Category Archives: Hip Hop

“Brincando com as palavras no meio de uma sessão”

MÚSICA

Pra mim música sempre foi diversão. É difícil definir. Pode ter música pra tudo. Pra te fazer chorar, sorrir, música pra te fazer pensar, pra curtir. Eeei, isso dá música [risos].

ROCK

Rock é atitude. Rock se define em um nome: Jimi Hendrix.

RAP

Isso pode servir para qualquer música. O rap tem também um lado muito escroto, muito comercial. Mas, acho que a atitude e a facilidade do rap de fazer as pessoas se expressarem é que me deixam intrigado. É fácil pegar um papel e escrever uma letra sobre o que está acontecendo no dia a dia. Rap pra mim, é a minha vida.

SAMBA

O samba hoje em dia pra mim significa raiz.. Já tive meu momento de não gostar de samba e só de hardcore e tal. Uma rebeldia da adolescência. Mas, pra mim samba é raiz.  O respeito pelos mais velhos, respeito por quem fez, respeito por quem faz. Acho isso muito bonito no samba. As pessoas do samba têm muito respeito, dignidade. É bonito pra caramba!

POLÍTICA

Porra cara…Se me perguntasse isso há cinco anos, eu diria que nunca me envolveria com política. Hoje, em dia eu já penso daqui uns dez, quinze anos, quando eu estiver cansado de militar através da música, entrar na política partidária. Uma pessoa que me abriu muito a cabeça para isso foi a Soninha [apresentadora de tv e vereadora em São Paulo.] Eu tenho muita admiração por ela, que é do bem total.

DROGAS

Gosto muito! Eu gosto pra caramba. Mas, tem que saber o limite. Hoje, meu corpo não guenta mais tanto. Meus cabelos brancos…

JUVENTUDE

A juventude pode ser dividida em algumas coisas. Outro dia que estava conversando com a minha cunhada. Eu acho que vou ser moleque a vida toda! Não o consigo me ver coroa [risos]. Posso fica velho, acabado, mas vou continuar me vendo meio moleque.

ARTE

É essencial. Cada vez mais eu acho essencial para o ser humano estar envolvido com arte. É bom para desenvolver os sentimentos. É bom para buscar a felicidade. Cinema, música, literatura, teatro… Tudo isso torna a gente mais inteligente. No dia a dia isso é importante pra caramba. Cultura é bom quando podemos levar para o dia a dia. Engrandece o homem.

BRASIL

Não consigo ver o Brasil como um país da América Latina. É uma país tão grande que é difícil definir o povo brasileiro. Os gaúchos, os cearenses, são tão diferentes, que é difícil dizer que são o mesmo povo.  É isso que faz o Brasil ser do caralho. Mas, politicamente acho muito difícil sairmos dessa “pindaíba” em que estamos. Mas, patriotismo eu não acho muito bom. Esse sentimento de colocar a pátria acima de tudo. Acima de tudo estão as pessoas.

RIO DE JANEIRO

Eu sou cria do Rio. Gosto muito de vários lugares do mundo. Sempre vejo paradas maneiras, mas não consigo morar fora do Rio. O Rio de Janeiro sou eu. As pessoas que moram aqui são iguais a mim. É a minha cidade!

VIOLÊNCIA

O mundo tá violento pra caramba. A grande culpada disso tudo é essa forma de tratar essa coisa do vencer, de ser alguém. Isso de precisar ter o tênis tal, o carro tal. Essa coisa de precisar ter. Você junta isso com a desigualdade social, a miséria, a má distribuição de renda. Isso gera muita violência. Eu moro num lugar onde ouço tiros todos os dias, é normal! mas, se eu pensar que esse tiro, mata alguém..Isso não pode se transformar numa coisa normal. Como é todo o dia, a gente se acostuma.  E isso é o pior: a gente vai se acostumando. Quando eu era moleque morava numa área perigosa, mas quando ouvíamos um tiro, era um acontecimento. Hoje, é normal.

AMOR

Essa palavra sempre esteve fora do meu dicionário. Meus filhos me ensinaram. Minha mulher também. Um simples ato de amor vale mais do que qualquer coisa. Meu filho vir dar um beijinho no meu joelho machucado é amor. Parece até que a dor passa.

