Category Archives: Bezerra da Silva

“Siricotico ticotico no fubá ticotico pó de mico quero ver no que vai dá”

Divulgação

Foi difícil pra
você, que faz rap, cantar samba?
Foi tranquilo gravar a voz, sabia? Mas, fiquei um pouco nervoso. Me deu uma rouquidão, cara, que eu nunca tive na minha vida. Nunca fiquei rouco três dias seguidos.

Insegurança, talvez?
Acho que foi um nervosismo, mesmo, Gravei quatro dias num dia e fiquei tão nervoso, que no outro dia não consegui gravar nenhuma.

Ficou de fora algum clássico do Bezerra?
Porra, cara, o Bezerra tem clássico pra caralho! [risos]. Tem neguinho que falou: “Porras, tu não colocou ‘Zé Fofinho de Ogun?’ Tem um que ele diz [canta] “Se quiser cafungar ou dá dois vai na sacristia com o sacristão”, essa também não gravei. Vou te falar, eu fugi um pouco das músicas de pó. Não queria cantar “Cocada Boa”.

Por quê?
Tou meio de saco cheio de pó. Não sou contra ninguém, nem contra nada. Se quiser cheirar aí, pode cheirar tá ligado? Não vou falar que eu parei totalmente, que nunca mais. Mas é que agora eu não gosto mais dessa balada. Aí falei: “Aaaah, não vou gravar essa, não.” Pó antes era uma parada mais yuppie, festa de rico, depois era mais normal e hoje tem pó de 5 [reais], porra! Era uma coisa mais escondida, tá ligado? Hoje é todo mundo no banheiro. Mas aí o Leandro Sapucahy [cantor, campositor e produtor do disco] encheu o saco pra gravar “Cocada Boa”. Gravei a voz meio na má vontade. Quando a gente acabou, o Leandro falou: “Beleza, essa daqui tá boa. Agora, faz com vontade que ela entra no disco” [risos]

Como conheceu o Bezerra da Silva?
Ia rolar um show no Canecão e o Planet pensou em convidar o Bezerra da Silva, tipo um ‘special guest’? Bora! Ligamos pra ele. que disse: “Já ouvi falar, vocês são aqueles maconheireos que aparecem na TV com aquele cabelão!” [risos] “Somos nós mesmos” Qual que é a parada?. Falamos: “Então, a gente queria que o senhor participasse de um show nosso…” E ele: “Primeiro, senhor é o caralho! Senhor tá no céu. Quanto é que tem de dinheiro? Tem dinheiro?” Falei: Ah, a gente tava pensando que seria de graça. , mas se quiser cobrar…” Não, então eu vou lá e vocês ficam me devendo essa”, ele disse. Aí o cara foi no show, meu irmão, a gente ensaiou três músicas pra cantar com ele. A gente sabia que ia tocar duas e, se ficasse bom pra caralho tocava mais uma. Aí tocamos umas cinco, seis, tá ligado? E ele não saia do palco, a molecada tava meio assim já, queriam ver a porrada comer [risos], querendo ver rock e ele lá no palco. Foi demais! Aí logo na sequência, acho que em 96, eu e ele ficamos bem próximos.

O Bezerra da Silva não era muito doido?
Não era, cara. Eu nunca fumei bagulho com o Bezerra. Ele tinha uma parada comigo, principalmente depois que meu pai morreu, em 98. ele me ligou pra falar do meu pai, pra falar que pra qualquer parada tava lá, que se eu precisasse tomar uma cerveja, se quisesse conversar. Ele me tratava muito como filho também. Em 98, quando eu comecei a turnê do Eu Tiro é Onda, a gente foi fazer uma homenagem ao Chico Science, eu liguei pra ele e pedi um pandeirista, tá ligado? Aí ele mandou o Tuca, filho dele. Na hora eu e o Tuca colamos, ficamos parceiraços, os dois porra-loucas pra caralho. Andamos o ano inteiro juntos, passei a frequentar a casa dele.

Em 2010, o Usuário completou 15 anos, é possível uma reunião da banda?
Às vezes sinto saudade daquela época, saudade dos caras mesmo, de tá com os caras ali, tomar cerveja, bater papo. mas, a gente nunca conversou sobre uma reunisão do Planet Hemp.

