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“Nasce da alma, sem pele, sem cor”

Marcelo Peixoto sabe que caminhou pela contramão durante boa parte dos seus 41 anos.
E tem a certeza de que as suas muitas confusões com a Justiça, passagens pela polícia, prisão, ameaças de morte e brigas não lhe renderam nada mais que uma dezena de cicatrizes pelo corpo.

Como um mutante

Em relação às tatuagens, o rapper mal sabe quantas ostenta ao longo dos seus 1,70 m de altura. Tem o escudo do Flamengo, uma cruz sobre o escrito Zona Norte e o nome dos seus quatro filhos cravados em diferentes regiões do corpo. Luca, 7, está grafado em seus dedos da mão esquerda; a caçula Maria Joana, 4, mereceu uma grande intervenção acima do peitoral, assim como Stephan, 17.

“FUMO MACONHA TODOS OS DIAS. E NUNCA VOU
DEIXAR DE FUMAR, NEM DE ESCREVER SOBRE ISSO”

Viva a polêmica

D2 está recostado numa cadeira reclinável, numa sala nos fundos do número 626 da Rua Dias Ferreira, no Leblon. É lá que funciona o QG da Na Moral produções, agência do empresário Marcelo Lobatto, que cuida da sua carreira desde os tem pós do Planet Hemp, há 15 anos. “Tô muito ruim, cara. Carranca pesada de ‘quero ir embora agora!’. Esse negócio de tirar foto… Tu não sabe onde pôr a mão, o vira-lata da esquina fica latindo e enchendo o teu saco. Esse dia tava foda”, resmunga, enquanto observa as imagens de uma sessão realizada para o seu quarto álbum solo, A arte do barulho, produzido por Mario Caldato e lançado na última semana. Pede opinião, troca idéia, marca o número dos melhores cliques no papel e em frases como “Esse sorrisão fake táfoda”, “essa aqui tá natural”, “os azulejos atrás dão uma onda, hein?”. D2 é um sujeito muito ligado à imagem, “tipão” marrento que construiu à base de uma persona trangressora, impulsiva, mordaz.

Desabafo social

É o tal estilo de vida “na boa” que ajuda Marcelo D2 a focar em questões fundamentais para ele. A “falta de possibilidade” é a expressão da vez que pende de seu arsenal verborrágico. Juntam-se a ela sentenças que miram a exclusão e segregação de tipos sociais em guetos, além da retração em participarmos mais da vida uns dos outros. São as angústias que calam no peito, escorregam no lápis e explodem navoz do rapper. A bordo do single Desabafo  que recupera o refrão do samba Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro), gravado pela cantora Cláudia, em 1973  D2 reverbera seus questionamentos via estéreo 5.1. “As pessoas não têm a oportunidade de levar adiante um sentimento tão básico e nobre como o querer. Isso dá nó na garganta, porque vejo a molecada estudando em escola pública, onde os professores entram em greve e o tráfico esconde armas no pátio.” Apenas quando escreve sente-se efetivamente participativo.

A VERBORRAGIA DO RAPPER VAI PARAR NO CINEMA  LEMBRANDO DE UM VELHO AMIGO

Em parceria com o diretor Johnny Araújo, D2 elabora o roteiro para um longa-metragem. O filme, em parte autobiográfico, conta a história de dois amigos, ou seja, D2 e seu parceiro de noitadas na Lapa e de Planet Hemp, Skunk.”Foi um anjo que apareceu na minha vida. Colocou o sonho dele nas minhas mãos e partiu dessa para uma melhor.” A amizade durou três anos. Era muito forte e contraditória. “Eu era de classe média baixa, família branca, da Zona Norte e ligada ao candomblé e umbanda. Ele era da classe média alta, família negra, da Zona Sul e católica.” A partir dessas contradições, Marcelo D2 conta a história “de dois caras que buscam seu caminho de afirmação através da música.” Marcelo,  em casa, com dois dos quatro filhos, Luca e Maria Joana: pai presente.

De bar em bar

D2 tem um roteiro de chopp que  segue religiosamente: “bebo todos os dias” O caminho começa no Leblon. no Jobi, no azeitona ou no bracarense. O rolé boêmio do flamenguista criado entre os bairros do Andaraí, Catete e Glória também se estende aos pagodes da Zona Norte, como o da tia Doca, em Oswaldo Cruz, e no morro da Serrinha, que abriga a escola de samba Império Serrano, em Madureira.  O rapper, diz sentir-se em casa mesmo no bar do serafim, em Laranjeiras.

“Chego aqui a qualquer hora do dia e não preciso combinar com ninguém. o Juca (Ferreira, dono do boteco) aparece, a gente troca uma idéia e as vezes ele me dá aquela moral… não deixa eu pagar a conta.”

O MANIFESTO

“É PRECISO ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA”

O texto “serve para que as pessoas não se deixem acomodar. Caiu, levantou. Chega de viver o sonho dos outros. Tem que fazer acontecer.” Quando sinto o impulso escrevo sem pensar Tudo que meu inconsciente me grita Penso depois, não só para corrigir, Como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história…

Deixar de viver os sonhos dos outros…

Queremos cumprir nossa missão que é fazer Algo de verdade que venha do coração Nós temos a coragem do Afrosamba, De Vinicius de Moraes e Baden Powell…

A visão de Tom Jobim, Nós queremos modernizar o passado, como Chico Science falou Nós declaramos que não somos só um número E queremos escrever o nosso nome Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade A possibilidade de fazer e de participar…

Fácil de entender

A preocupação de falar as coisas na lata, para que todos possam entender o seu discurso é uma tônica no trabalho do rapper. Nada a ver com o rap “sisudo e pseudo intelectual que gosta de usar palavras rebuscadas, como a simbiose da puta que o pariu”. Bastam alguns tiros para entender que o universo dos DJs, grafiteiros e MCs é o que melhor define a atual geração jovem e o mundo globalizado em que vivemos. “Musicalmente, é o estilo que abriga todos. Você pode tacar rock, música africana e samba, como fiz agora, que vai dar caldo com o rap. É a coisa mais livre que existe.” Mas tem sempre uma galera que tenta restringir. “É que nem botar tapa-olho em focinho de cavalo”, advoga. E continua falando do aspecto globalizado da parada: “Na Praça Vermelha, em Moscou; na Palestina e até na China você encontra um cara como eu, de boné para o lado, bermudão e tênis old school.”