FAMÍLIA

Família sempre foi importante para mim, mesmo tendo tido uma relação familiar meio confusa. Meus pais nem eram tão presentes assim no meu crescimento. Sabe como é família classe média baixa…Eu tento ser mais presente para os meus filhos. Mas isso nem é o mais importante. Amor de família é uma proteção. É muito bom saber que tem gente que se preocupa contigo. Hoje eu tenho a minha família, a família que eu formei e hoje eu posso dizer que é estável.

FILHOS

A melhor coisa. Não tem amor igual de um filho. E quanto mais filhos você tem mais dá vontade de ter outros. Tenho quatro e cada um é uma figura totalmente diferente. Mas, todos me têm como elo. Os filhos são o melhor amor do mundo. Quando teu filho nasce, você entende o sentido da vida.

AMIZADE

Eu tenho as minhas amizades como se fossem minha família. Gosto muito dos meus amigos. De ter amizades reais. Depois de fazer sucesso, pinta muita gente querendo ser teu amigo, não só por interesse, mas por admiração. Meus amigos têm coisas pra me passar, valores…Tenho poucos amigos, mas são amigos mesmo. O Yuka já falou “Família não é sangue, é sintonia”. Amizade é isso aí. Nem precisa estar falando direto e tal, mas quem é amigo é amigo mesmo. Na hora que encontrar vai ter a mesma intimidade.

JUSTIÇA

Porra cara…Falar de justiça num país como o nosso…Aqui a lei é feita para reprimir. Não é para ser justa. Não existe justiça no Brasil.

TECNOLOGIA

É importante, mas não é tudo. As pessoas estão escravas do avanço tecnológico. Todo mundo tem que ter celular, câmera digital, computador. Acho isso uma escravidão. Vejo meu filho de 13 anos dizendo que tem que ter celular. Outro dia teve uma situação engraçada. Fui com ele na escola e fiquei de papo com os amigos dele. Um me perguntou o meu email e o Stephan disse: “Meu pai não tem email, não!” E todos caíram na gargalhada, incrédulos…Não é a tecnologia que faz o mundo girar e sim o homem. Hoje parece que as pessoas jogam tudo para a tecnologia. Sou do tipo que prefere falar pessoalmente. Hoje, qualquer um grava disco, afina a voz, sampleia…É sinistro.

FUTURO

Se for pensar em futuro a longo prazo, eu digo que o ser humano vai acabar com o mundo [risos].

PRESENTE

Não posso reclamar, minha vida está boa. Estou me sentindo amado, amando, fazendo o que gosto… Minha família está na boa.

PASSADO

Tento não reclamar do passado. A minha infância foi boa para eu aprender a tirar o melhor das coisas. Nesses últimos anos, eu trabalhei muito. Nos últimos 20 anos eu trabalhei muito mesmo. Muita luta. Mas é foda quando a gente percebe que o passado vai ficando maior que o futuro. Acho que estou no meio. Viver até os 74 tá na boa.

MULHER

Gosto muito. Eu tenho fascínio pelo sexo oposto. É foda! Sou mulherengo mesmo. A Camila deve sofrer com isso. Eu já tive problemas e devo ter causado muitos problemas para as mulheres. Mas agora…Eu nunca me acertei tão bem com a Camila. Acho mesmo que vai ser pelo resto da vida. Mulher pra mim agora é sinônimo de Camila.

SEXO

Sexo é foda! Quando eu era mais moleque queria sair trepando com todo mundo. Hoje, é uma parada de risco legal. Uma menininha nova, bonitinha, pode ser o fim da tua vida. Não dá pra pensar em sexo sem ser seguro. Pra mim, o melhor do sexo, era fazer a qualquer hora com qualquer pessoa. Não dá mais para ser assim.

MODA

Acho que a palavra moda é uma besteira. A grande sensação do lance é ter estilo. Quem anda na moda, vai sair da moda. Mas quem tem estilo não.