Tem algum empecilho pessoal? Alguma rusga?
Não, cara. Eu briguei com o Bernardo, Bnegão, ficamos dois anos sem se falar, mas voltamos a nos falar. Tem esse disco de sambas do Bezerra, ano que vem vou morar em Los Angels. Sei lá…pensando agora, neste momento acho impossível. Tem algumas coisas sobre a volta do Planet Hemp que eu queria falar. Primeiro: nós não somos mais aqueles moleques. Se fosse um show ou uns shows pra gente se reunir de novo, pra galera tomar uma cerveja e ver a gente tocando de novo, eu acharia interessante. Mas, pô, cara, eu tenho um receio tão grande disso..

Por quê?
Por que o Planet foi uma parada daquela época, das pessoas que a gente era. Um disco de maconha lançado menos de dez anos depois que a ditadura tinha acabado? Foda, cara, é uma parada muito importante pra vocês ficar, saber qual é? Remexendo.  Sei lá, tenho medo de mexer, tá ligado? E ficar parecendo aquelas bandas que voltam com os caras velhinhos e os fãs vão lá e falam: ” Puta, que merda! Era tão legal antes.” Melhor que fiquem só com aquela imagem, que, porra era tão legal antigamente. Mesmo os caras que dizem que “Marcelo D2 era legal quando era do Planet Hemp.” Prefiro que fiquem pensando assim do que voltar pro Planet Hemp pra agradar esse tipo de gente. E outra coisa, o Planet Hemp dava muito problema, cara. Voltar pra tudo isso, cara? [risos]. A coisa da Justiça. Imagina a Justiça batendo na minha porta de novo? Processos e processos. E só eu que assinei os processos. Foram 18 processos. O Planet era meu, é meu né cara? O bagulho é meu e eu registrei tudo.”

Morar na Califórnia é um sonho seu?
É um sonho meu de moleque. Mas agora esse sonho é mais por eles do que por mim, tá ligado? Porque pra mim é a maior conveniência morar no Leblon, vista pro mar, maior apartamento legal. Em Los Angeles não vai ser essa vida de Leblon, sabe qual é? Vamos ter que morar no subúrbio. No Leblon eu desço de chinelo, tô em casa. Mas, porra, cara, eu e a [minha esposa] Camila temos uma parada muito parecida, a gente é muito nômade, sabe?

Já sabe onde você vai morar em Los Angeles?
Cara, lá fora o estudo é muito caro, mas tem boas escolas públicas, né? E uma escola muito boa é a de Silver Lake, tem aula de música, de teatro, o Flea [baixista do Red Hot Chili Peppers] dá aula lá de música, alguns outros músicos também. E, pô, é do lado da casa do Mario Caldato, do B-Plus, do Madlib, todos os meus amigos dali, sacou? Então quero ficar perto dos caras. E se a gente morar no bairro pode matricular as crianças na escola do bairro.

E você vai fazer o quê lá?
Eu tava querendo abrir uma paradinha lá só pra ter alguma coisa pra fazer. Um bar, um café, uma parada assim. O [DJ] Nuts que botou uma pilha e falou: “A gente leva disco daqui pra lá, faz uma galeriazinha, um barzinho, loja de disco…” Vou acabar vendendo algo brasileiro, né, cara, senão vou vender o que pra eles lá? [risos]

Seu inglês é perfeito? Dá para rimar em inglês?
Cara, eu me viro. Mas rimar em inglês, pelo amor de Deus! Ia ficar tosco pra caralho! Tem que dominar muito a língua. A ideia é a gente ir em fevereiro e, como as aulas começam só em julho, todo mundo estudar inglês nesse tempo. Tem que aprender a falar inglês bem, né, cara? É importante pra caralho. Vou te falar que eu sinto maior falta. Acabei de voltar da Suíça e meu inglês é muito tosco, tá ligado? Pra dar uma entrevista que nem eu tô falando com você assim fica uma merda. Aí o que acaba acontecendo? Tu acaba encurtando a resposta, né? [risos] Não fala o que você tá pensando, fala o que consegue falar e porra, aí é foda.