“QUANDO ESCUTAM A MINHA MÚSICA, AÍ, SIM, MEU IRMÃO, CUMPRO O MEU PAPEL”

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“Brincando com as palavras no meio de uma sessão”

MÚSICA

Pra mim música sempre foi diversão. É difícil definir. Pode ter música pra tudo. Pra te fazer chorar, sorrir, música pra te fazer pensar, pra curtir. Eeei, isso dá música [risos].

ROCK

Rock é atitude. Rock se define em um nome: Jimi Hendrix.

RAP

Isso pode servir para qualquer música. O rap tem também um lado muito escroto, muito comercial. Mas, acho que a atitude e a facilidade do rap de fazer as pessoas se expressarem é que me deixam intrigado. É fácil pegar um papel e escrever uma letra sobre o que está acontecendo no dia a dia. Rap pra mim, é a minha vida.

SAMBA

O samba hoje em dia pra mim significa raiz.. Já tive meu momento de não gostar de samba e só de hardcore e tal. Uma rebeldia da adolescência. Mas, pra mim samba é raiz.  O respeito pelos mais velhos, respeito por quem fez, respeito por quem faz. Acho isso muito bonito no samba. As pessoas do samba têm muito respeito, dignidade. É bonito pra caramba!

POLÍTICA

Porra cara…Se me perguntasse isso há cinco anos, eu diria que nunca me envolveria com política. Hoje, em dia eu já penso daqui uns dez, quinze anos, quando eu estiver cansado de militar através da música, entrar na política partidária. Uma pessoa que me abriu muito a cabeça para isso foi a Soninha [apresentadora de tv e vereadora em São Paulo.] Eu tenho muita admiração por ela, que é do bem total.

DROGAS

Gosto muito! Eu gosto pra caramba. Mas, tem que saber o limite. Hoje, meu corpo não guenta mais tanto. Meus cabelos brancos…

JUVENTUDE

A juventude pode ser dividida em algumas coisas. Outro dia que estava conversando com a minha cunhada. Eu acho que vou ser moleque a vida toda! Não o consigo me ver coroa [risos]. Posso fica velho, acabado, mas vou continuar me vendo meio moleque.

ARTE

É essencial. Cada vez mais eu acho essencial para o ser humano estar envolvido com arte. É bom para desenvolver os sentimentos. É bom para buscar a felicidade. Cinema, música, literatura, teatro… Tudo isso torna a gente mais inteligente. No dia a dia isso é importante pra caramba. Cultura é bom quando podemos levar para o dia a dia. Engrandece o homem.

BRASIL

Não consigo ver o Brasil como um país da América Latina. É uma país tão grande que é difícil definir o povo brasileiro. Os gaúchos, os cearenses, são tão diferentes, que é difícil dizer que são o mesmo povo.  É isso que faz o Brasil ser do caralho. Mas, politicamente acho muito difícil sairmos dessa “pindaíba” em que estamos. Mas, patriotismo eu não acho muito bom. Esse sentimento de colocar a pátria acima de tudo. Acima de tudo estão as pessoas.

RIO DE JANEIRO

Eu sou cria do Rio. Gosto muito de vários lugares do mundo. Sempre vejo paradas maneiras, mas não consigo morar fora do Rio. O Rio de Janeiro sou eu. As pessoas que moram aqui são iguais a mim. É a minha cidade!

VIOLÊNCIA

O mundo tá violento pra caramba. A grande culpada disso tudo é essa forma de tratar essa coisa do vencer, de ser alguém. Isso de precisar ter o tênis tal, o carro tal. Essa coisa de precisar ter. Você junta isso com a desigualdade social, a miséria, a má distribuição de renda. Isso gera muita violência. Eu moro num lugar onde ouço tiros todos os dias, é normal! mas, se eu pensar que esse tiro, mata alguém..Isso não pode se transformar numa coisa normal. Como é todo o dia, a gente se acostuma.  E isso é o pior: a gente vai se acostumando. Quando eu era moleque morava numa área perigosa, mas quando ouvíamos um tiro, era um acontecimento. Hoje, é normal.

AMOR

Essa palavra sempre esteve fora do meu dicionário. Meus filhos me ensinaram. Minha mulher também. Um simples ato de amor vale mais do que qualquer coisa. Meu filho vir dar um beijinho no meu joelho machucado é amor. Parece até que a dor passa.

FAMÍLIA

Família sempre foi importante para mim, mesmo tendo tido uma relação familiar meio confusa. Meus pais nem eram tão presentes assim no meu crescimento. Sabe como é família classe média baixa…Eu tento ser mais presente para os meus filhos. Mas isso nem é o mais importante. Amor de família é uma proteção. É muito bom saber que tem gente que se preocupa contigo. Hoje eu tenho a minha família, a família que eu formei e hoje eu posso dizer que é estável.

FILHOS

A melhor coisa. Não tem amor igual de um filho. E quanto mais filhos você tem mais dá vontade de ter outros. Tenho quatro e cada um é uma figura totalmente diferente. Mas, todos me têm como elo. Os filhos são o melhor amor do mundo. Quando teu filho nasce, você entende o sentido da vida.

AMIZADE

Eu tenho as minhas amizades como se fossem minha família. Gosto muito dos meus amigos. De ter amizades reais. Depois de fazer sucesso, pinta muita gente querendo ser teu amigo, não só por interesse, mas por admiração. Meus amigos têm coisas pra me passar, valores…Tenho poucos amigos, mas são amigos mesmo. O Yuka já falou “Família não é sangue, é sintonia”. Amizade é isso aí. Nem precisa estar falando direto e tal, mas quem é amigo é amigo mesmo. Na hora que encontrar vai ter a mesma intimidade.

JUSTIÇA

Porra cara…Falar de justiça num país como o nosso…Aqui a lei é feita para reprimir. Não é para ser justa. Não existe justiça no Brasil.

TECNOLOGIA

É importante, mas não é tudo. As pessoas estão escravas do avanço tecnológico. Todo mundo tem que ter celular, câmera digital, computador. Acho isso uma escravidão. Vejo meu filho de 13 anos dizendo que tem que ter celular. Outro dia teve uma situação engraçada. Fui com ele na escola e fiquei de papo com os amigos dele. Um me perguntou o meu email e o Stephan disse: “Meu pai não tem email, não!” E todos caíram na gargalhada, incrédulos…Não é a tecnologia que faz o mundo girar e sim o homem. Hoje parece que as pessoas jogam tudo para a tecnologia. Sou do tipo que prefere falar pessoalmente. Hoje, qualquer um grava disco, afina a voz, sampleia…É sinistro.

