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“Brincando com as palavras no meio de uma sessão”

MÚSICA

Pra mim música sempre foi diversão. É difícil definir. Pode ter música pra tudo. Pra te fazer chorar, sorrir, música pra te fazer pensar, pra curtir. Eeei, isso dá música [risos].

ROCK

Rock é atitude. Rock se define em um nome: Jimi Hendrix.

RAP

Isso pode servir para qualquer música. O rap tem também um lado muito escroto, muito comercial. Mas, acho que a atitude e a facilidade do rap de fazer as pessoas se expressarem é que me deixam intrigado. É fácil pegar um papel e escrever uma letra sobre o que está acontecendo no dia a dia. Rap pra mim, é a minha vida.

SAMBA

O samba hoje em dia pra mim significa raiz.. Já tive meu momento de não gostar de samba e só de hardcore e tal. Uma rebeldia da adolescência. Mas, pra mim samba é raiz.  O respeito pelos mais velhos, respeito por quem fez, respeito por quem faz. Acho isso muito bonito no samba. As pessoas do samba têm muito respeito, dignidade. É bonito pra caramba!

POLÍTICA

Porra cara…Se me perguntasse isso há cinco anos, eu diria que nunca me envolveria com política. Hoje, em dia eu já penso daqui uns dez, quinze anos, quando eu estiver cansado de militar através da música, entrar na política partidária. Uma pessoa que me abriu muito a cabeça para isso foi a Soninha [apresentadora de tv e vereadora em São Paulo.] Eu tenho muita admiração por ela, que é do bem total.

DROGAS

Gosto muito! Eu gosto pra caramba. Mas, tem que saber o limite. Hoje, meu corpo não guenta mais tanto. Meus cabelos brancos…

JUVENTUDE

A juventude pode ser dividida em algumas coisas. Outro dia que estava conversando com a minha cunhada. Eu acho que vou ser moleque a vida toda! Não o consigo me ver coroa [risos]. Posso fica velho, acabado, mas vou continuar me vendo meio moleque.

ARTE

É essencial. Cada vez mais eu acho essencial para o ser humano estar envolvido com arte. É bom para desenvolver os sentimentos. É bom para buscar a felicidade. Cinema, música, literatura, teatro… Tudo isso torna a gente mais inteligente. No dia a dia isso é importante pra caramba. Cultura é bom quando podemos levar para o dia a dia. Engrandece o homem.

BRASIL

Não consigo ver o Brasil como um país da América Latina. É uma país tão grande que é difícil definir o povo brasileiro. Os gaúchos, os cearenses, são tão diferentes, que é difícil dizer que são o mesmo povo.  É isso que faz o Brasil ser do caralho. Mas, politicamente acho muito difícil sairmos dessa “pindaíba” em que estamos. Mas, patriotismo eu não acho muito bom. Esse sentimento de colocar a pátria acima de tudo. Acima de tudo estão as pessoas.

RIO DE JANEIRO

Eu sou cria do Rio. Gosto muito de vários lugares do mundo. Sempre vejo paradas maneiras, mas não consigo morar fora do Rio. O Rio de Janeiro sou eu. As pessoas que moram aqui são iguais a mim. É a minha cidade!

VIOLÊNCIA

O mundo tá violento pra caramba. A grande culpada disso tudo é essa forma de tratar essa coisa do vencer, de ser alguém. Isso de precisar ter o tênis tal, o carro tal. Essa coisa de precisar ter. Você junta isso com a desigualdade social, a miséria, a má distribuição de renda. Isso gera muita violência. Eu moro num lugar onde ouço tiros todos os dias, é normal! mas, se eu pensar que esse tiro, mata alguém..Isso não pode se transformar numa coisa normal. Como é todo o dia, a gente se acostuma.  E isso é o pior: a gente vai se acostumando. Quando eu era moleque morava numa área perigosa, mas quando ouvíamos um tiro, era um acontecimento. Hoje, é normal.