Foi trabalhar na Europa?
Fui tocar, cara. Foi a quarta vez que fui esse ano pra Europa – Suíça e França. Agora a gente vai de novo esse mês que vem [agosto], são quatro shows na Inglaterra e um em Paris. Em setembro vamos mais uma vez. Tá legal lá na Europa pra gente, cara. Tocamos num festival de rap que teve Eminem e Jay-Z como headliners, mas Nas e Damian Marley foi o melhor show. Caralho, aí, foi foda! Cheguei um dia antes pra ver esse show dos dois juntos. Era a banda do Damian Marley e o Nas participando porque eles lançaram um disco juntos. O Nas tava só se divertindo, animadão, sorriso na cara, toda hora falando que era fã do Damian Marley. Showzaço, cara. Tinha um maluco… rasta. Sabe aquele cara que vem falar uma parada no começo do [filme jamaicano] Rockers, um rasta com um cajado? Era tipo um cara assim, mas com um jogging Puma da Jamaica, o show inteiro, sem sacanagem, uma hora e dez e o cara pulando no palco, dançando com a bandeira da Jamaica [risos].

E o Jay-Z, você viu?
Jay-Z foi animal. O Eminem é que foi meio chato, cara. Mas sabe o que foi foda? Dizzee Rascal. O show dele funciona muito pra festival. Eu já tinha visto ele, cara, em Londres, num clubezinho pra quinhentas pessoas. Foi legal, mas no festival, cara, foi foda. O DJ do cara não tinha um braço! Tocava só com um braço e botava a boca no mixer. Tocava pra caralho! Era inacreditável. Tocava muito, muito! DJ foda! E era só ele, o DJ e um cara. Maior showzaço, a porrada comeu legal.

Você imaginava sucesso, shows na Europa, e tudo mais, quando fazia um som com o Planet Hemp numa garagem qualquer?
Cara, tocar em São Paulo era o máximo pra gente! [risos]. Se viesse pra São Paulo já seria foda, sabe qual é? Eu pensava: “Porra, vou tocar em São Paulo! Que maneiro, cara!” Já tava bom pra caramba. Agora, cara, já toquei em vinte e quatro países.

Viajar tanto não enche o saco depois de certo tempo?
Até 2008, a gente passava 40, 50 dias na Europa. Aí, ano passado eu falei que não queria mais fazer isso. Só ia pra Europa de novo se fosse pra passar uma semana, dez dias, no máximo, e aí volta, passa 15 dias aqui, depois volta pra Europa de novo. Não aguento mais passar 60 dias na Europa, longe da família, andando de ônibus pra lá e pra cá. Porra, é chato, tá ligado? Aí tu vai pra Londres, porra, fica aquela obrigação de ter que ir pra rua, pra passear – “Porra, tô aqui em Londres. Não vou ficar no hotel. Tem que dar um rolê!”. Chato pra caralho, entendeu? Cansativo pra caralho, caro pra caralho.

Você fez alguma preparação para cantar samba? Alguma aula de canto?
Eu tentei, cara. Vou te falar que eu fui uma única vez no professor de canto, mas não teve jeito. Achei muito chato [risos]. Falei: “Ah, meu irmão!, não vai rolar não! Deixa essa porra assim mesmo”. [risos] Foi engraçado porque todo mundo falou: “Faz uma preparação pra tua voz, cara”. E eu queria fazer o disco de uma maneira diferente, estou acostumado a chegar no estúdio sem letra, sabe? Pensei: “Esse disco vou tratar de uma outra maneira, mais profissional, vou fazer uma preparação”. Aí marquei uma hora com o cara, fui lá, e o cara: “Pô, vai no otorrino pra ver se a sua garganta não tem alguma inflamação, alguma coisa, e aí a gente já começa a trabalhar”. E fizemos uma aulinha ali mesmo. Mas, porra, achei chato pra caralho! Fui no médico e ele falou: “Não, tua garganta tá ótima!”. Falei: “Ah, quer saber? Então não precisa de porra nenhuma!”.

E aí rolou tranquilamente?
Cara, assim, os sambas que eu conhecia e sabia de cor sem precisar ficar lendo foram moles, né? Matava uma voz em meia-hora. Mas teve outras que foram mais difíceis. As músicas que têm letra muito grande demorei mais para gravar a voz. Porra, e aí tu começa a ficar irritado, não sabe se tá bom ou se tá ruim. Mas no geral, foi tranquilão, cara. O Leandro canta também, então me ajudou pra caralho, sabe qual é? “Vai aqui, essa nota tá errada, pá, vamo consertar essa nota só, tá bom”, entendeu? A gente escolheu pro disco basicamente as que eu gostei mais da minha voz. As que eu fiquei mais à vontade e tal.