FUTURO

Se for pensar em futuro a longo prazo, eu digo que o ser humano vai acabar com o mundo [risos].

PRESENTE

Não posso reclamar, minha vida está boa. Estou me sentindo amado, amando, fazendo o que gosto… Minha família está na boa.

PASSADO

Tento não reclamar do passado. A minha infância foi boa para eu aprender a tirar o melhor das coisas. Nesses últimos anos, eu trabalhei muito. Nos últimos 20 anos eu trabalhei muito mesmo. Muita luta. Mas é foda quando a gente percebe que o passado vai ficando maior que o futuro. Acho que estou no meio. Viver até os 74 tá na boa.

MULHER

Gosto muito. Eu tenho fascínio pelo sexo oposto. É foda! Sou mulherengo mesmo. A Camila deve sofrer com isso. Eu já tive problemas e devo ter causado muitos problemas para as mulheres. Mas agora…Eu nunca me acertei tão bem com a Camila. Acho mesmo que vai ser pelo resto da vida. Mulher pra mim agora é sinônimo de Camila.

SEXO

Sexo é foda! Quando eu era mais moleque queria sair trepando com todo mundo. Hoje, é uma parada de risco legal. Uma menininha nova, bonitinha, pode ser o fim da tua vida. Não dá pra pensar em sexo sem ser seguro. Pra mim, o melhor do sexo, era fazer a qualquer hora com qualquer pessoa. Não dá mais para ser assim.

MODA

Acho que a palavra moda é uma besteira. A grande sensação do lance é ter estilo. Quem anda na moda, vai sair da moda. Mas quem tem estilo não.

PALCO

É o lugar onde eu mais me sinto à vontade. Acho que até mais que na cama. No palco não sinto medo de nada. Me transformo numa pessoa que na vida real eu não consigo ser. Não consigo relaxar tanto quanto no palco. Ser eu mesmo e foda-se. Eu saio do palco e já vem um escudo protetor dizendo que eu tenho que ser mais malandro, ali, mais gentil, e assim por diante. No palco não tem essa. Sou do jeito que eu sou e pronto. Desde o começo eu sentia que era um lugar prazeroso pra mim. Nunca fico nervoso.

ESTÚDIO

Gosto de estúdio pra gravar, estúdio de ensaio eu acho um saco. Duas coisas que eu não gosto no meu trabalho: ensaiar e tirar foto. Estúdio de gravação é um dos lugares mais agradáveis pra mim. Adoro ficar no estúdio fumando um, tomando uma cerveja, criando um som. É onde eu me acho músico. Mas até que no palco.

CRIAÇÃO

Antes eu criava com mais espontaneidade. Hoje crio mais por obrigação. Não tenho mais cadernos de rascunho. Hoje em dia, criar é doloroso pra caramba. Fico na neurose pensando se vou conseguir ou não. Tenho deixado para escrever as letras sempre nos último minutos, e isso faz o processo mais doloroso.  Eu guardo alguns assuntos e depois no estúdio eu desenvolvo. Hoje em dia, estúdio e criação estão interligados.

CONSUMISMO

Sou consumista pra caralho. Adoro comprar tênis, roupa, discos…Mas, isso me deixa meio preocupado. Fico com medo que isso se torne algo maléfico para a sociedade como um todo. Os bens de consumo acabam virando status e os moleque mais probres também querem ter tudo isso. Atrapalha na formação, isso é muito fútil. Besteira…

DINHEIRO

Quanto mais dinheiro, mais problemas. Mas, no fundo dinheiro traz conforto. Fico meio abismado. Todo mundo deveria ter, casa, carro, alimentação.. Como aqui ninguém tem isso e os serviços básico não funcionam, a luta pelo dinheiro passa a ser uma luta pela sobrevivência. É desesperador. Não quero ser milionário não. O que eu tenho já está bom.

DEUS

Não sou religioso. Não tenho religião. Deus pra mim é um estado de espírito. Está dentro da gente. Rege a gente. É uma energia. Quanto mais você pratica o bem, mais terá o bem. As pessoas deviam pensar em Deus assim. Quando coloco a mão na cabeça e peço que Deus me ajude, no fundo estou querendo que se abra dentro de mim um caminho. Não estou pedindo para algo fora de mim, uma matéria, Deus. Não é isso, não.

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“Quero marcar minha vida”

Maconheiro, cabeludo, pai de família e líder do Planet Hemp. Aos 28 anos, Marcelo D2 solta o verbo e acende a polêmica.

Você acha que a maconha pode ser colocada na mesma prateleira que o álcool e o tabaco que são produtos legalizados?

Eu acho até que o álcool e o tabaco sofrem um tratamento muito incorreto na forma como são vendidos e na maneira como são vistos. A maconha faz muito menos mal que o álcool. Isso é um papo até chato que nunca termina, mas se houver uma conscientização do uso correto, você pode sobreviver com isso. Como se fosse beber um chopp no final do dia ou fumar um maço de cigarro por dia são prazeres que compensam o eventual prejuízo mental.

Como está essa parada da polícia atrás de vocês?

Acho até que demorou esse papo da polícia atrás do Planet Hemp. Nosso disco demorou um tempo para pegar, depois foi crescendo naturalmente. O que queremos é cutucar esse tipo de gente, essa coisa toda, movimentar o assunto. Fazemos o nosso trabalho, é justamente aquilo que a gente tenta denunciar. Exatamente os papos que falamos nas nossas letras. A coisa já começa a aparecer.

Você não tem medo de uma atitude exacerbada e violenta, motivada pela ignorância a liberdade de expressão?

Não de jeito nenhum. Eu tenho medo pra caralho. Mas isso tudo foi a gente que escolheu. Um papo que decidimos fazer.

Conte como foi aquela coisa do Skunk?

Eu trabalhava como camelô. O Skunk era um puta amigo nosso, quer dizer, ainda é. Ele morreu há dois anos. Mas, ele ainda está muito presente. A gente resolveu fazer um lance de cutucar mesmo. Ele falava: “Vamos lá cara, vamos tocar”, ele já estava doente, mas eu nem sabia. Acho que ele pegou o vírus através do sexo. Ele não tinha nenhuma relação com drogas injetáveis, nós morávamos na Lapa, boemia total. E ele era uma cara meio louco por essas coisas, por putaria, boate, striptease.

