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“Nasce da alma, sem pele, sem cor”

Marcelo Peixoto sabe que caminhou pela contramão durante boa parte dos seus 41 anos.
E tem a certeza de que as suas muitas confusões com a Justiça, passagens pela polícia, prisão, ameaças de morte e brigas não lhe renderam nada mais que uma dezena de cicatrizes pelo corpo.

Como um mutante

Em relação às tatuagens, o rapper mal sabe quantas ostenta ao longo dos seus 1,70 m de altura. Tem o escudo do Flamengo, uma cruz sobre o escrito Zona Norte e o nome dos seus quatro filhos cravados em diferentes regiões do corpo. Luca, 7, está grafado em seus dedos da mão esquerda; a caçula Maria Joana, 4, mereceu uma grande intervenção acima do peitoral, assim como Stephan, 17.

“FUMO MACONHA TODOS OS DIAS. E NUNCA VOU
DEIXAR DE FUMAR, NEM DE ESCREVER SOBRE ISSO”

Viva a polêmica

D2 está recostado numa cadeira reclinável, numa sala nos fundos do número 626 da Rua Dias Ferreira, no Leblon. É lá que funciona o QG da Na Moral produções, agência do empresário Marcelo Lobatto, que cuida da sua carreira desde os tem pós do Planet Hemp, há 15 anos. “Tô muito ruim, cara. Carranca pesada de ‘quero ir embora agora!’. Esse negócio de tirar foto… Tu não sabe onde pôr a mão, o vira-lata da esquina fica latindo e enchendo o teu saco. Esse dia tava foda”, resmunga, enquanto observa as imagens de uma sessão realizada para o seu quarto álbum solo, A arte do barulho, produzido por Mario Caldato e lançado na última semana. Pede opinião, troca idéia, marca o número dos melhores cliques no papel e em frases como “Esse sorrisão fake táfoda”, “essa aqui tá natural”, “os azulejos atrás dão uma onda, hein?”. D2 é um sujeito muito ligado à imagem, “tipão” marrento que construiu à base de uma persona trangressora, impulsiva, mordaz.

Desabafo social

É o tal estilo de vida “na boa” que ajuda Marcelo D2 a focar em questões fundamentais para ele. A “falta de possibilidade” é a expressão da vez que pende de seu arsenal verborrágico. Juntam-se a ela sentenças que miram a exclusão e segregação de tipos sociais em guetos, além da retração em participarmos mais da vida uns dos outros. São as angústias que calam no peito, escorregam no lápis e explodem navoz do rapper. A bordo do single Desabafo  que recupera o refrão do samba Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro), gravado pela cantora Cláudia, em 1973  D2 reverbera seus questionamentos via estéreo 5.1. “As pessoas não têm a oportunidade de levar adiante um sentimento tão básico e nobre como o querer. Isso dá nó na garganta, porque vejo a molecada estudando em escola pública, onde os professores entram em greve e o tráfico esconde armas no pátio.” Apenas quando escreve sente-se efetivamente participativo.

A VERBORRAGIA DO RAPPER VAI PARAR NO CINEMA  LEMBRANDO DE UM VELHO AMIGO

Em parceria com o diretor Johnny Araújo, D2 elabora o roteiro para um longa-metragem. O filme, em parte autobiográfico, conta a história de dois amigos, ou seja, D2 e seu parceiro de noitadas na Lapa e de Planet Hemp, Skunk.”Foi um anjo que apareceu na minha vida. Colocou o sonho dele nas minhas mãos e partiu dessa para uma melhor.” A amizade durou três anos. Era muito forte e contraditória. “Eu era de classe média baixa, família branca, da Zona Norte e ligada ao candomblé e umbanda. Ele era da classe média alta, família negra, da Zona Sul e católica.” A partir dessas contradições, Marcelo D2 conta a história “de dois caras que buscam seu caminho de afirmação através da música.” Marcelo,  em casa, com dois dos quatro filhos, Luca e Maria Joana: pai presente.

De bar em bar

D2 tem um roteiro de chopp que  segue religiosamente: “bebo todos os dias” O caminho começa no Leblon. no Jobi, no azeitona ou no bracarense. O rolé boêmio do flamenguista criado entre os bairros do Andaraí, Catete e Glória também se estende aos pagodes da Zona Norte, como o da tia Doca, em Oswaldo Cruz, e no morro da Serrinha, que abriga a escola de samba Império Serrano, em Madureira.  O rapper, diz sentir-se em casa mesmo no bar do serafim, em Laranjeiras.

“Chego aqui a qualquer hora do dia e não preciso combinar com ninguém. o Juca (Ferreira, dono do boteco) aparece, a gente troca uma idéia e as vezes ele me dá aquela moral… não deixa eu pagar a conta.”