AMOR

Essa palavra sempre esteve fora do meu dicionário. Meus filhos me ensinaram. Minha mulher também. Um simples ato de amor vale mais do que qualquer coisa. Meu filho vir dar um beijinho no meu joelho machucado é amor. Parece até que a dor passa.

FAMÍLIA

Família sempre foi importante para mim, mesmo tendo tido uma relação familiar meio confusa. Meus pais nem eram tão presentes assim no meu crescimento. Sabe como é família classe média baixa…Eu tento ser mais presente para os meus filhos. Mas isso nem é o mais importante. Amor de família é uma proteção. É muito bom saber que tem gente que se preocupa contigo. Hoje eu tenho a minha família, a família que eu formei e hoje eu posso dizer que é estável.

FILHOS

A melhor coisa. Não tem amor igual de um filho. E quanto mais filhos você tem mais dá vontade de ter outros. Tenho quatro e cada um é uma figura totalmente diferente. Mas, todos me têm como elo. Os filhos são o melhor amor do mundo. Quando teu filho nasce, você entende o sentido da vida.

AMIZADE

Eu tenho as minhas amizades como se fossem minha família. Gosto muito dos meus amigos. De ter amizades reais. Depois de fazer sucesso, pinta muita gente querendo ser teu amigo, não só por interesse, mas por admiração. Meus amigos têm coisas pra me passar, valores…Tenho poucos amigos, mas são amigos mesmo. O Yuka já falou “Família não é sangue, é sintonia”. Amizade é isso aí. Nem precisa estar falando direto e tal, mas quem é amigo é amigo mesmo. Na hora que encontrar vai ter a mesma intimidade.

JUSTIÇA

Porra cara…Falar de justiça num país como o nosso…Aqui a lei é feita para reprimir. Não é para ser justa. Não existe justiça no Brasil.

TECNOLOGIA

É importante, mas não é tudo. As pessoas estão escravas do avanço tecnológico. Todo mundo tem que ter celular, câmera digital, computador. Acho isso uma escravidão. Vejo meu filho de 13 anos dizendo que tem que ter celular. Outro dia teve uma situação engraçada. Fui com ele na escola e fiquei de papo com os amigos dele. Um me perguntou o meu email e o Stephan disse: “Meu pai não tem email, não!” E todos caíram na gargalhada, incrédulos…Não é a tecnologia que faz o mundo girar e sim o homem. Hoje parece que as pessoas jogam tudo para a tecnologia. Sou do tipo que prefere falar pessoalmente. Hoje, qualquer um grava disco, afina a voz, sampleia…É sinistro.

FUTURO

Se for pensar em futuro a longo prazo, eu digo que o ser humano vai acabar com o mundo [risos].

PRESENTE

Não posso reclamar, minha vida está boa. Estou me sentindo amado, amando, fazendo o que gosto… Minha família está na boa.

PASSADO

Tento não reclamar do passado. A minha infância foi boa para eu aprender a tirar o melhor das coisas. Nesses últimos anos, eu trabalhei muito. Nos últimos 20 anos eu trabalhei muito mesmo. Muita luta. Mas é foda quando a gente percebe que o passado vai ficando maior que o futuro. Acho que estou no meio. Viver até os 74 tá na boa.

MULHER

Gosto muito. Eu tenho fascínio pelo sexo oposto. É foda! Sou mulherengo mesmo. A Camila deve sofrer com isso. Eu já tive problemas e devo ter causado muitos problemas para as mulheres. Mas agora…Eu nunca me acertei tão bem com a Camila. Acho mesmo que vai ser pelo resto da vida. Mulher pra mim agora é sinônimo de Camila.

SEXO

Sexo é foda! Quando eu era mais moleque queria sair trepando com todo mundo. Hoje, é uma parada de risco legal. Uma menininha nova, bonitinha, pode ser o fim da tua vida. Não dá pra pensar em sexo sem ser seguro. Pra mim, o melhor do sexo, era fazer a qualquer hora com qualquer pessoa. Não dá mais para ser assim.