Tem uma história sobre o Bezerra da Silva que conta que ele foi buscar o filho na boca. É verdade?
Tem essa parada aí, mas sei lá. O Tuca tava meio afastado dele porque tinha se envolvido com a bandidagem e o Bezerra tava puto. Aí contam que ele foi buscar o filho na boca. É uma história, que, sei lá, eu soube também. Ele foi lá, pegou o Tuca e falou: “Larga essa porra desse fuzil aí e vamos embora!”. E os cara: “Qual é, Bezerra!”. E ele: “Qual é o caralho, porra! É meu filho!”. Ele era muito respeitado em tudo quanto é favela, né. Era o embaixador das favelas. Ele botava muito a mão no meu ombro na hora de falar. Gostava de falar baixinho comigo, chegava assim e falava calmo.

Ao mesmo tempo em que ele é uma das grandes figuras da nossa música, ele nunca teve o reconhecimento que mereceu em vida. Por quê?
Sei lá, cara, o Brasil é foda nisso aí. O Bezerra teve que tocar até o fim da vida. Ele morreu com 77 anos, mas, porra, parecia que tinha uns 80 e poucos, tá ligado? Ele falava: “Tenho 75 anos de favela mesmo. E não 75 anos de asfalto, zona sul”. Ele tinha de fazer uns shows por cachê baixo, não se valorizava muito, sabe qual é? Ele tinha uma mentalidade daqueles músicos mais antigos, de que a gravadora tinha que fazer tudo. Na minha geração a gente já tava aprendendo a não esperar a gravadora fazer tudo, hoje em dia, então, molecada nem sabe o que é gravadora.

Mas você não conversava com ele, não aconselhava, já que é um cara com uma visão, digamos, mais moderna do negócio da música no Brasil?
Eu tinha um pouco de… Era assim com meu pai também. Não sei se a palavra é vergonha, cara. Mas quem sou eu pra dizer o que o Bezerra da Silva deveria ou não fazer, cara? Eu tinha a minha visão, ele a dele. Era uma questão de respeito, você não pode chegar pra um cara como ele dizendo o que você acha que ele tem de fazer. Mas uma vez eu falei: “Pô, Bezerra, para de regravar coisa, cara. Faz um disco só de inéditas”. Porque ele ficou anos regravando. Pega “Malandragem Dá um Tempo”: tem umas sete ou oito gravações, tá ligado? Então ele tem disco pra caralho, mas repetia muitas músicas. E ele: “Não, vou fazer esse aqui, ó, para reviver as músicas e tal”. O cara naquela idade também, né, cara, não tem mais pique de botar música nova e ir pra rua defender a música, sacou? Ir na rádio, ir no Faustão, não sei aonde, “olha minha música nova”. É foda. E no final ele tava um pouco impaciente com as pessoas. Acho que é aquela coisa também de que todo mundo chegava nele e: “Fala, Bezerra da Silva! Uhu! Vamos dar um teco aê!”. O cara com 75 anos, de saco cheio, já tinha virado crente. No enterro, alguém falou: “Malandro foi o Bezerra, que no fim da vida se converteu e pronto” [risos].

Como você recebeu a notícia da morte dele?
Eu tava em turnê, cara. Cheguei no Rio e fui lá no hospital, mas ele tava dormindo – e já tava bem mal. Saí de lá já sabendo que ele não ia durar muito. Lembro que eu cheguei de viagem, virado, tipo sete da manhã, e a Camila falou: “Deixaram um recado nessa madrugada, o Bezerra morreu”. Foi foda. Tomei um banho e fui pro velório. Não sei lidar muito bem com morte não, sabe? Sempre parece que é uma coisa mais egoísta nossa, tá ligado? Porra, sempre aquela coisa: “Podia ter feito aquela música com ele; por que aquele dia eu não liguei pra ele?; puta merda, devia ter falado não sei o quê pra ele”, sabe qual é? Aí, a Regina, mulher dele, falou: “Ele deixou umas coisa lá pra você. Pediu pra te dar o bongozinho dele e o chapéu”.

