidamente ultrapassou as expectativas. No final de setembro o grupo comemorava 200 mil cópias vendidas.
A situação impunha medidas enérgicas e imediatas. Os shows do Planet Hemp passaram a ser “protegidos” por um policiamento ostensivo. O disco A Invasão do Sagaz Homem Fumaça exalava ironia, como na música Contexto:

“Tem gente que tá dizendo que o Planet Hemp faz apologia as drogas.

É mentira tchu tchu. É mentira”

Há em nossa espécie um desejo profundo em colocar a consciência para funcionar sob novos parâmetros. Pouco importa se, pessoalmente, gostamos ou não de drogas. Mas é preciso, em nome da sanidade pública, entender que quem as usa não é simplesmente criminoso, doente, covarde ou corajoso – é, antes de tudo, humano.

O veto à maconha veio, nos EUA, na primeira década do século passado por força de lobistas interessados em destruir a indústria de fibras de cânhamo e apoiado por políticos racistas a fim de encarcerar mais negros (praticamente o único grupo a fumar maconha naqueles tempos).

Descriminalizar o uso não é o suficiente. Se o objetivo é reduzir a violência e tirar o poder dos cartéis, o Estado precisa regular e aceitar alguma alternativa para a produção e a compra legal dessas drogas. Sem isso, o jogo não muda.

Existe cerca de 166 milhões de usuários de maconha no mundo, algo em torno de 4% da população mundial adulta. Todo o restante de drogas ilegais é utilizado por 1% dos adultos da Terra, algo em torno de 34 milhões de pessoas. Se a maconha e, apenas ela, fosse retirada da lista das substâncias caçadas pela polícia, todo o orçamento trilionário da guerra às drogas cairia por terra.

“Grandes cidades acostumadas a conviver com a miséria, mas nunca com a maldade. Corrupção, ganância, violência, impunidade, banalização da cultura a tal falta de liberdade. Abandono da população do mundo inteiro pelas autoridades, manutenção do analfabetismo e do desemprego, desigualdade.” O Sagaz Homem Fumaça.

Seguiremos nos entorpecendo para celebrar, para consolar, para pensar menos ou mais. E, sobretudo, para ver as coisas de uma forma diferente.

Amor, saudade…os temas cantados hoje por Marcelo D2 são mais emotivos do que sensoriais. O tema maconha tem cada vez menos destaque nos seus trabalhos solos. Mas, é assim mesmo, tem quem aperte, mas não acenda; quem fume, mas não trague e quem simplesmente esquece.
“Sou muito mais da cerveja do que do baseado. O Flamengo ganhou? Vou tomar uma. Perdeu? Também vou. Mas, no estúdio costumo fumar bastante, ela me dá criatividade.”

A droga ainda é um dos prazeres de D2. “Meu estilo de vida é esse: fumar um, tomar uma cerveja.” D2 transmite ar de serenidade de quem se realizou na vida: vivendo de sua arte, casado e pai de família.

“Um sagaz homem fumaça
Ontem hoje e sempre.
Legitimo sangue azul do clã
Planet Hempa.”


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“Peace, Unity, Love and Having Fun”

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