PALCO

É o lugar onde eu mais me sinto à vontade. Acho que até mais que na cama. No palco não sinto medo de nada. Me transformo numa pessoa que na vida real eu não consigo ser. Não consigo relaxar tanto quanto no palco. Ser eu mesmo e foda-se. Eu saio do palco e já vem um escudo protetor dizendo que eu tenho que ser mais malandro, ali, mais gentil, e assim por diante. No palco não tem essa. Sou do jeito que eu sou e pronto. Desde o começo eu sentia que era um lugar prazeroso pra mim. Nunca fico nervoso.

ESTÚDIO

Gosto de estúdio pra gravar, estúdio de ensaio eu acho um saco. Duas coisas que eu não gosto no meu trabalho: ensaiar e tirar foto. Estúdio de gravação é um dos lugares mais agradáveis pra mim. Adoro ficar no estúdio fumando um, tomando uma cerveja, criando um som. É onde eu me acho músico. Mas até que no palco.

CRIAÇÃO

Antes eu criava com mais espontaneidade. Hoje crio mais por obrigação. Não tenho mais cadernos de rascunho. Hoje em dia, criar é doloroso pra caramba. Fico na neurose pensando se vou conseguir ou não. Tenho deixado para escrever as letras sempre nos último minutos, e isso faz o processo mais doloroso.  Eu guardo alguns assuntos e depois no estúdio eu desenvolvo. Hoje em dia, estúdio e criação estão interligados.

CONSUMISMO

Sou consumista pra caralho. Adoro comprar tênis, roupa, discos…Mas, isso me deixa meio preocupado. Fico com medo que isso se torne algo maléfico para a sociedade como um todo. Os bens de consumo acabam virando status e os moleque mais probres também querem ter tudo isso. Atrapalha na formação, isso é muito fútil. Besteira…

DINHEIRO

Quanto mais dinheiro, mais problemas. Mas, no fundo dinheiro traz conforto. Fico meio abismado. Todo mundo deveria ter, casa, carro, alimentação.. Como aqui ninguém tem isso e os serviços básico não funcionam, a luta pelo dinheiro passa a ser uma luta pela sobrevivência. É desesperador. Não quero ser milionário não. O que eu tenho já está bom.

DEUS

Não sou religioso. Não tenho religião. Deus pra mim é um estado de espírito. Está dentro da gente. Rege a gente. É uma energia. Quanto mais você pratica o bem, mais terá o bem. As pessoas deviam pensar em Deus assim. Quando coloco a mão na cabeça e peço que Deus me ajude, no fundo estou querendo que se abra dentro de mim um caminho. Não estou pedindo para algo fora de mim, uma matéria, Deus. Não é isso, não.

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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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A regra é clara: “Nunca pise no tênis”

Dirigido por Gandja Monteiro, o clipe foi filmado nas ruas do Lower East Side, em Nova York, com imagens de um pequeno show no jardim dos fundos da tão famosa Alife Rivington Club, o mesmo local aonde outros importantes nomes do Hip Hop fizeram apresentações primorosas.

A MTV Brasil divulgou os indicados ao VMB 2010. E como não deveria deixar de ser Marcelo D2 está concorrendo a Clipe do Ano com a música “Meu Tambor”. Vamos fazer o Marcelo D2 levar a estatueta e fazer muito barulho para a Gandja Monteiro, cineasta brasileira que dirigiu o videoclipe.

http://vmb.mtv.uol.com.br/votacao/clipe-do-ano VOTE!

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A cada vento

“Atravessando o mar.
Vou me perder, vou me encontrar.
A cada vento que soprar
o sol prova isso quando cruza o horizonte,
vira fonte que aquece, ilumina..
Ação sem câmera, só a luz para conduzir.
Sinceridade pra sentir a alma reluzir.”

O hip hop promove metalinguagens através histórias de vidas, compostas pelo silêncio abstrato das periferias que ressoa como música feita de ritmo e poesia.

A vida na periferia é algo sem margens, sem começos, sem fim. É a melancolia de um dia nublado, um esforço pela beleza difícil, é andar perto do abismo. Uma vida cheia de detalhes bucólicos.