Você compara de alguma maneira a perda do seu pai com perda do Bezerra da Silva?
Meu pai é meu pai, né, cara. É bem diferente. A morte do Bezerra eu comparo com a morte do Skunk [com quem D2 fundou o Planet Hemp], sacou? Foram duas perdas muito grandes de dois grandes parceiros na música. Perdi aquela coisa de muita troca, sabe? De conversar, de às vezes nem falar nada, mas estar perto ouvindo. O Bezerra falava muita coisa pra mim, cara. Ele foi muito culpado nessa parada de eu me aprofundar mais no samba. Perdi um amigo de verdade, um parceiraço. Ele era aquele tipo de cara que eu tinha uma dúvida na música e ligava: “Bezerra, olha isso aqui que eu escrevi: ‘Essa onda que tu tira qual é? / Essa marra que tu tem qual é? / Tira onda com ninguém, qual é?’. Tô pensando em fazer o seguinte: ‘Tira onda com ninguém, qual é? / Qual é, neguinho? / Qual é?’. O que tu acha?” E ele: “Vai em ‘Qual é, neguinho? / Qual é?’. Todo mundo fala isso. Isso aí tá na cabeça do povo. Vai nessa”. Isso aconteceu mesmo.

Quando falam de rap nacional quase nunca citam seu nome. Você se sente excluído?
Neguinho me exclui muito, né, cara? Principalmente a imprensa de São Paulo. Falam: “O rap nacional – MV Bill, Racionais MCs…” Só que, cara, me desculpa, mas, porra, eu toquei em 24 países, tá ligado? Vendi mais disco e fiz mais show e eu faço rap também. Sou bem recebido pra caramba em São Paulo, meu maior público é em São Paulo. Apesar de alguns não gostarem, tem que me engolir, né cara? Tô há 17 anos nessa porra! É aquela coisa: pra ser rap tem que usar calça larga, ter cabelo de rapper, tem uma cartilha, tá ligado?, que se rege assim. Isso prejudica o rap pra caralho, tá ligado? As pessoas adoram e vai todo mundo ver o show do 50 Cent. Mas vê se neguinho vai no show do Emicida. Eu vou te falar, prefiro o Emicida que o 50 Cent. Alguém tinha esperança de que ia ser bom o show do 50 Cent? Lógico que ia ser uma merda.

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“Bem melhor que você, é estar bem comigo. É ter muitos amigos é cantar, é sorrir. É viver a vida, é curtir cada minuto e segundo”

A carreira solo de Marcelo Maldonado Peixoto está entre as mais bem sucedidas do país. Depois de cinco discos azeitando a mistura de rap com samba, ele se entrega de corpo, alma e voz ao mais brasileiro dos ritmos, homenageando um de seus mestres, Bezerra da Silva, em um disco só de sambas de verdade – sem rimas, scracthes, samples ou batidas eletrônicas. Criticado por grande parte da cena hiphop, se diz excluído pela imprensa de São Paulo, cidade que concentra seu maior número de fãs. Marcelo D2 não é Zagalo, mas sentencia: “Eles têm de me engolir!”, correndo à margem das críticas e deslizando suave pelo caminho do sucesso que escolheu lá atrás, antes de fazer parte do hoje quase lendário Planet Hemp, “uma banda tensa”, segundo o seu mais famoso integrante. É um D2 tranquilo, alguns casamentos nas costas, quatro filhos e 42 anos, que abre a porta do quarto de hotel, no bairro paulistano dos Jardins, pausando o videogame. Cervejas depois, ele está à vontade para falar de drogas, Bezerra da Silva, a volta do Planet Hemp, as diferenças entre rap e samba, a confusão com os Racionais, as eleições e os sonhos que ainda pretende realizar.

Você já realizou seus sonhos?
Meus sonhos de quê?

Aqueles que você tinha antes de fazer sucesso.
Os sonhos que eu tinha, sim. Mas eu tenho outros, né, cara? Eu sou um sonhador fodido. Sonho acordado direto, sabe qual é? Minha vida é um sonho legal mesmo… Sei lá, cara, meus sonhos são outros agora. O que era pra mim antigamente, hoje eu sonho mais pros meus filhos, tá ligado? Agora em fevereiro, por exemplo, vou com a família toda pra Los Angeles, pra morar uns dois anos lá. Vai eu, minha mulher, nossos dois filhos, o Luca e a Maria Joana, e o meu filho mais velho, o Stephan. Lógico, eu tô indo pra fazer um disco de rap lá, cantar com os caras de lá, mas, porra, tô indo mais por eles, sabe qual é? Pra eles estudarem inglês. O Stephan tá começando a fazer som, tem banda e tal, vai estudar engenharia de som, tá ligado?

