About Marcelo Peixoto

Breve História sobre a vida do Marcelo D2

Stephan fazia 6 anos naquele domingo e a notícia chegou pelo telefone. O pai não viria à festinha. “Eu estava trabalhando e aconteceu um equívoco, filho. Estou preso…”

De Brasília, o músico Marcelo Maldonado, 30 anos, tentou explicar porque pela primeira vez não iria passar o aniversário abraçando o garoto. Tinha sido algemado e encarcerado na Coordenação de Polícia especializada às 3 horas da madrugada de 9 de Novembro, em Brasília, logo depois do show no Minas Tênis Clube.  Ele e todos os integrantes do Planet Hemp foram presos em flagrante, acusados de fazer em suas músicas, apologia do uso de drogas. Stephan chorou, no dia seguinte não quis ir à escola. Depois …  ‘Entendeu bem, ficou na boa. O moleque já é cascudo com essas paradas’, conta Marcelo, já em liberdade.

Assim como o pequeno Stephan, Marcelo Maldonado Peixoto é um cara cascudo. Seu jeito de cantar costuma ser definido como uma atualização da famosa malandragem que o Rio e o Brasil permitem pra quem nasceu nas últimas três décadas não tem nada de glamour original.

D2 trabalha desde os 13 anos: foi entregador de jornal, office-boy, porteiro, servente de botequim, vendendor de loja de móveis, camelô, faxineiro de uma casa de shows subunderground…
Casou-se cedo, com 19 anos, serviu no Exército, já foi assaltado dentro de um ônibus no Estácio (ora, veja!) e parou de beber cachaça ao completar 30 anos.

Num bar do Catete, bairro de classe média baixa do Rio de Janeiro, onde morou maior parte de sua vida adulta, ele bebeu meia-dúzia de cervejas com SHOWBIZZ e contou sua história. Uma narrativa que resvala toda hora em samba, futebol, droga e deliqüência, quatro assuntos que, queiram ou não, estão no cotidiano da maior parte dos jovens brasileiros.

Os pais se conheceram no trabalho, numa fábrica de tecidos. Dark Gomes Peixoto (“Ia ser Joana Dark e nasceu homem”, conta Marcelo, sem rir) era chefe do departamento pessoal. A mãe era costureira. A cegonha poderia ter deixado o rapper em Madureira , onde morava o casal, mas Dona Paulete preferiu dar à luz num hospital em São Cristovão. Em 1967 de 05 de Novembro, nascer em casa, nem filho e pobre. Suburbano de pai e mãe (Dark nasceu em Abolição; Paulete é de Padre Miguel), o garoto cresceu em Maria da Graça. Aos 9 anos, porém, foi morar no Andaraí.

Marcelo não foi morar no morro – sua casa ficava no asfalto – e nunca passou fome, mas era vizinho da marginalidade. Precisou aprender rápido algumas lições.

“Eu Já tinha vivido ali até os 4 anos. Mas, quando voltei aos 9, não conhecia mais ninguém. Minha mãe me mandou ir na padaria. Ia voltando com um saco de leite, os moleques da rua me agarram, queriam roubar o leite. “Sai correndo, me agarraram, um tava com um canivete e cortou meu peito.” A cicatriz está ali ainda, perto duma tatuagem com o nome do Stephan, feinta em Caxias, Rio Grande do Sul.

Dona Paulete foi falar com a mãe do menino que agrediu seu filho. “A gente passou a jogar bola juntos e ficamos amigos”, completa Marcelo.
Boa-praça e com jeito para futebol, o garoto conseguiu se impor. Ficou abusado até. “Fui mó brigão, cara.”  Sempre magrinho. “Mas, eu batia forte e saia correndo.”

Marcelo quebrou 14 vezes a cabeça – a maior parte delas andando de skate. Roubou umas outras tantas. “Diversão de guri. Saia de casa e ficava metendo o dia todo.   Lojas Americanas, C&A…Saía de chinelo e voltava de tênis e mochila nas costas. Minha mãe só perguntava: “Onde foi que tu arranjou isso?”

“Mãe é aquela coisa, acha que não, meu filho não faz essas coisas.” “Coitada santa! me batia pra c******, metia a porrada…Paulete gente boa, mó sossegada.”
O bom filho fala sem irônia. Sabe que mereceu cada bordoada. Estrutura familiar pelo menos naquela época, não faltava.