“Gente pobre, com empregos mal
remunerados, baixa escolaridade, pele escura. Jovens pelas
ruas, desocupados, abandonaram a escola por não verem o
porquê de aprender sobre democracia e liberdade se vivem
apanhando da polícia e sendo discriminados no mercado de
trabalho. Ruas sujas e abandonadas, poucos espaços para o
lazer. Alguns, revoltados ou acovardados, partem para a
violência, o crime, o álcool, as drogas; muitos buscam na
religião a esperança para suportar o dia-a-dia; outros ouvem
música, dançam, desenham nas paredes…”

O hip hop é um movimento de denúncia e crítica a todas às opressões sofridas. Sua característica suburbana produz eco nas periferias. É uma forma de resistência e mudança da realidade. A periferia é marcada pela insignificância e o não poder daqueles que vivem às margens de uma sociedade totalmente desigual.

Partindo do princípio de que a cultura hip-hop é uma resposta frente às condições precárias que os jovens da periferia das grandes cidades enfrentam, pode-se admiti-lo que a manifestação é uma das características essenciais, uma vez que, é a responsável pela forma que protestam a problemática social envolta à marginalidade.

Além disso, o rap é um tradutor de poesia oral. É preciso inventar a cor das vogais, o movimento de cada consoante e com ritmos instintivos, escrever silêncios e fixar vertigens.
O desejo pelo limite entre a luz e o breu e a busca por nuances, faz com que o jovem saia dessa vida densa, cinza e barroca e encontre alívio na monotonia do olhos.

As crianças e adolescentes da favela que convivem desde cedo com a criminalidade, presenciam constantemente o tráfico de drogas, são platéias do abuso de poder dos policiais e que de certa forma são mutilados quando perdem seus parentes e amigos, vítimas de bala perdida. Neste caso, a música, ocupa seus abandonos e desamparos, é a maneira mais pacífica e direta que esses jovens têm para protestar, mostrar sua cara e contar suas histórias de vida, onde todos os minutos são iguais. Dias sem opção, na calada da tarde, no improviso da sílaba.

“Contraditorio vagabundo como Chaplin,
Do tipo que gosta de flores, mas não tem o jardim.
Se ainda houver amor de graça quero um pouco para mim.”

Como estar na periferia economicamente desfavorecida e viver de rap? Estar com o rap nas rádios é uma postura comercial, porém esta postura vislumbra possibilidades para o jovem que pretende viver de arte. Estar na mídia é ingressar num sistema responsável pelo capitalismo que causa exclusão social e desigualdade. É preciso reivindicar a luta contra o preconceito, opressão e as desigualdades. Com isso preencheremos espaços com coisas que vem do mundo, coisas menos materiais, com belezas que moram nas coisas imperfeitas e incompletas, tecendo a poesia das transitoriedades leves.

“Corre as areias da ampulheta e nada, além do amor maior.
Cada degrau na escada onde eu derramei o meu suor.
E se não for por isso então não sei para que serve o hip hop.
Me faz esquecer a fome e botar fé de que eu posso ser alguém.
Mudar o mundo com a ponta de uma caneta.
Momento faz a vida a vida faz o rap.
Existem duas certezas uma é morrer.
A outra é se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser rimando.”

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“Em samba de roda já dei muito nó…Em roda de samba sou considerado”

Tu se consideras o pioneiro do hip hop brasileiro?

Eu sou de uma segunda geração.
A primeira geração que é Racionais Mc’s, Thaide Dj Hum, um dos primeiros a abordar o tema crítico-social com a música “Homens da Lei” que falava da violência social em São Paulo, Osasco e no ABC paulista. No final de década de 80, os Rappers começaram a produzir letras conscientes, versando sobre o racismo, pobreza e injustiças.
A segunda geração é composta por mim, Gabriel O Pensador, Mv Bill, tem até uma terceira geração. A minha época foi bastante influenciada por artistas de outros estilos como, Jorge Ben, Tim Maia, Gerson King Kong, James Brown, além da forte influência do samba que está presente no meu trabalho.
O caminho do rap é esse, regionalizar para tornar universal.

Qual disco da tua carreira solo que tu mais gosta?

Os meus álbuns são como um filho pra mim, não tem como gostar mais de um ou de outro, eles contam muito do meu momento, do que eu to vivendo.
São oito discos, três de platina e cinco de ouro. Os quatro discos, Eu Tiro É Onda, À Procura da Batida Perfeita, Meu Samba É Assim e a Arte do Barulho contam muito bem a história de misturar hip hop com samba. Ainda tem muita coisa para se fazer em cima disso, mas o caminho já ta trilhado.