Ele está com quantos anos?
18.

E as conversas sobre drogas já rolaram?
Já, cara, mas o Stephan é sossegado.

Ele fuma erva?
Maconha ele fuma, cara. Tá com 18 anos, não dá nem pra proibir mais. E quer saber, cara? Não tenho muita preocupação com isso, não. O Stephan é um moleque muito com a cabeça no lugar, tranquilão pra caralho. Só não gosta de estudar, mas isso é normal. Ele repetiu o ano passado.

E álcool ou cocaína?
Eu falo pra ele: “Se quiser experimentar, cara, é comigo. Cuidado aí! Vai cheirar não sabe o quê, pó vagabundo, essas coisas”. Mas é o tipo de coisa, cara, o moleque tem 18 anos, tem a galera dele, não é uma coisa muito que o pai… Só fico ali do lado, vendo o que tá acontecendo, com quem que ele tá andando. O Stephan é mesmo muito sossegado, tipo: “Tá tranquilo, pai. Você acha que eu vou cheirar essa merda?”

Você já foi o usuário de maconha mais notório do país. Como lidar com isso perante os seus filhos?
Primeiro que meus filhos mais novos nem sabem disso, né, cara? Não pegaram essa época.

Quantos anos eles têm?
A Lourdes tem 11 anos; o Luca, 9; e a Maria Joana, 5. Eu não sou o tipo de pai que proíbo as paradas, sacou? Com os mais novos é lógico que imponho coisas, limites. Mas com o Stephan eu não vou proibir nada. Sento com ele e converso. Este ano falei: “Ó, tu repetiu, era pra ter terminado o ano passado e tu repetiu. Não vou ficar pagando R$ 30 mil, R$ 20 mil de escola por ano pra tu repetir, tá ligado? Agora, acaba essa porra! Vai pra uma escola mais barata, um supletivo, de dia, acaba essa porra logo, meu irmão, e aí vê o que tu quer fazer da tua vida. Quer ser músico? Então
vamos investir nisso”.

Como surgiu a ideia do disco em homenagem ao Bezerra da Silva, com sambas que ele gravou?
Quando ele morreu, cheguei no velório e o Zeca [Pagodinho] tava lá, sentado com a cervejinha aberta. O caixão ali, o Zeca sentado perto, lá no [teatro] Carlos Gomes. Eu cheguei sozinho, às 10 da manhã, com o olho cheio de lágrima, e o Zeca: “Ô, D2! Ta chorando? Tá maluco, rapaz? Em enterro de sambista a gente não chora, não! Em enterro de sambista a gente comemora! Senta aí e pega um copo, parceiro!” Peguei um copo e começamos a beber. Porra, aí chegou o Dicró contando história: “Esse é um 171 mesmo! Morreu em 17 de janeiro, 17 do 1!” [risos] Aí chega não sei quem, chega outro, e mais outro, e daqui a pouco tava a maior galera, a gente conversando, contando história do Bezerra. A gente chorava de rir. E no velório mesmo veio esse papo, tá ligado? “A gente tinha que fazer uma coisa pro Bezerra”, não lembro exatamente quem falou. “Porra, o Marcelo é quem tinha que fazer o disco. Todo mundo já gravou pra caralho com o Bezerra, todo mundo conhece o Bezerra há muito tempo. Marcelo era o amigo mais novo dele. Tu tinha que fazer o disco!” Saí de lá, cara, sem sacanagem, às 7 da noite, bêbado, exausto. Fui pra casa, dormi e sonhei com ele pra caralho. Sonheique a gente tava no palco.