MODA

Acho que a palavra moda é uma besteira. A grande sensação do lance é ter estilo. Quem anda na moda, vai sair da moda. Mas quem tem estilo não.

PALCO

É o lugar onde eu mais me sinto à vontade. Acho que até mais que na cama. No palco não sinto medo de nada. Me transformo numa pessoa que na vida real eu não consigo ser. Não consigo relaxar tanto quanto no palco. Ser eu mesmo e foda-se. Eu saio do palco e já vem um escudo protetor dizendo que eu tenho que ser mais malandro, ali, mais gentil, e assim por diante. No palco não tem essa. Sou do jeito que eu sou e pronto. Desde o começo eu sentia que era um lugar prazeroso pra mim. Nunca fico nervoso.

ESTÚDIO

Gosto de estúdio pra gravar, estúdio de ensaio eu acho um saco. Duas coisas que eu não gosto no meu trabalho: ensaiar e tirar foto. Estúdio de gravação é um dos lugares mais agradáveis pra mim. Adoro ficar no estúdio fumando um, tomando uma cerveja, criando um som. É onde eu me acho músico. Mas até que no palco.

CRIAÇÃO

Antes eu criava com mais espontaneidade. Hoje crio mais por obrigação. Não tenho mais cadernos de rascunho. Hoje em dia, criar é doloroso pra caramba. Fico na neurose pensando se vou conseguir ou não. Tenho deixado para escrever as letras sempre nos último minutos, e isso faz o processo mais doloroso.  Eu guardo alguns assuntos e depois no estúdio eu desenvolvo. Hoje em dia, estúdio e criação estão interligados.

CONSUMISMO

Sou consumista pra caralho. Adoro comprar tênis, roupa, discos…Mas, isso me deixa meio preocupado. Fico com medo que isso se torne algo maléfico para a sociedade como um todo. Os bens de consumo acabam virando status e os moleque mais probres também querem ter tudo isso. Atrapalha na formação, isso é muito fútil. Besteira…

DINHEIRO

Quanto mais dinheiro, mais problemas. Mas, no fundo dinheiro traz conforto. Fico meio abismado. Todo mundo deveria ter, casa, carro, alimentação.. Como aqui ninguém tem isso e os serviços básico não funcionam, a luta pelo dinheiro passa a ser uma luta pela sobrevivência. É desesperador. Não quero ser milionário não. O que eu tenho já está bom.

DEUS

Não sou religioso. Não tenho religião. Deus pra mim é um estado de espírito. Está dentro da gente. Rege a gente. É uma energia. Quanto mais você pratica o bem, mais terá o bem. As pessoas deviam pensar em Deus assim. Quando coloco a mão na cabeça e peço que Deus me ajude, no fundo estou querendo que se abra dentro de mim um caminho. Não estou pedindo para algo fora de mim, uma matéria, Deus. Não é isso, não.

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Celebridade do Século 21

Um dia ele já foi contra a ordem do dia. Não tinha carro, cultivava uma vasta e encrespada cabeleira e morava de aluguel na Lapa. Hoje aos 37 anos , pai de quatro filhos, Marcelo Peixoto conseguiu reverter a situação. Em 1996, Marcelo pertencia ao raivoso e contestador Planet Hemp, misturava rock, hip hop, funk, com toda a liberdade de expressão que tinha direito. Em 2005, é o Mc que faz rap com samba e desfruta das glórias do seu disco À Procura da Batida Perfeita, que já vendeu muito mais de 150 mil cópias. O Marcelo D2 do século 21 é um cara “repaginado”. Deixou de encarar o antiestablishment e assumiu seu lado celebridade e foi para a ribalta da mídia.

O que você diria pra quem te chama de vendido?

Tira o olho do meu dinheiro e corre atrás do seu. Eu sei onde meu calo dói. Se eu não for na Daslu ou no Big Brother quero ver quem vai pagar minhas contas.

Mas, nos tempos do Planet..