Tu resgata muito samba antigo que a maioria da galera que escuta as tuas músicas não tem muito conhecimento. João Donato, João Nogueira, Bezerra da Silva…

Depois de Tom Jobim, o João Donato é um dos maiores pianistas de Bossa Nova que tem no Brasil.
Em 1998, quando eu fiz meu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda, resolvi chamar alguns músicos antigos pra participar. Chamei o Dom um Romão, um instrumentistas que tocou com Frank Sinatra, Elis Regina, um dos inventores da batida da Bossa Nova, outros percursionistas participaram também, aí resolvi convidar o João Donato e me surpreendeu muito, porque a maioria dos músicos antigos são mais fechados e ele não, aceitou na hora, gravou duas músicas, contou histórias da época que ele tocou com a Elis Regina.
Foi um dia incrível, ele tocando piano e contando histórias.
É muito bom trazer para a nova geração a velha guarda musical, senão os Arquitetos da Música Brasileira vão ficar perdidos lá atrás, ninguém mais vai ouvir falar de João Nogueira, que é um dos maiores sambistas pra mim, um dos meus preferidos.
Um momento da minha carreira que me deixou muito orgulhoso foi quando eu estava no Aeroporto esperando um vôo e veio um garotinho de 10 anos, eu pensei que ele fosse falar da música que eu cantei com o meu filho, ele virou pra mim e falou:
“Eu nunca tinha ouvido João Nogueira, eu e meu pai adoramos.” Muito legal isso, um garotinho de 10 anos ouvindo João Nogueira porque eu citei.

Como é para ti tocar para públicos diferentes?

Eu adoro tocar em festivais, porque tem bastante gente, sem contar que tem um monte de bandas, de vários estilos.
Mas, também gosto de tocar pra uma galera mais engajada, pra público pequeno e tal.

O que muda nos shows quando vai tocar em um festival para uma galera mais nova?

Em festival eu toco as mais conhecidas, é um show menor também. Se o público realmente quer ouvir músicas do meu disco solo, do Planet Hemp, tem que ir num show meu. Porque festival a gente faz um set começando com “Vai Vendo”, “Qual é”, só as músicas que tocaram mais.

Você acha que existe uma relação da moda com a música, um influência o outro?

A moda influência muito a música, você identifica um músico pela roupa que ele veste. O Rock, por exemplo, mexeu com a moda no mundo. Nos anos 80 vários músicos adotaram um estilo extravagante.
Moda é a maneira que tu te mostra para o mundo, fazer moda é fazer arte.

Tu se sente um produto? Rola uma crisezinha?

Pra caralho, mas não tenho crise não. Eu sei usar o marketing ao meu favor pra fazer as coisas que eu gosto. É engraçado que as bandas que fazem música de cunho social na minha geração (década de 90), são as bandas que sobreviveram, Nação Zumbi, O Rappa, Mundo Livre, a gente… Acho que eu já fui mais o “Pesadelo do Pop”.


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“1967, o mundo começou pelo menos pra mim”

“A trajetória pelos olhos de Dona Paulete.”

Como você conheceu o Dark, pai de seus filhos?

Conheci o Dark por causa deste dedo aqui. Eu trabalhava numa confecção de roupas. Por sinal, eu nunca tinha costurado na vida [risos]. Precisava arranjar emprego. Cheguei na fábrica, tinha um fila enorme. Só tinha vaga para quem já tinha experiência. Entrei e pensei: “O que vou fazer agora?” Vi que tinha uma mulher coordenando todo mundo. Fui franca para ela. Disse que não tinha experiência, mas que precisava trabalhar para ajudar em casa e que, se ela me ensinasse, eu aprenderia tudo. Aí ela disse que o emprego era meu. Trabalhava pra caramba, trabalhava naquelas máquinas de colocar botão de pressão. Produzia bem naquela máquina. Um dia prendi meu dedo na máquina. O Dark era chefe do departamento pessoal, me levou pro pronto-socorro. Ficamos amigos..