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“É tanta magia que o samba nos traz”

O samba é feito de poesia e a poesia é quase sempre “um diálogo entre a solidão de quem escreve e a solidão de quem lê”. O samba é gregário e coletivo: exige parceiros, acompanhantes, platéia e uma boa dose de malandragem. Além disso, toca no rádio, alimenta vitrolas, inspira beijos. Cantar samba significa ser corajoso e ter medo, preferir a alvorada ao crepúsculo, trabalhar muito, e se possível vagabundear ainda mais.
Bezerra da Silva foi feito de samba. Partideiro número 1 dos morros cariocas, o pernambucano, José Bezerra da Silva, foi um cronista que relatou a realidade quase sempre cruel.
Bezerra foi para o Rio de Janeiro aos 15 anos fugindo da fome. Fez a viagem num navio que carregava açúcar. Iniciou na música pelo coco de Jackson Pandeiro, em 1950, tocava surdo, tamborim e instrumentos de percussão em geral. Seu primeiro disco, um compacto, foi gravado em 1969, pela Copacabana. Estudou violão clássico por oito anos e passou mais oito anos tocando na orquestra da Tv Globo. Um dos poucos partideiros que lia música.
Sua ligação com o mundo musical se deu por causa do  “medo da fome”. A única saída que tinha era por “dias melhores”. Ao invés de sambas românticos ele atirou contra às injustiças sociais, tudo com muito humor.
Como na música “Partideiro Sem Nó na Garganta”

“Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado.
Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado”.

Suas letras expressam conflitos sociais de uma população marginalizada.
Macumbeiro, filho de Ogum e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belfort Roxo, Bezerra da Silva foi o rosto de uma parcela do povo brasileiro.
Descrevia o cotidiano dos pobres e criticava a criminalização de drogas como a maconha.

“Esse é o meu trabalho”, disse. “Tenho fama de que sou criador de caso, mal-educado, cantor de bandido. Vivo num país em que é proibido falar a verdade”.

Em 1997, participou de um show do Planet Hemp, no Canecão, dias depois a banda foi presa em Brasília, por apologia às drogas.
Tornou-se amigo do vocalista Marcelo D2, fã confesso de Bezerra.
Marcelo participou do álbum Meu Bom Juiz, cantando a música “Garrafada do Norte”

“Doutor, Deus criou a natureza / E também as belezas dessa vida / O Planet Hemp quer saber / Porque essa erva é proibida”.

Marcelo D2 está em estúdio gravando um disco em homenagem ao sambista que morreu em 2005, aos 77 anos, de parada cardíaca, um dos seus maiores ídolos.
O álbum tem previsão de lançamento para Junho deste ano.

“Malandro é o cara que sabe das coisas / Malandro é aquele que sabe o que quer”.


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“Ele vem do samba, seu tempero é brasileiro”

 Além de ser quase filho do Bezerra da Silva com quem gravou a música Erva Proibida. 
 D2 é também filho bastardo de João Nogueira, sempre se reinventando e cada vez mais próximo das rodas de samba.
 Marcelo tem caído no samba com o filho de João Nogueira. 

 Dois importantes nomes da malandragem carioca, Diogo Nogueira e Marcelo D2 iram dividir o palco do CitiBank Hall/Rj, dia 27 de Março, no show “Movimento Carioca”.
 “Do jeito que o Rei mandou” vai dar samba..

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Lisergia Sonora

A palavra que se encaixa  na atual fase de Marcelo D2 é COMPETÊNCIA. Aliás, fase que ja dura um bom tempo. Letras bem trabalhadas, que incluem uma boa dose de malandragem, crítica  e sua própria vivência pelo mundo, algo que vai muito além Cannabis Sativa.
Através da mistura do samba no seu hip hop, Marcelo sintetizou-se como um arquiteto da musica brasileira, parafrasenado o próprio para se referir a Grandes Artistas, como Bezerra da Silva, Chico Science, Africa Bambaataa…
Basta ir a um show do Marcelo D2 e sua banda, sentir os beats do Dj Nuts e perceber que Marcelo já está arquitetado na música mundial.
D2 mostra que ainda tem fôlego, fôlego que alucina a todos na plateia, que responde a cada batida vinda do palco.
Sempre mostrando devoção a Bezerra da Silva, Chico Science e tantos outros, sem pedir para ser rotulado, apenas misturando, misturando no sapatinho. Atração a parte também é Fernandinho Beat Box que, acredite, faz tudo só com a boca.
D2 sempre surpreendendo e alucinando os shows com sua lisergia sonora à procura da batida..(já encontrada).

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