Seu Dark, chegou a passar um ano desempregado, mas nunca faltou um ovinho, um arroz com feijão no jantar. Num Natal mais pobre, ele inventou brinquedos de papel para Marcelo e a irmã, Carla. Em épocas boas, fazia questão de passar para o filho o amor por sua escola de samba. “Até os noves anos fui mangueirense. Mas, comecei a ir muito à Padre Miguel, na casa da minha avó e virei casaca. Era época do baterista do mestre André, pô!”

Mas qualquer baticundum, importava a farra: sair nos blocos de clóvis fazendo arruaça pela rua e chegar em casa com o dia clareando, glória máxima para um pivetinho de 11 anos. “A gente andava por todo Realengu, Bangu, e só voltava às 6 da manhã.”

Também era de lei para papai Dark levar o garoto no Maracanã para ver o Flamengo. Bom de bola. Marcelo, claro, idolatrava o Zico acima de qualquer entidade religiosa. Quando resolver enveredar por outro ramo de pivetagem, a pichação, quis homenagear o Zico. Na estréia pelos muros, porém, uma “sujada” inoportuna o impediu de concluir o serviço. Acabou ficando conhecido no bairro como: Zic. A empolgação com os sprays, bateu de frente com o dsinteresse pelo estudo.

“Estudava na Escola Municipal Panamá, no Grajaú, e a galera do Andaraí tocava o terror. Um dia a gente picou as paredes do colégio. Só que eu pichei meu nome e minha turma: Marcelo da 501. Fui expulso. Até a sexta série, ainda fui bom aluno. Aí comecei a zoar, foi quando meus pais se separaram.

Cada vez mais deliqüente, ele tinha lá seus limites éticos. Nunca roubei nada de neguinho. Andava com um moleque que tinha uma onda de pára os outros na rua assim: “Me dá o relógio!” A gente combinava: “Vamos lanchar no McDonald’s? E ele virava pro lado e gritava com alguém: Oh, vem cá, me dá um dinheiro aí?!” Eu não gostava daquilo, ficava com pena.”

Zic tentava conciliar atividades aleatórias com o lado artista incipiente. “Uma vez no supermercado Carrefour, na Barra. Lembro bem, tava tocando “beat it” do Michael Jacksons…(ri sozinho). A gente entrou, peguei uma camisa, encondi na calça. Falei pro Peixe, meu amigo, que estava com uma mochila: “Com essa cara de neguinho” – ele era bem escuro – “vão te dar uma dura com certeza.” Travaram ele e eu fui saindo de costas, dançando que nem o Michael Jackson. O segurança – VUM – me deu um tapa.

Com 13 anos, Marcelo ficava até 72 hrs sem aparecer em casa. Um dia, meu pai nem morava mais com minha mãe, eu cheguei em casa e ele tava lá. “Tu é homem já, fica cheirando essas coisas, fumando esses negócios, bebendo cachaça…”BUM!” Me deu um soco na cara. Só vou te bater como homem, não como pai. Ele nunca tinha sido de me bater, mas eu achava que era homem e andava na bandidagem, foi muito justo.”

Mais ou menos aí que o garoto começou a se emendar. E a trabalhar.
Quando a mãe se casou de novo, brigou com o seu padrasto e saiu de casa. Marcelo foi morar no Catete, junto com o pai. Uma saída estratégica, já que boa parte dos moleques  estava virando traficante. “Saí porque tava mó sujeira, tá ligado? “Você vai ficando mais adolescente, mais homem, é foda. Um conhecido meu morreu. Ai diziam: “Ih, caralho, morreu o primeiro.” Depois foi outro, irmão desse camarada meu, o Peixe, que era meu melhor amigo.

Se Marcelo chegou a fazer aviãozinho? “Todo mundo fazia. Eu morava na Rua Paula Brito. Quando acaba o asfalto e vira paralelepípedo, tem uma curva, é a subida do morro, a escadinha. Eu morava no pé da escadinha. A gente ficava jogando bola ali, sempre chegava uma galera de carro. A gente fala: “Quer que eu vá lá?”Aí subia e pegava a parada pro cara.