Como foi o nascimento do Marcelo?

Engravidei parei de trabalhar, fiquei em casa. O Dark enlouqueceu de felicidade. Passei mal no domingo de manhã, entrei no carro de um vizinho e no caminho a bolsa estourou. Fomos pro hospital mais próximo que era o Bomsucesso. O Marcelo nasceu lá. Naquele tempo não tinha de  ultra-sonografia, eu nem sabia o sexo. Nasceu de parto normal às 17:30 de um domingo no dia 05 de Novembro de 67.
O Dark tomou um porre nesse dia. Ele já gostava, não precisava de muito para beber. Mas, quando nasceu o filho..
Um dia antes de eu ir para a maternidade, pedi pra ele comprar uma caixa de sabão em pó pra lavar as roupinhas do bebê. Aí ele tomou um porre e foi pra casa com o sabão em pó na mão. Chegando lá, minha mãe disse que ele já estava trebâdo, que eu estava na maternidade, e que, ao invés de comprar flores para mulher, comprou uma caixa de sabão em pó. [caí na gargalhada] Louco, louco…
Fui para minha casa aonde estavam o berço e as coisinhas dele, então voltei para Piedade. Quando o Marcelo tinha 1 aninho nós fomos morar em Madureira, na estrada da Portela, numa casa que toda criança gostaria de ter..tinha um quintal enorme.

Como foi a infância dele?

Marcelo foi uma criança muito tranqüila.

E a vida de vocês?

Muita dureza. Eu tinha que trabalhar, fazia unha, vendia roupa, jóia, perfume. O Dark era uma pessoa muito boa. Mas, não era uma pessoa muito responsável.

Como autônoma você ainda podia cuidar do Marcelo?

Quando ele nasceu montei uma firmazinha com uma amiga para fazermos flores. Aquelas flores de tecido que eram muito comuns antigamente. Fazíamos tudo, montavámos arranjos. Eu botava o Marcelo num cantinho e ficava lá trabalhando. Eu sempre gostei de vender.

E o Dark?

Ele ficava empregado, depois desempregado…Mas, eu não ligava muito. A vida inteira eu trabalhei e cuidei dos meus irmãos…É claro que incomodava! Toda mulher gosta de estabilidade, ter um homem do lado..Mas na minha infância eu já tinha assumido os meus irmãos. Então, quando nasceu o meu filho, eu achava que seria o pai e a mãe. Deve ter sido errado da minha parte.

Ele brincava muito sozinho? Ou já tinha amigos?

Mais sozinho. Tinha os brinquedos dele. Mesmo no parquinho ele gostava de ficar quietinho com as coisas dele. Dizia que os outros iriam estragar a brincadeira dele. Ele era calmo até demais, de dar preocupação. Ficava montando as coisas. Até fazia palco com caixa de sapato.

Palco?

É. Palco. Montava palco com caixa de sapato e depois enfiava uns palitos de fósforo e tacava fogo em tudo. É mole? Tacava fogo.

E a saúde?

Era magrelo, mas saudável. Ele era tão ruim pra comer. Tinha umas coisas engraçadas. Me pedia para ver quando eu arrumava o prato dele. Não gostava quando o feijão sujava o arroz. Ele gostava de comer o feijão e depois o arroz limpinho.

Ele fazia muitos amigos?

Fazia.

Como foi a adolescência dele?

A gente morava em Maria da Graça. Eu e o Dark resolvemos nos separar, porque o amor tinha acabado. Nos separamos e ficamos amigos. Até porque tínhamos muito respeito um pelo outro. Ele foi o cara que me deu meus filhos. Eu era jovem não queria viver só como amigos. Até pelas crianças, elas precisavam do pai, mas vivendo bem.

O Marcelo tinha quantos anos quando vocês se separaram?