Nós éramos radicais pra caramba. Não iríamos no Faustão nem fudendo!

O que te fez mudar?

Eu não mudei, o que mudou foi o som. As letras do Planet Hemp eram uma coisa densa e de certa maneira não queria ir ao Faustão para ficar falando aquelas coisas tão pesadas. Com o À Procura, resolvi botar minha cara a tapa e ir ao Faustão, Luciano Huck, Jô Soares. Resolvi usar a máquina a favor da causa. Não só a causa contra a máquina.

E como a reação da gravadora [sony]?

Os caras só viram cifrão voando pra tudo quanto é lado. Meu objetivos são fazer música bem feita e entrar no mercado. Tenho 37 anos. Não quero morrer igual ao Bezerra da Silva, durango, fudido, tendo que fazer show até os 77 anos para sustentar a família.

Você não tem medo de ficar indo à Daslu e perder o público do hip hop, do skate?

Não. Eu não ando na Daslu, só entrei lá uma vez pra tocar. Como tem um garçom que trabalha na Daslu e a Daslu paga o que acha que tem que pagar pra ele. Isso não me torna uma playboy. Sou safo, sei comer lagosta como também sei comer ovo frito (risos).

Você não acha que perdeu a mão na matéria da Vogue RG (“D2 assume seu lado celebridade”)? Você está lá vendendo celular e marcas de roupas…

Não. Quando fui ao Faustão a primeira vez, entrou uma banda de axé depois de mim e eu saí falando “Pqp, onde tô me metendo?”. Aí eu pensei: “Eu já estou aqui e agora vou jogar mesmo. Vou pegar o Motorola e fazer propaganda, vou fazer propaganda de carro, de cerveja”. Mas é lógico que vou tomar cuidado, não quero que minha superexposição prejudique minha música.

Você apareceu na final do Big Brother e cantou [Pilotando o bonde da excursão.. do À procura] uma música que faz referência a maconha. Como você vê isso?

Eu não modifiquei minhas letras. Mudei minha maneira de falar com a imprensa. Não apareço mais no fantástico e fumo maconha na frente da câmera pra chocar. Pelo contrário. Você tem que saber jogar o jogo, o jogo não é só você, tem outros jogadores.

Quando começou a entrar uma grana boa?

Depois que eu ganhei meus primeiros R$ 50 com música, em 1995. Já estava bem satisfeito (risos). Comprei tudo em pó, cerveja, fui pro hotel com a mina, cheirei a porra toda e me acabei.

Você é um cara consumista?

Eu sou um cara consumista, mas não é banal. Não jogo dinheiro fora. Gosto de comprar tênis. Adoro tênis. Acho uma parada foda, não sei se é um trauma de infância (risos). devo ter uns 300 pares, sendo que uns 50 eu nunca usei. Mas não tenho aquele sonho de ter um iate, um apartamento em NY. Eu tenho ambições.

E o lance dos outros rappers falarem que você não é do hip hop de verdade?

Nunca me envolvi com o hip hop porque nunca consegui seguir uma cartilha. E se ser do movimento é seguir uma cartilha eu realmente não sou. Agora, o que faço é rap. E o que neguinho tem que baixar a cabeça e bater palma é que estou levando o rap para outro nível. Sou fã pra caralho de Racionais, mas eu não vou fazer igual a eles. Para onde o rap vai se ficar todo mundo imitando os Racionais? Desde “Sobrevivendo no Inferno”, o rap ficou num lugar-comum. Todo mundo queria fazer o próximo “Sobrevivendo no Inferno” mas ninguém nunca vai fazer porque aquele momento ali dos caras foi mágico.

Qual o papel da maconha na sua vida?

Diversão e só. Eu fumo pra ficar chapado. Não tem uma parada filosófica.

Você chegou onde queria chegar?