Quando vocês resolveram montar a banda?

No final de 92. Já éramos bem amigos.  A área é linda lá na Lapa. A malandragem é a mesma, só mudaram as roupas. Ninguém usa roupa de seda, só tênis e bermudão.

Você ainda guarda lembranças dos clássicos malandros da Lapa?

O lance é o seguinte: eu gosto de viver ali, não sou saudosista, nem acho tudo lindo. Mas aquilo é parecido e a galera acabou caindo ali. Não tínhamos um ídolo como Madame Satã ou a galera que ia lá. É o estilo de vida que é parecido.

Quem é o mais chato da banda?

É o Bacalhau. Ele fala pra caralho e ninguém entende porra nenhuma. Ele tem um dialeto próprio. Só com o tempo e convivência, você começa a entender o que ele fala. Eu gosto dele pra caralho, todo mundo gosta.

O que você acha do Caetano Veloso?

Algumas coisas do trabalho dele são boas, do começo da carreira. Ele é uma pessoa inteligente. Conheço ele, mas ele nunca me influenciou. Vejo ele como exemplo de músico brasileiro, como o Bezerra da Silva que depois de anos de carreira ainda continua fiel ao seu trabalho. Mas essa glamourização do Caetano pega um pouco mal, isso de sair na Caras.

O que tem de novidade em termos de música, intérpretes, manifestações artísticas?

Tem duas coisas que me emocionam: samba e Chico Science e Nação Zumbi.

Fale de sua cabeleira. Foi inspirada pelo Caetano e a Gal ou pelo Urso do Cabelo Duro?

Teve uma época que eu disse: “Não vou mais cortar meu cabelo, quem disse que eu tenho que pentear meu cabelo?” Foi bom para relaxar e não ficar me preocupando com o cabelo.

Como são suas roupas nos shows e fora deles? São as mesmas?

São as mesmas, com certeza. Visto as roupas do dia a dia, se for para um reunião, entrevista ou mesmo andar de skate, fazer um show. Não tem pré produção. Claro que algumas vezes você quer ficar gato num show e põe um jeans limpo, um tênis novo.

Você já fez algum show de terno?

Uma vez fiz uma música de terno na Mtv.

No ano passado vocês lançaram o disco Usuário. E agora, vocês já estão gravando outras coisas?

Esse disco demorou um pouco para pegar. Fizemos um anos de turnê e o disco vendeu 20 mil cópias. Seis meses depois a gente repetiu a turnê e as músicas começaram a tocar nas rádios, mesmo com a resistência delas com o Planet Hemp. Gravar um disco por ano não é possível para a banda. Mas estou disposto a fazer uma pré produção. O produtor do Beastie Boys, o Mário Caldato, que é brasileiro, vai produzir o disco da gente, que será mixado lá fora.

Qual a sua opinião sobre os diretores artísticos de rádio em geral?

Quando o assunto é negócio se explora muito pouco as coisas aqui no Brasil. O marketing é muito mal feito. As rádios são fracas, pouco segmentadas.

Se você tivesse uma rádio como iria programá-la?

Na verdade, a gente está com um projeto de fazer uma revista esse ano ainda e uma radiozinha para o ano que vem.

E ela seria sobre o que..maconha?

Sobre maconha, skate e a banda, o nosso universo e as nossas histórias.. A capa da primeira edição traria a viagem de Amesterdã e o Cannabis Cup.

Você fez essa viagem ano passado com a equipe da Revista Trip. Você foi fuçar ou como assistente de reportagem?

Acho que um pouco dos dois (risos). Mexeu muito com a minha cabeça, sou classe média baixa, nunca tinha saído do país e encontro um lugar que a maconha é legalizada, é um país de primeiro mundo, onde as coisas funcionam. É maravilhoso, deu pra descolar uns cinquentinha (risos).

Quando você pensa: “Eu quero que aconteça o seguinte”. O que imagina?

Eu quero uma vida estável. Dar uma vida legal para eu filho, fazer um som. Eu não paro para pensar muito, minha vida muda de ano em ano.

Você pensa em se casar?

Já casei uma vez, tive um filho, o Stephan. Penso em casar de novo, tenho 28 anos.

E a vida espiritual? Tem alguma religião ou afinidade com o além?

(risos) Não, não tenho. Meus gurus são as pessoas com quem eu toco, meus amigos. Meu pai era católico, minha mãe umbandista, eu sei mais ou menos o que é ter uma religião. Respeito, mas não mexo. De vez em quando eu preciso pensar um pouco, me retirar, conversar um pouco com o além. Mas não tenho tempo.

A maconha acaba cumprindo essa função?

Com certeza, me dá uma certa paz, fico sossegado.

Mas, você acredita em Deus?

Acredito. Mas não tenho essa relação de me ajoelhar, pegar na cruz. A única vez que a gente fala com Deus é quando faz alguma coisa errada e diz “Aí meu Deus” (risos).

Você disse que estava pensando em mudar o visual?

Esse cabelo quase ninguém tem e sou uma pessoa publica, não muito bem vista. Ele é uma marca registrada. Mas penso em dar uma cortada porque tem muito olho gordo e se tornou alvo de críticas. Vou raspar e deixar crescer tudo de novo.

Fale da sua saúde. Da sua relação com o seu corpo..

A única preocupação que eu tenho com a saúde é a alimentação. Gosto de comer carne e comida japonesa. Gosto de me alimentar. Com relação aos esportes, ando de skate desde os onze anos. Me quebra todo, só faz mal para os ossos (risos).

Você tem medo de envelhecer?

Eu sou velho. Tenho 28 anos. Novo, novo, só com menos de vinte anos. Não tem como se preocupar. A maioria das pessoas que eu gosto são mais velhas do que eu. Ainda vai demorar.

Cada vez mais falasse muito em jovem: jovens aqui, produtos para jovens. Afinal quem é esse tal de jovem? Você conhece?

Cara, eu acho que se esse jovem bobear, ele vai acabar virando um nerd, retardado. Essa coisa toda de jovem não tá com nada. O jovem não existe. Vou estar com 40 anos e continuar a usar o bermudão, andar de skate e ler as revistas que eu gosto.

Vocês têm alguma ligação com entidades que são a favoráveis à legalização da maconha?