Uns 12 anos, o Dark foi morar no Catete e no Andaraí. Não tinha mais a figura masculina em casa. Tive que trabalhar muito. Tinha dias que nem comia. Trabalhava mesmo! Ia com uns saltos desse tamanho pra rua, vender. Que energia que eu tinha! Era uma vendedora nata. Vendia mesmo, não tinha vergonha de nada. Parecia uma magazine ambulante! Aí começaram os problemas com o Marcelo. O Dark nem se envolvia com a educação das crianças. Tudo eu que tinha que resolver. O Marcelo crescendo, querendo tênis, as coisas dele. Depois de um tempo o Marcelo não queria mais ir pra escola. Horrível, vocês escutar isso de um filho. Fiquei desesperada. Queria fazer dele um homem. E sem estudar ele ia ser o que na vida?
Nessa época eu mesma estava estudando. Tinha um professor de matemática que dizia que o Marcelo estava desmotivado com a vida. Ele queria ficar o dia inteiro de papo pro ar. Não se interessava por nada. Tentei fazer ele estudar à noite, mas não adiantou. No primeiro dia de aula ele já falou que não queria. Aí não adianta. Desisti. Com 13 anos, não queria mais nada com os estudos. Então eu disse que ele teria que trabalhar. Ele topou. Tinha uma amigo que era Globinho, mas também estudava, o Beto. Falei com o Beto pra ver se ele fazia a cabeça do Marcelo para trabalhar e continuar na escola. O Marcelo acabou topando, trabalhava de manhã e depois ia para o colégio. Ele tentou, mas só matava aula. O Toninho que é meu companheiro há mais de 20 anos, pegava no pé dele. Dizia que ele precisava ter responsabilidade. O Marcelo não gostava. Me disse que queria morar com o pai, que ia cuidar do pai dele. Então foi pro Catete morar com o Dark. Aí, meu filho…O Dark era um farrista. A casa dele era um bordel! Homem morando sozinho, sabe como é…E eu pensando o que seria do meu filho.

Ele tinha quantos anos?

Uns 16. Mas, eu ia sempre vê-lo. Pegava as roupas pra lavar…Queria ficar de olho. Ele gostava muito do pai e da vida que estava levando, né?

O Dark fumava maconha?

Não, não que eu soubesse. Ele bebia demais e fumava muito cigarro. Tanto é que morreu de câncer no pulmão. Não dava nem pra sonhar com o que seria o futuro do Marcelo. Quando ele era pequeno dizia que queria ser palhaço de circo. Eu ficava muito preocupada com ele.

E a Carla?

A Carla sempre foi agarrada comigo. Muito minha amiga, minha companheira. O Marcelo também, mas era bem mais cômodo viver com o pai. Com o Dark ele ficava livre das cobranças, as minhas e as do padrasto. Ele sumia de casa e a gente ia atrás dele. Eu metia o cacete nele! Já quebrei muita mesa de botão do Marcelo. Todo ano ele me pedia uma nova e eu metia o cacete e quebrava. Ele só apanhou depois de grande. Nessa fase de não querer nada com a vida.

Quando você percebeu que ele estava tomando um rumo na vida? Foi com o Planet?

Foi. O pior que foi.

Você conheceu o Skunk?

Lógico. Ele ia muito lá em casa. Eu ficava muito preocupada com o Marcelo. Saí do Andaraí pra morar no Catete e ficar mais próxima. Então ele conheceu a Sonia e quis casar, moravam os três juntos.

A Sonia foi morar com eles?

Na verdade, ela foi antes morar com o Dark. A tia dela era amiga do Dark e a Sonia vivia mal com o padrasto e com a mãe. Um dia o Dark encontrou a Sonia chorando largada na rua e disse que ela poderia ir morar com ele. Resolveu acolher a menina. Foi quando ela conheceu o Marcelo.

Então foi o pai que apresentou ela para o filho?

Foi. E quando Dark soube que eles estavam juntos, falou: “Meu Deus”. Mas aí não tinha mais o que fazer. Ficaram juntos e ela engravidou. Eu comprei um apartamento pra mim e falei pra ela e pro Marcelo irem morar aonde eu morava. Pra ter a vidinha deles, o filho…Deixei o apartamento todo montado pra eles. Comprei carrinho de neném. O Stephan nasceu e o Marcelo tocando a vida dele de camelô. Aí o Dark ficou doente. A Sonia ajudava a cuidar dele. Mas não estava dando. Então, o Dark foi morar com eles. O Marcelo era vendedor, botava dinheiro em casa e a Sonia também. Mas, ganhavam muito pouco e com o filho..