No Catete, longe disso, o problema era outro: dividir uma quitinete com o pai e uma amiga do pai. “Eu com 14 anos mó treta. Tirava o tênis e era aquele chulé…(risos). A mulher reclamava demais” Marcelo morava ali apenas provisoriamente, viva na casa de amigos. “Deixava a roupa lá, ficava uma semana sumido. Com o tempo, parou de pichar, serviu no Exército, arrumou um emprego estável como vendedor de umsa loja de móveis, ali no bairro. E se casou. Assim mesmo, sem preliminares. “A gente não namorou. Casou logo. Ela namorava um camarada meu. No carnaval nos cruzamos e chamei, “vem fazer um rango lá em casa”, ela foi e ficou. Sônia tinha 16 anos, três a menos que eu. Foi paixão menos, o Stephan foi pintar, só 5 anos depois.” A crise apertou e o rapaz esforçado da loja do móveis, nunca era esforçado o bastante.

“Fui ver Coração Selvagem, do David Lynch, saí amarradão. O cara do filme cantava Élvis e eu era apaixonado pela minha mina.
Comprei um disco com “Love me tender” e cheguei em casa, ela me esculachou. Como que eu gastava dinheiro com um disco?”
Parentes da Sônia tinham uma loja de Cosméticos no interior do Paraná e o casal embarcou numa aventura. Foi morar em Maringá. “Eu ganhava um salário mínimo e ela ganhava outro.”

De volta ao Rio, o Planet Hemp entrou na vida do Marcelo pra mudar de vez. Um encontro casual entre dois maluquinhos nas ruas do Catete foi a semente do grupo. Marcelo passou com uma T-shirts do Dead Kennedys e Luis Antônio, o Skunk, vendedor e artesão de camisas de rock, Saudou: Aí você gosta de Dead Kennedys? Então toma essa fita aqui.” Era um cassete de uma banda obscura chamada Dread Flintstones. “Amanhã você me devolve.”

Desse diálogo nada-com-nada nasceram uma amizade e uma vocação. “O Skunk fala de música o tempo todo. me levou na Rua 13 de Maio, conheci a galera lá, me mostrou uns sons, botou pilha. Aí eu resolvi: “Ah, vou ser vagabundo, quero ser músico.”

“Na verdade, a banda não era de rap, era uma banda de rock. Mas, nós não sabíamos tocar porra nenhuma e queríamos cantar.” O nome foi tirado das páginas da revista americana High Times, especializada em canabicultura (e, que por sinal entrevistou o grupodepois do episódio da prisão). Skunk tinha idéia de fazer letra em Inglês, como era onda na época (1992), mas Marcelo exigiu o Português. “Eu gosto de usar tênis importado e camisa do Mengão, gosto de um pagodinho, de fazer hip hop falando “cumpadi”, tá ligado? Não posso esconder que gosto de Beth Carvalho.”

No Garage, adorável pardieiro do underground carioca, Marcelo ia vender camisetas. E acabava ficando. “Eu tava me separando na época, dormia quase que sempre por lá.” As andanças pela Lapa e os hectolitros de goró servidos com Skunk e amigos como Jorge Beatnik, Carlos Rasta e o legendário artista plástico Tantão (ex Black Future, mitológica banda carioca dos anos 80), sedimentaram os conceitos que o Planet desenvolvia depois, com a entrada do guitarrista Rafael, do baixista Formigão e do baterista Bacalhau. “Dinheiro não importava. A gente tomava cachaça, e discutia política, todos os assuntos.”

Antes de fundar a banda, Skunk já sabia que estava com Aids. A gente trabalhava na mesma barraca como camelô. Ele começou a ficar doente e a madrasta dele falou: “Tô com medo que seja Aids.” Eu falei que ia pegar o teste com ele. Ele não me deixou, foi sozinho e disse que tava tudo certo. Eu entendo, ele não falou por medo do preconceito contra a doença. Era meu melhor amigo, tinha um certo lado homossexual, assim, devasso. Homem, mulher, para ele não tinha parada, o negócio era sexo. A gente viajava para São Paulo e ficava soando ele doente: “Vai morrer filho da ****. Nem se cuida.” Quando o Planet começou a crescer e a gente passou duas semanas viajando, voltei e fui ver o cara. C******! Nesse dia tive que levá-lo ao banheiro ajudar a se vestir…Saí arrasado. Eu tinha brigado de sair de mão, com várias pessoas que falavam que ele tava com Aids.”