O MANIFESTO

“É PRECISO ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA”

O texto “serve para que as pessoas não se deixem acomodar. Caiu, levantou. Chega de viver o sonho dos outros. Tem que fazer acontecer.” Quando sinto o impulso escrevo sem pensar Tudo que meu inconsciente me grita Penso depois, não só para corrigir, Como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história…

Deixar de viver os sonhos dos outros…

Queremos cumprir nossa missão que é fazer Algo de verdade que venha do coração Nós temos a coragem do Afrosamba, De Vinicius de Moraes e Baden Powell…

A visão de Tom Jobim, Nós queremos modernizar o passado, como Chico Science falou Nós declaramos que não somos só um número E queremos escrever o nosso nome Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade A possibilidade de fazer e de participar…

Fácil de entender

A preocupação de falar as coisas na lata, para que todos possam entender o seu discurso é uma tônica no trabalho do rapper. Nada a ver com o rap “sisudo e pseudo intelectual que gosta de usar palavras rebuscadas, como a simbiose da puta que o pariu”. Bastam alguns tiros para entender que o universo dos DJs, grafiteiros e MCs é o que melhor define a atual geração jovem e o mundo globalizado em que vivemos. “Musicalmente, é o estilo que abriga todos. Você pode tacar rock, música africana e samba, como fiz agora, que vai dar caldo com o rap. É a coisa mais livre que existe.” Mas tem sempre uma galera que tenta restringir. “É que nem botar tapa-olho em focinho de cavalo”, advoga. E continua falando do aspecto globalizado da parada: “Na Praça Vermelha, em Moscou; na Palestina e até na China você encontra um cara como eu, de boné para o lado, bermudão e tênis old school.”

“QUANDO ESCUTAM A MINHA MÚSICA, AÍ, SIM, MEU IRMÃO, CUMPRO O MEU PAPEL”

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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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Baseado em Fatos Reais

Madrugada adentro, jogava um bilharzinho na av. Mem de Sá, no coração da Lapa carioca. Prédios centenários, travestis, prostitutas, bandidagem e rapaziada compunham o ambiente do histórico pedaço. O local foi berço de uma das mais fascinantes figuras da mitológica malandragem carioca, o Madame Satã. Meu guia nesta aventura pelas quebradas do Rio de Janeiro é o polêmico vocalista da banda Planet Hemp, o destemido Marcelo D2.
D2 teria como missão mostrar  os locais da cidade maravilhosa que considera os picos mais importantes e que frequenta habitualmente.

No momento em que põe os pés nas ruas, Marcelo é requisitado a todos os instantes para dar autógrafos, cumprimentar os fãs, conversar com os motoristas de táxi. Caminhando ao seu lado é impossível ficar no anonimato.  “Eh, mermão, maconheiro também é gente”, diz D2, caminhando pela cidade.

Depois do Planet Hemp ter lançado o míssil sonoro “Os cães ladram mas a caravana não pára”, que já vendeu mais de 300 mil discos, D2 volta à cena com o maravilhoso trabalho solo: “Eu tiro é onda”. Um lançamento que, pra início de conversa, vem desmistificar esta história de que o seu trabalho é modismo ou coisa passageira. Sem sombra de dúvidas, é disparado o melhor disco do ano em território tupiniquim. As doze faixas são um híbrido de hip hop com samba do crioulo doido e causará um abalo sísmico na mesmice e pasmaceira que impera no pouco criativo cenário da MPB (blergh). Baseado em fatos reais, vamos acompanhar sua saga pelo Rio de Janeiro.

Na tranquila e simpática rua Mário Portela, em Laranjeiras, está a casa, estúdio e laboratório alquímico de D2. A princípio,conseguimos algo que nem a Sharon Stone lograria, isto é, acordar Marcelo às 10 horas da manhã. Normalmente, D2 levanta-se de seu sarcófago entre quatro e seis horas da tarde. Completamente chapado de sono, D2 foi para o banho. Nesse ínterim começamos a xeretar e vasculhar todos os recônditos do seu lar.

Acreditem se quiser, a casa prima pela limpeza e conforto. Tudo se encontra muito bem organizado, a começar pela geladeira, totalmente recheada de produtos. Ele possui na sua coleção de CDs mais de 500 títulos com o melhor do hip hop, rap, samba, funk e jazz do planeta. Marcelo é fã de música negra. Na cabeceira de sua cama um livro de autoria do lama tibetano Chagdu Rimpoche faz parceria com dezenas de revistas de mulher pelada e de skate. A organização da casa fica aos cuidados de Sandra, que dá um trato total no ambiente e faz a comidinha caseira.

Quando íamos saindo para pegar o filho de D2, Stephan, que entra na escola às 12h30, a mãe de Marcelo surgiu porta adentro. Dona Paulette é fã número um do filho e confessa nas entrelinhas que se amarra no som que ele faz. Marcelo comenta: “Cara, minha mãe quando vai nos shows se diverte muito. Ela é minha principal tiete”. A mãe, toda orgulhosa do rebento, exclama que ele é realmente o máximo.