Como foi a morte do Dark?

Foi muito bonito eles terem levado o Dark para morar com eles. Ele melhorou e voltou a trabalhar. Parecia que estava curado. Mas, aí voltou a ficar doente. Ele ainda curtiu muito o Stephan. Levava o neto pra tudo que era lado…viajavam. O Stephan era louco pelo avô. Fala dele com muito carinho. Ele adora o pai, mas o avô foi muito importante na vida dele. O Dark ainda se juntou com a Regina, que foi companheira dele. Eu tinha muito carinho pelo Dark. Ele me deu as coisas mais preciosas da minha vida. Sempre enxerguei isso. Depois ele teve a recaída e não houve mais jeito. Perdeu um pulmão, depois afetou outro…E o Marcelo começando a deslanchar na música.

Ele não chegou a ver o filho fazendo sucesso?

Não. Foi logo no início. Já tinham gravado um disco. Mas ainda não faziam muito sucesso. Todos os enfermeiros do hospital sabiam que o Marcelo era músico, pois o pai falava dele com muito orgulho.

Como foi pra você ver o disco? Como foi saber que seu filho era o maconheiro nº 1 do Brasil?

Assustador.

Sabia que ele fumava maconha?

Sabia e ficava triste, porque droga é droga. Ficava preocupada.

Como foi o dia da prisão?

Ele era casado com a Manuela. Era aniversário do Stephan. A gente preparou uma festa. Ele estava tocando em Brasília, e a gente esperando que ele fosse conseguir chegar para a festa do filho. Então a Manuela chegou só no final da festa e contou que a banda estava presa. Fiquei desesperada. Aí entrei em contato com o empresário da banda, Marcello Lobatto, e ele ia me tranquilizando. Depois consegui o telefone do Gabeira, esse homem foi um alento. Ele viu o meu sofrimento e disse que eu podia ligar a hora que quisesse. Enquanto eles estavam presos, fiquei em cima da cama com o controle na mão. Só dava isso na televisão…ou eu que só via isso.

E a fama?

A fama do Marcelo aconteceu de forma tão natural…Como mãe acho que não mudou nada na via dele. O Marcelo é a mesma pessoa, trata todo mundo do mesmo jeito. É lógico que hoje ele pode usar coisas melhores, agora ele tem dinheiro. Me lembro que a gente era tão pobre que ele dizia que ia gastar o primeiro salário todo em doce de leite. Tinha vontade de comprar tênis bom, hoje ele compra. Tem uma casa maravilhosa, um carrão. Mas o dinheiro não mexe com a cabeça dele.

Não é esnobe?

Não, ele nem gosta dessa coisa de ostentar, de chamar atenção por essas coisas. Hoje em dia todo mundo tem medo. Mas não vai deixar de ter as coisas e de viver do jeito que pode por causa do medo.

Ele ajuda a família?

Ele tem sido um anjo pra gente. Ele ajuda a vó dele, me ajuda muito, com os meus remédios, me deu esse apartamento…Está sempre preocupado com todos da família. Ele quer ter mais para continuar ajudando a gente e deixar um bom futuro para os filhos.

E os amores que ele teve? As mulheres?

É complicado falar disso..

Qual o maior defeito do Marcelo?

É irresponsável demais. Não cumprir as coisas que combina…Mas ele tá melhorando.

E a maior virtude?

São várias [risos]. Ser um bom filho é uma grande virtude de um homem. O Marcelo tem um coração muito bom. Ele ajuda todo mundo..Agora ele tá dando mais valor para o dinheiro, a Camila ajuda ele a ter os pés no chão.

Tudo veio na hora certa para ele.

É mesmo. Me lembro que na época do Planet , eu achava engraçado ele estar em todo lugar como líder da banda. Eu não achava que ele fosse fazer uma carreira solo. Acho que nem ele imaginava quando começou o Planet.

O Marcelo ainda guarda um grande adolescente dentro dele.

É porque ele nunca pôde ter esse tipo de coisa. Só agora. Acho muito legal. Imagine eu, que nunca tive uma boneca. Isso é uma realização! E que se dane o mundo!

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“Vocês tão prontos para um rolê? Do hip hop ao samba”

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