Musicalmente estou bem satisfeito, mas sou um cara um pouco inquieto com isso. As pessoas falam “Puta, o disco À Procura da Batida Perfeita e tal”, mas sei que não é nada perto do que eu poderia ter feito. E, se for falar de grana, tenho muito mais do que precisava. Não é luxo. É o que todas as pessoas deveriam ter: uma boa comida na mesa, um carrinho, uma casa. Eu tenho até mais do que um carrinho, mas o básico deveria ser acesso a todos.

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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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Um Brasil inquieto nos pés

Duas cadeiras brancas de boteco. Um sonzinho tomando conta daquele cantinho escondido no fundo do camarim. Uma latinha de cerveja na mão direita e um Brasil inquieto nos pés. Sambinha? Também. A parada é do Marcelo Maldonado Peixoto, ou D2, o cara que colocou o rap para brincar com o ritmo mais contagiante do país.

Marcelo D2 virou playboy?

Por que você aceitou o convite para fazer o show na Daslu?

Eu não tenho nenhum tipo de preconceito. Não deixo de tocar num lugar porque tem muito preto, muito branco, muito pobre ou muito rico. O que eu falo nas minhas músicas não é só pra pobre. Essa coisa de que todo preto é ladrão e todo playboy é racista é uma puta babaquice. Bom se todo mundo pudesse ser rico. O que faz as pessoas mesmo é a cabeça e o coração. Por isso, fui lá e toquei. Fui bem recebido pra caramba, assim como sou bem recebido em qualquer favela que eu vou. Foi um cachê alto, foi ótimo.

Por que você acha que sua música seria atraente a um público que paga mais de R$ 10 mil numa calça, por exemplo?

Dez mil numa calça? Então, meu cachê foi barato pra caralho! [rindo] Eu devo ter ganhado umas duas calças de cachê. Tem muita gente que não ganha isso na vida inteira! Então também foi um sacode nos caras, porque eu passo outros valores na minha música. Se não atingi a todos, se alguns só foram lá e dançaram, tudo bem. E é legal que os caras do rap estejam ligados com a galera que tem grana pra trazer dinheiro pro movimento. Nos Estados Unidos, o rap cresceu pra caramba porque tiveram pessoas qualificadas pro trabalho, não era só o cara do gueto.

Você é um playboy disfarçado?

Cara, eu gosto de me vestir bem, de andar com roupas maneiras. Sou vaidoso. Não sou playboy, não. Não gosto de gastar meu dinheiro com coisas fúteis. Se bem que não sei: se eu ganhasse 1 milhão por mês, comprava uma calça de 10 mil e não tava nem aí. O dinheiro é meu, vou guardar, levar pro caixão? Mas não sou playboy nem fodendo. Sou de família pobre, batalhador, trabalho desde os 14 anos, ralo pra caralho. Já fui porteiro, faxineiro.

Mas agora você tem grana, pode virar playboy…

Eu teria que nascer de novo. Isso vem de família, de quem tem muita grana. Eu sou músico, sou suburbano. Quem vem do gueto, vai sempre carregar o gueto. Posso sair dele, mas ele vem no meu coração, na minha maneira de ver. O que muda? Antigamente o churrasco era feito numa churrasqueirinha de caminhão, com carne de segunda. Agora a carne é de primeira e é feita numa puta churrasqueira maneira. Mas eu continuo fazendo churrasco no fundo do quintal com a galera.

aspas

“Eu sou daqueles que levantam, gritam, batem na mesa. Quero que todo mundo aceite a minha opinião”

“Eu esperava um governo mais radical, mas eu entendo o Lula, porque o radicalismo já fez ele perder várias e várias eleições. É melhor que ele vá conquistando a confiança do povo aos poucos”

“Já tenho filho, já fui pra cadeia, já fiz um disco: não sou mais adolescente, virei adulto”

“Nunca deixei de colocar nada [nas letras] porque era muito pesado. Muito pelo contrário: às vezes eu coloco umas paradas ali que é de propósito pra arrepiar mesmo”

“No Rio, eu era revistado pela polícia direto. Eles vêem um cara com o meu biótipo, que é de favelado, num carro maneiro ou num táxi, mandavam parar”

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