A morte do Skunk quase podou o Planeta Cânhamo. “A gente pensou em acabar, tinha nego chorando todo o ensaio. Aí, um mês depois da morte dele, 8 de Julho de 1994, estava marcado um show em BH. Pensamos: o Rafael é músico por escolha, vem de uma classe mais alta, o Bacalhau estudava administração…mas, o que quê eu e o Formingão vamos fazer da vida? Resolver continuar para pelo menos, gravar um disco em homenagem ao Skunk.”

Outro episódio marcou um rito de passagem na carreira do Planet Hemp e na vida de Marcelo. Já de contrato com a Sony, gravando o primeiro, o vocalista se

envolveu numa confusão após o show no Circo Voador. “A gente tava tocando de graça, abrindo o show do Defalla. Os seguranças meteram porrada no Ronaldo

(Pereira, produtor da banda, planet honorário), deixaram a cara del deformada. Eu tava bebum, fui pro caixa, joguei o dinheiro todo da bilheteria pro alto.

me seguraram, eu fui dar um bico no segurança e acertei um vidro Blindex. Foi sinistro. Rompi o tendão, ligamentos, artérias…desmaiei, perdi um terço do

meu sangue, tomei 135 pontos, operei um terror. Depois dessa sosseguei. Foi a última vez que bebi cachaça.”
Era o fim de uma era. “Eu tinha andado numa onda de “vou virar vagabundo, não quero trabalhar.” Mendigão mesmo, tomava a sopa que distribuiem na sede do Banco

do Brasil, na Lapa. Minha mãe me chamou e falou que o pai-de-santo dela pedia pra eu párar de beber cachaça. Daí…eu parei e comecei a dar um rumo, as

coisas foram dando certo.”
Casou-se pela segunda vez – com Manuela Cruz de, 19 anos, carinha de menina e cabelos verdes – , Marcelo morava num apartamento alugado no Jardim Botânico.
Assim, que saiu da prisão, além do filho (que foi visitar na casa da Ex, no dia seguinte), sua grande preocupação era o pai.
Dark estava com câncer no pulmão. “Eu sou o filho mais velho, tenho que segurar a onda da família, da minha irmã que é mais nova, da minha mãe. Tenho que falar que vai ficar tudo bem..Mas, é lógico que choro pra caralho sozinho.”

As barras-pesadas todas foram transformadas em força para o grupo prosseguir. “Há quem pense que o Planet é uma banda do mal. Há quem goste de tomar uma cerveja ou de fumar um baseado.  A gente é apenas uma banda que faz a molecada pensar. Eu estou preocupado em criar meus filhos..”

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2 responses to “About Marcelo Peixoto

  1. junior

    ae isso fikou de mais, o marcelo tem uma história de vida dificíl, tinha tudo pra ser do crime, do lado errado a vida, mais ele deu a volta por cima esse cara sim ele é brabo!!!!!!!!!
    ele é rub ro-negro

    se puder deixe ele ver esse comentário!!!!!!

  2. Carolina

    O Marcelo D2 e o Planet Hemp fazem parte da historia da minha vida, agora conhecendo sua historia, sinto ainda mais que eu já conheceia sua historia, já sabia que tú é sangue bom parceiro. COmo vc mesmo diria….
    Sai de SP no sabado á noite, um temporal nervoso, todo mundo me chamando de zica e eu empolgadissima em ir ve-lo, encontrei duas doidas uma gostava muito como eu, a outra só descobriu no caminho pra onde tava indo,(mas gostouuuumuuuito) e o belisco tava loko pra desanimar nosso role, falei _se não for, eu vou sozinha? ELe não topou e foi TENSOOO o caminho. Fui parada pela policia, documento atrasado tomei uma multa de transito, e ainda dei sorte…muita sorte. CHegamos em São Sebastião 22:30Hrs o show era ás 23Hrs. Até estacionar e tals, chegamos em cima..grças que eles atrasaram um pouquinho pq não queria perder nadaaaa. Derepente, Ele, o que todo mundo estava esperando…MArcelo D2, master master master, fiquei em choque o som tava muito certinho eu fiquei pertinho , cantei tudo, dancei e suei pakas. Pena que não consegui nenhuma fotinho assim sabe “perfeita”,??? Tava na esperança dele me enxergar lá…e talvez né..deixasse tirar uma foto com ele…?? será.. mas Valew a pena, valew muito muito mesmo. Um dia ainda vou conhece-lo!
    A MELHOR BANDA DE HIP HOP, foi o Planet HEmp!
    beijos

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