Eu conheço o Fernando Gabeira, uma pessoa com uma história interessante. Mas uma coisa que a gente sempre se preocupou foi de não se envolver com política. Quem tem que mobilizar a legalização da maconha é o governo.

O editor da High Times, Steven Hager, ouviu o disco de vocês e gostou. Mas achou que a energia de vocês vinha de  raiva, isso é verdade?

É deu pra ver que ele ouviu o disco e entendeu bem pra caralho. O som do Planet é consequência da vida que a banda levou. Somos da classe média baixa, apanhamos a vida inteira da polícia, não podemos entrar numa faculdade, isso gerou uma certa raiva. Sou controlado até certo ponto. E sei que não adianta canalizar essa raiva para a violência.

E o próximo disco de vocês? Também é raivoso?

Vai vir raivoso. Talvez ainda mais que o outro. Aprendemos a produzir e a fazer música do jeito que gostamos. Cada vez mais vamos conseguir gravar do jeito que a gente quer.

Qual foi a pior roubada que você se meteu?

Foi com uns seguranças. Quando a gente estava gravando um disco. Levei vários pontos. Na verdade tem muita gente que não está acostumada a ver o que rola nos nossos shows: o som, o público, a energia. Me falaram que os policiais estavam dando porrada em todo mundo, no Olympia em São Paulo. E eu, como o cara que as pessoas foram lá pra ver, não ia deixar de jeito nenhum os policiais baterem na molecada.

Quais são suas bandas brasileiras preferidas?

Barão, gosto do Ira!… que é a banda mais rock’n’roll do Brasil. Nos anos 80, gostava do Defalla. O Sepultura a gente até esquece que é brasileira, mas respeito pra caramba. Hip hop gosto do Thaíde, mas o estilo é muito perdido no Brasil. As pessoas confudem o estilo com o dos Estados Unidos. Se eu fizesse hip hop faria com a linguagem do samba. O que mais pega no som do Planet é hip hop, rock anos 70, hardcore e funk.

Qual sua opinião sobre o Raul Seixas?

Eu gosto do Raul. Aquela coisa do maluco beleza foi algo que o Brasil precisou. Só acho uma coisa legal nele: fala as coisas do jeito que ele acha que tem que ser faladas. Aqui no Brasil tiveram coisas muito marcantes como o Raul, Os Mutantes, O novos baianos, que inclusive me chamaram para gravar uma coletânea. O disco é pra comemorar os 25 anos de uma banda que já falava de maconha e sofria toda essa repressão.

O Hendrix foi uma referência?

Ele é um dos que eu mais gosto. (D2 mostra a tatuagem do Jimi em seu braço) Gosto muito de George Clinton, James Brown, Jimi Hendrix e Bezerra da Silva. São quatro grandes músicos que eu admiro muito. Bob Marley influenciou nossa postura, mas não nossa música.

Alguém tem formação musical no Planet Hemp?

Todo mundo é autodidata. Uma cosia que sempre nos deixa preocupado é fazer um som com a nossa proposta. Todo mundo briga. Mas na hora de compor tudo fica tranquilo.

Nos jornais o que você lê?

Esportes, caderno cultural. Política nunca.

E programas de tv, o que você assiste?

É muito difícil ver alguma coisa na tv. Quando estou em casa ponho um vídeo, principalmente de skate e pornô. Vejo MTV também, pra ficar bem informado sobre o meio musical. Eu sou apaixonado por videoclipe, é uma maneira legal de você mostrar o seu som. Gosto de cinema também.

Você não fica cansado de fumar maconha?

Às vezes cansa, não dá para fumar toda hora. Eu não consigo fumar e sair no sol, essa coisa tropical que tem em volta da cultura da maconha, eu não consigo fumar e ir para a praia fumar mais um. Gosto muito de fumar e toca, de fumar e brincar com o meu filho, parece que eu entendo ele melhor, começo a viajar, a gente joga bola, anda de velocípete no prédio…

E o LSD, o que você acha do ácido?

Acho bom, mas é uma coisa que as pessoas não podem usar. Quem não sabe lidar, não pode tomar de jeito nenhum. É uma droga problemática, abre portas que as pessoas não conhecem, elas precisam de um suporte emocional para isso.

E as outras drogas?

Eu não gosto, já experimentei de tudo. Agora estou sossegado. Só fumando meu baseado e tomando o meu choppinho.

E o Stephan (filho de quatro anos, do primeiro casamento de D2) começar a fumar maconha?

Aí entra na porrada (risos). Não, tou brincando. Eu vejo ele muito pouco, estou sempre viajando. Lá em casa a gente tem uma relação muito sossegada. Ele tem que fazer o que quer, produzir, trabalhar, sem que a maconha ou qualquer outra coisa atrapalhe o seu desenvolvimento. Ele gosta de ir aos shows, de conhecer pessoas. Já levei ele pra conhecer o Chico Science e a Nação Zumbi. Se bobear vai ter uma relação legal com música.

Como é a relação com a sua mãe?

Mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas dois anos pra cá consegui mostrar para os meus pais que a maconha não me faz mal, não me atrapalha. Eu tenho direito de fumar, assim como meu pai e minha mãe têm o direito de beber uma cervejinha.

Quantos baseados vocês fuma pro dia?

Tem dias que não fumo, tem dias que eu quero ficar em casa, não quero sair ou fumar. Geralmente são três, quatro, cinco..Isso quando não estou fazendo nada, não tem show, gravação. É engraçado nos shows as pessoas gostam de nos dar maconha de presente. Sentem-se orgulhosas de botar um. Eu acho do caralho.

E você na situação de cabeludo e tatuado como se sente numa reunião com uma gravadora ou empresa, com caras todos engravatados?

Essa é uma coisa legal porque o Planet luta contra essas coisas, esse papo todo da maconha vem por cima do preconceito. A mãe do meu filho conversou comigo sobre o fato dele começar a sofrer na escola, com os amigos. Acho que quem tem preconceito não merece amizade. No trabalho sou super profissional, não importa se sou cabeludo, tatuado, bonito ou feio pra caralho.

Quantas tatuagens você tem?

Não sei, umas sete, oito, dez sei lá. Eu gosto de tatuagens. Quem fez minhas tatuagens foi o Hudson no Rio e o Hunky Punk lá em Amsterdã. A tatuagem é uma cicatriz que você escolhe. “Meu filho nasceu, quero tatuar o nome dele no meu peito.”