Na porta da escola, Stephan, é puro amor diante do pai. D2 se despede e vamos ao seu restaurante predileto bater uma chepa. Retornando à Lapa caímos no restaurante Nova Capela. O local é um clássico na história do bairro e do Rio de Janeiro. A frequência vai desde figuras globais a notórios bandidos de capa preta.
Depois do almoço, circulando pela Lapa, fomos dar de frente nos escombros do antigo templo da música brasileira, o Circo Voador. O reduto foi fechado devido à perseguição de gente sinistra e de direita. Marcelo explode de raiva e diz: “Porra, o que ocorreu foi um absurdo, o Circo Voador era um cartão de visita obrigatório na cultura popular brasileira em todos os sentidos. O que o prefeito César Maia aprontou foi um terrorismo cultural sem precedentes. Qualé! O cara é maluco, fodeu com a parada. Todo mundo já tocou aqui. O Circo já era um marco, era para ele ter sido tombado e canonizado”.

No final da tarde, quando tem um tempinho, Marcelo gosta de ir ao Posto 9, em Ipanema. A praia é o local mais folclórico da rapaziada inteirada e seus satélites. Pra quem não sabe, foi ali que ocorreu o histórico episódio dos apitos. Quando a polícia chegava e tinha alguém queimando um baseado, o pessoal apitava sem parar. A moçada mais descolada relaxa como lagarto pré-histórico na areia fina do Posto 9, mas o que D2 gosta de fazer é ficar degustando uma cerveja no quiosque à beira-mar, observando os movimentos e o molejo da beleza carioca, como uma mistura de ninja e predador, desde o balanço do mar aos quadris das maravilhosas meninas do Rio.

No caminho para sua casa, pergunto quantos quilos de fumo ele acha que já degustou na vida. “Que perguntinha indiscreta! Mas vamos lá. Como naquela vez que o Jô Soares me intimou perguntando: “Você se esquece muito das coisas por conta da maconha?” E eu respondi: “Que eu me lembre, não” ehehe. Acredito que já traguei mais ou menos uma meia tonelada”.
D2 havia marcado um apontamento no Baixo Gávea para dar uma entrevista para a revista ÉPOCA às 10 horas da noite. O Baixo Gávea é um dos locais em que D2 normalmente aparece para bater o ponto. A região é repleta de bares, botecos e badalação aloprada. Em plena segunda-feira o crowd é absoluto. Uma multidão de gatas deliciosas, malucos terminais e amigos de Marcelo ronda a nossa mesa. A entrevista rola solta e rapidamente é concluída. É dado o sinal verde. Começa então a bebedeira informal da galera. D2 cumprimenta dezenas de pessoas e a sua brodagem o trata como se fosse um Buda reencarnado.

Pelas mesas a descontração é puro delírio. Chego junto do D2, pergunto para ele se finalizamos a parada das atrações turísticas, pois me encontrava esgarçado de tanto agito. Marcelo lança o míssil: “Qualé, sangue bom, isso só foi a entrada, vamos lá para Copacabana dar uma olhadinha no Cicciolina e Barbarella”.
Não teve jeito, fingi que estava tudo pela ordem e saí de fininho. Na esquina peguei um táxi e me dirigi para as Laranjeiras. Estava felizmente precavido com uma chave reserva da casa de D2. Acordei às 8h30 da manhã do dia seguinte e ajeitei minha mala. O silêncio na casa era absoluto e deduzi que o cumpadi estava no segundo sono. Quando estava fechando a porta apareceu a celebridade que sobriamente comentou: “Qualé? Amarelou ou estava sem preparo físico?”

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“Peace, Unity, Love and Having Fun”

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“Esse é só o começo do jogo…”

O filho do Marcelo D2, Stephan, está seguindo o mesmo caminho do pai.

Diretamente das ruas do Rio de Janeiro: Farouk, Shock, Sain e DJ Alves (SP) formam o START.

Fruto de uma geração que foi pioneira no rap carioca, cada integrante iniciou sua caminhada dentro do rap de diferente forma: Sain começou quando lançou sua primeira música em parceria com Marcelo D2. Farouk e Shock já tinham um grupo chamado Vícios in Versos (ex- Black Skull), que faziam shows pela cidade. Depois de algumas idéias e beats em uma tarde entre amigos surgiu o convite para Sain integrar o grupo e dessa forma, nasceu o START.

No começo de 2008, de São Paulo, após longas visitas ao Rio, veio o DJ Alves que se juntou aos 3 Mcs e o START estava completo.

O grupo têm como parceiros os artistas: André Ramiro (Matias – Tropa de Elite), Marcelo D2, Mc Marechal, Mc Aori, Max B.O. e Mario Caldato Jr.

Rap pra eles é compromisso. Sem forçar uma idéia, mas sim, entrar de forma natural na mente das pessoas, de forma que elas possam entender e interagir com a realidade atual.

“Stephan começou bem mais novo do que eu. Procuro não me meter muito na escolha deles. O grupo está no caminho certo, gosto da maneira que eles abordam os temas”, conta D2.

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