O que você gosta de fazer quando não tem show. Apresentação ou gravação?

Todos os dias tem show ou gravação. Nesses últimos dois anos, não teve um dia que eu acordasse e não falasse as palavras: PLANET HEMP.

E com relação ao dinheiro, a gravadora paga o que vocês merecem?

Cara, tá provado que gravadora não paga e não vai pagar nunca. A não ser que você venda que nem o Roberto Carlos ou o Michael Jackson. Ninguém ganha dinheiro com discos, ganha dinheiro com shows. Eu tenho uma casa que não é minha, pago aluguel, mas consigo comer todos os dias e me dar ao luxo de comprar alguns cds. Isso é o mínimo, não é luxo.

Você consegue perceber que sua conta bancaria é uma curva que aponta pra cima?

Vem aumentando. Minha vida tá melhorando financeiramente nesse último ano. Meu filho nasceu numa das piores fases da minha vida, quando estava desempregado e nem me preocupei com isso. O dinheiro em sim não traz felicidade.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando teve grana?

Cem gramas de bagulho (risos). Era pouca grana, não dava nem para comprar uma tv.

Quando custa um show do Planet Hemp?

Não vale a pena falar. Tem vários preços e na verdade a maneira da gente trabalhar é diferente das outras bandas. Geralmente fechamos com a casa de shows uma parte da bilheteria. Todo mundo acaba saindo satisfeito.

Você conseguiria morar fora do Brasil?

Tenho vontade de conhecer, agora morar o resto da minha vida em outro país, acho que não. Queria passar um tempo nos EUA, na Europa. Você aumenta sua visão de mundo.

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“O samba é um companheiro. Desses que o coração não trai.”

O Marcelo D2 já traiu e já foi perdoado, mas não perdoaria que o traísse. Jura que sempre quis sossegar. Só que acha difícil não cair em tentação. Quando cai, fica se sentindo culpado. Apaixonado e fiel como nunca, Marcelo se pergunta: “Será que estou virando mulher?” Definitivamente não.

Dilemas de D2

Tem o sotaque mais carioca do mundo e chama as mulheres de “mulé”. Estamos diante do clássico malandro, o sujeito cheio de ginga, gosta de cervejinha com pão e carne assada. Esse é o Marcelo D2, galinha mas “sangue-bom”.
Marcelo Maldonado foi criado no Andaraí na Zona Norte do Rio. Foi camelô e vendedor de móveis. Em 95, lançou seu primeiro disco com o Planet Hemp, Usuário, vendeu 300 mil cópias. O segundo, Os cães ladram mais a caravana não pára, chegou a 350 mil cópias. Reconhecido no continente do rap como estrela de primeira grandeza.
Malandro, faz sucesso com garotas. E Marcelo já desfrutou – e muito – desse sex appeal. Assume que já transou com várias fãs. Até com mais de um ao mesmo tempo. Não conta com quantas mulheres já ficou na vida. Casado com Camila, mamãe de dois filhos com D2, fazem companhia para Stephan e Lourdes, filhos de outros dois casamentos do rapper. Hoje, Marcelo está mais do que nunca na fase: “malandragem dá um tempo”.
Durante a entrevista que você lê a seguir tomou vários copos de coca cola e comeu um pote de geléia de mocotó – nada de maconha.

Vocês está mais sossegado?

Eu gosto muito de beber, mais estou maneirando. Não bebo mais todo dia, só umas quatro vezes por semana (risos).

Você está fiel?

Fidelidade de sentimento é fácil. Difícil para mim é não ter relações com outras pessoas. Agora eu sou fiel, não tem me seduzido tanto o peito ou a bunda passando na rua. Mas, ainda sou mulherengo pra caramba. Gosto de ver a foto de uma mulher nua. Adoro olhar uma Playboy. No meu estúdio ponho na parede um monte de mulher pelada. Só não coloco em casa porque a Camila não deixa. Mas ela gosta de mim do jeito que eu sou. E adorar mulher faz parte disso.

Parece que para você é difícil controlar os instintos sexuais..

Eu sempre quis ser fiel! Quando arrumava outra mulher, voltava com um enorme sentimento de culpa. Me achava um filho da puta, ou ficava pensando que a relação estava ruim. Muitas vezes cogitei abrir o jogo, mas não acredito em relacionamento aberto – não dá para contar que tá tendo um caso fora do casamento, tira todo o romantismo da história.

Você já foi traído?

Que eu saiba não. Mas tenho algumas desconfianças.

E qual seria sua reação se isso rolasse?

Chorar (risos). Ia ficar muito triste. Ia virar as costas e sair fora. Nessas horas, prefiro me trancar, ficar na minha.

Quando você traiu não ficou paranóico achando que podia ser traído também?

Claro que sim, pensava que estava fodido. Mas comigo sempre achei que estivesse tudo às claras – todo mundo sabe que eu catei várias mulheres, mesmo estando namorando ou casado. Acho que não desculparia quem me traísse, como já me desculparam várias vezes (risos).

Você acha que mulher tem tendência a desculpar mais?

Mulher sempre acha que a coisa vai dar certo. Eu estava até falando com um amigo outro dia: “Pô eu estou o maior apaixonado, fiel, será que estou virando mulher?”

Você está casado pela terceira vez, acha que um casamento pode durar para sempre?

Hoje não consigo pensar em viver sem a Camila. Imagino comprar uma casa de praia e ficar velhinho com ela, encher o carro de criança. Acho que não vai acabar, mas a gente nunca sabe. Tive relacionamentos maneiros, mas todos acabaram horríveis. Por isso, se não estiver dando certo, melhor não insistir e cair fora, tá ligado?

Você está sempre namorando ou casado?

Se eu ficasse sozinho ia ficar maluco. Minhas mulheres sempre foram confidentes, companheiras. Mulher é um super amigo que você ainda vai lá e come. Não é ótimo? Namoro direto desde os 15 anos. Comecei e não parei mais. Nunca fiquei um dia sozinho. Sempre fui assim, conheci uma menina e terminei com a outra pra ficar com ela. Não consigo ficar uma semana sem namorar, de jeito nenhum.

E já namorou mais de uma ao mesmo tempo?

Ah..já. Mas, é foda, proque na real sempre me senti culpado por isso. Tem carinho envolvido e, depois do sexo, você já fica pensando: “Porra, o que foi que eu fiz?”. Mas, já tive namorada no Rio, São Paulo, Curtiba, Porto Alegre. Umas já sabiam que eu tinha mulher, pois sempre tive umas duas oficiais (risos). Era muito louco. Uma namorada ligava de São Paulo para o Rio e eu falava: “Não, não vem pra cá, pelo amor de Deus.” Quem se envolveu comigo, já sabia que eu não prestava, tá ligado?

Você acha que dá pra amar duas pessoas de uma vez só?

Acho que sim. E ainda dá pra trair as duas (risos). Já fiz isso. Você não acha possível?!

Acho que mulher é diferente. Somos mais exclusivistas..

Mulher é mais apaixonada né? Mas, eu acho que se são amores diferentes dá pra rolar. Você tem uma mulher que é mãe e companheira. A outra é sua amiga de droga e tem uma foda incrível. Você gosta de cada uma de jeito diferente.

Você já transou com mais de uma mulher ao mesmo tempo?

Já cara. Já realizei todas as minhas fantasias, tá ligado? Todo homem sonha em transar com duas mulheres, ver as duas transando. Na hora é legal, você acha o máximo. Mas, essas transas não estão no meu top 10. Muitas vezes o sexo bem mais normal é melhor.

Você já mediu o tamanho do seu pinto com régua?

Já medi. Mas não vou contar quanto deu. Posso dizer que tirei a maior onda no colégio. Se fosse pouco eu ia dizer: “Não isso não tem importância” (risos).

Você é muito assediado pelas mulheres?

Muito. Antes tinha que dar uma idéia nas minas. Hoje, muitas só faltam tirar a roupa, tem mulher que chega beliscando a minha bunda. Me puxando. Às vezes eu tenho vontade de falar: “Então paga”. Elas parecem homem mexendo com garota na rua.

Acontece muita coisa absurda?

Acontece. Um dia eu estava sentado no palco e chegou uma menina: “Me dá alguma coisa? Me dá seu relógio?” E eu: “Não, esse relógio eu comprei, gosto dele.” E ela: “Então me dá sua camisa?” “A camisa eu ganhei, gosto dela.” Eu acabei dando um pedaço da madeira do palco que estava no chão. E a menina saiu comemorando. Um absurdo. Fico pensando, “será que as pessoas não entendem o que a gente fala?” A gente não é igual ao Daniel, não procuramos esse glamour.

Você é um sujeito vaidoso?

Pra caramba. Vaidade não é só se preocupar com o corpo, essas coisas, mas querer ter estilo. Gosto de comprar roupa, fazer tatuagem. Tenho mania de tênis. Acho que é um trauma de infância, tenho mais de 300 pares, um monte que nunca usei. Sempre que eu viajo trago uns três.

Se sua filha namorasse um cara como você, qual seria sua reação?

Acharia ótimo, tá ligado? Sou um cara carinhoso. Corro atrás das minhas paradas. Só não ia querer que ela sustentasse malandro.

Você é ciumento?

Sou ciumento até com o meu tênis, o sofá, com os meus cds, com os meus camaradas. Mas, me controlo.

Já levou um pé na bunda?

Uma vez, levei. Eu era muito afim de transar com uma mina. Aí, quando rolou, a gente foi para um motel e eu brochei. Estava querendo a parada que não consegui segurar. Aí, depois o sexo não era muito bom, era meio caído, sabe? Ela acabou me dispensando. Disse que ia pra França ficar com um cara. Não sofri muito.

Sexo com amor é diferente?

No fundo, sou daqueles que acham sexo, mesmo quando é ruim, bom. Só que agora, só a Camila está me satisfazendo. A gente tem uma vida sexual muito intensa. Procuramos fugir da rotina. Vamos para o motel, namoramos na praia.

Você já fazia sucesso com as mulheres antes de ser famoso?

Não, mas eu sempre fui muito atirado. Quando eu era moleque, morava no morro, tinha roupa e cara de garoto pobre. Ia nas festas, na maior cara-de-pau dá em cima das patricinhas. De algumas eu levava o fora, mas levava outras também.

Já aconteceu de você ficar com alguém quando estava chapado, achar aquela pessoa o máximo e depois perceber que não tem nada a ver?

Já aconteceu de ficar um final de semana viajando de ácido com uma pessoa, achando que estava apaixonado que tinha encontrado o amor da minha vida. Depois que passou a onda, não era nada daquilo. Sinistro..

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O sagaz homem fumaça

“Na cadeia, pra te falar a real, a gente dava é risada.” Com essa frase o rapper Marcelo D2 colocou abaixo aquilo que a  imaginava ser a causa de sua pior noite: a prisão. Normal imaginar isso, mas talvez não para o Planet Hemp em 1997. Foi nesse ano que a banda foi parar atrás das grades após um show em Brasília, acusada de fazer apologia às drogas. Foram oito dias presos a espera de que algum habeas corpus pudesse livrá-los. “Ano passado fez dez anos de prisão. Caralho, devia ter feito uma festa, né? Uma festa de dez anos da prisão do Planet Hemp”, lembrou D2 às gargalhadas.

E realmente não faltam motivos para o rapper não classificar as noites de cadeia como as piores de sua vida. Alguns meses depois de ser solto ele perdeu seu principal parceiro: o pai. “Na cadeia tinha jeito, sabe qual é? Com o coroa não”, disse. “Foi aquela noite que eu pensava: agora fodeu. Não conseguia pregar o olho, acho que fiquei três dias acordado.”
E mais, para tornar ainda menos traumática a passagem pela cadeia, a repercussão do episódio fez os cofres da banda ficar ao melhor estilo Tio Patinhas. “Quando eu saí tomei um susto, comprei uma casa logo na seqüência. Se tu passa oito dias na cadeia e compra uma casa é um puta negócio”, ria D2.

Mas e as suas melhores noites, Marcelo? “Geralmente a melhor noite tem sexo no meio. Não vou falar, senão isso vai dar merda pra mim.” Compreensível.

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Baseado em Fatos Reais

Madrugada adentro, jogava um bilharzinho na av. Mem de Sá, no coração da Lapa carioca. Prédios centenários, travestis, prostitutas, bandidagem e rapaziada compunham o ambiente do histórico pedaço. O local foi berço de uma das mais fascinantes figuras da mitológica malandragem carioca, o Madame Satã. Meu guia nesta aventura pelas quebradas do Rio de Janeiro é o polêmico vocalista da banda Planet Hemp, o destemido Marcelo D2.
D2 teria como missão mostrar  os locais da cidade maravilhosa que considera os picos mais importantes e que frequenta habitualmente.

No momento em que põe os pés nas ruas, Marcelo é requisitado a todos os instantes para dar autógrafos, cumprimentar os fãs, conversar com os motoristas de táxi. Caminhando ao seu lado é impossível ficar no anonimato.  “Eh, mermão, maconheiro também é gente”, diz D2, caminhando pela cidade.

Depois do Planet Hemp ter lançado o míssil sonoro “Os cães ladram mas a caravana não pára”, que já vendeu mais de 300 mil discos, D2 volta à cena com o maravilhoso trabalho solo: “Eu tiro é onda”. Um lançamento que, pra início de conversa, vem desmistificar esta história de que o seu trabalho é modismo ou coisa passageira. Sem sombra de dúvidas, é disparado o melhor disco do ano em território tupiniquim. As doze faixas são um híbrido de hip hop com samba do crioulo doido e causará um abalo sísmico na mesmice e pasmaceira que impera no pouco criativo cenário da MPB (blergh). Baseado em fatos reais, vamos acompanhar sua saga pelo Rio de Janeiro.

Na tranquila e simpática rua Mário Portela, em Laranjeiras, está a casa, estúdio e laboratório alquímico de D2. A princípio,conseguimos algo que nem a Sharon Stone lograria, isto é, acordar Marcelo às 10 horas da manhã. Normalmente, D2 levanta-se de seu sarcófago entre quatro e seis horas da tarde. Completamente chapado de sono, D2 foi para o banho. Nesse ínterim começamos a xeretar e vasculhar todos os recônditos do seu lar.

Acreditem se quiser, a casa prima pela limpeza e conforto. Tudo se encontra muito bem organizado, a começar pela geladeira, totalmente recheada de produtos. Ele possui na sua coleção de CDs mais de 500 títulos com o melhor do hip hop, rap, samba, funk e jazz do planeta. Marcelo é fã de música negra. Na cabeceira de sua cama um livro de autoria do lama tibetano Chagdu Rimpoche faz parceria com dezenas de revistas de mulher pelada e de skate. A organização da casa fica aos cuidados de Sandra, que dá um trato total no ambiente e faz a comidinha caseira.

Quando íamos saindo para pegar o filho de D2, Stephan, que entra na escola às 12h30, a mãe de Marcelo surgiu porta adentro. Dona Paulette é fã número um do filho e confessa nas entrelinhas que se amarra no som que ele faz. Marcelo comenta: “Cara, minha mãe quando vai nos shows se diverte muito. Ela é minha principal tiete”. A mãe, toda orgulhosa do rebento, exclama que ele é realmente o máximo.

Na porta da escola, Stephan, é puro amor diante do pai. D2 se despede e vamos ao seu restaurante predileto bater uma chepa. Retornando à Lapa caímos no restaurante Nova Capela. O local é um clássico na história do bairro e do Rio de Janeiro. A frequência vai desde figuras globais a notórios bandidos de capa preta.
Depois do almoço, circulando pela Lapa, fomos dar de frente nos escombros do antigo templo da música brasileira, o Circo Voador. O reduto foi fechado devido à perseguição de gente sinistra e de direita. Marcelo explode de raiva e diz: “Porra, o que ocorreu foi um absurdo, o Circo Voador era um cartão de visita obrigatório na cultura popular brasileira em todos os sentidos. O que o prefeito César Maia aprontou foi um terrorismo cultural sem precedentes. Qualé! O cara é maluco, fodeu com a parada. Todo mundo já tocou aqui. O Circo já era um marco, era para ele ter sido tombado e canonizado”.

No final da tarde, quando tem um tempinho, Marcelo gosta de ir ao Posto 9, em Ipanema. A praia é o local mais folclórico da rapaziada inteirada e seus satélites. Pra quem não sabe, foi ali que ocorreu o histórico episódio dos apitos. Quando a polícia chegava e tinha alguém queimando um baseado, o pessoal apitava sem parar. A moçada mais descolada relaxa como lagarto pré-histórico na areia fina do Posto 9, mas o que D2 gosta de fazer é ficar degustando uma cerveja no quiosque à beira-mar, observando os movimentos e o molejo da beleza carioca, como uma mistura de ninja e predador, desde o balanço do mar aos quadris das maravilhosas meninas do Rio.

No caminho para sua casa, pergunto quantos quilos de fumo ele acha que já degustou na vida. “Que perguntinha indiscreta! Mas vamos lá. Como naquela vez que o Jô Soares me intimou perguntando: “Você se esquece muito das coisas por conta da maconha?” E eu respondi: “Que eu me lembre, não” ehehe. Acredito que já traguei mais ou menos uma meia tonelada”.
D2 havia marcado um apontamento no Baixo Gávea para dar uma entrevista para a revista ÉPOCA às 10 horas da noite. O Baixo Gávea é um dos locais em que D2 normalmente aparece para bater o ponto. A região é repleta de bares, botecos e badalação aloprada. Em plena segunda-feira o crowd é absoluto. Uma multidão de gatas deliciosas, malucos terminais e amigos de Marcelo ronda a nossa mesa. A entrevista rola solta e rapidamente é concluída. É dado o sinal verde. Começa então a bebedeira informal da galera. D2 cumprimenta dezenas de pessoas e a sua brodagem o trata como se fosse um Buda reencarnado.

Pelas mesas a descontração é puro delírio. Chego junto do D2, pergunto para ele se finalizamos a parada das atrações turísticas, pois me encontrava esgarçado de tanto agito. Marcelo lança o míssil: “Qualé, sangue bom, isso só foi a entrada, vamos lá para Copacabana dar uma olhadinha no Cicciolina e Barbarella”.
Não teve jeito, fingi que estava tudo pela ordem e saí de fininho. Na esquina peguei um táxi e me dirigi para as Laranjeiras. Estava felizmente precavido com uma chave reserva da casa de D2. Acordei às 8h30 da manhã do dia seguinte e ajeitei minha mala. O silêncio na casa era absoluto e deduzi que o cumpadi estava no segundo sono. Quando estava fechando a porta apareceu a celebridade que sobriamente comentou: “Qualé? Amarelou ou estava sem preparo físico?”

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