Monthly Archives: Junho 2010

A cada vento

“Atravessando o mar.
Vou me perder, vou me encontrar.
A cada vento que soprar
o sol prova isso quando cruza o horizonte,
vira fonte que aquece, ilumina..
Ação sem câmera, só a luz para conduzir.
Sinceridade pra sentir a alma reluzir.”

O hip hop promove metalinguagens através histórias de vidas, compostas pelo silêncio abstrato das periferias que ressoa como música feita de ritmo e poesia.

A vida na periferia é algo sem margens, sem começos, sem fim. É a melancolia de um dia nublado, um esforço pela beleza difícil, é andar perto do abismo. Uma vida cheia de detalhes bucólicos.

“Gente pobre, com empregos mal
remunerados, baixa escolaridade, pele escura. Jovens pelas
ruas, desocupados, abandonaram a escola por não verem o
porquê de aprender sobre democracia e liberdade se vivem
apanhando da polícia e sendo discriminados no mercado de
trabalho. Ruas sujas e abandonadas, poucos espaços para o
lazer. Alguns, revoltados ou acovardados, partem para a
violência, o crime, o álcool, as drogas; muitos buscam na
religião a esperança para suportar o dia-a-dia; outros ouvem
música, dançam, desenham nas paredes…”

O hip hop é um movimento de denúncia e crítica a todas às opressões sofridas. Sua característica suburbana produz eco nas periferias. É uma forma de resistência e mudança da realidade. A periferia é marcada pela insignificância e o não poder daqueles que vivem às margens de uma sociedade totalmente desigual.

Partindo do princípio de que a cultura hip-hop é uma resposta frente às condições precárias que os jovens da periferia das grandes cidades enfrentam, pode-se admiti-lo que a manifestação é uma das características essenciais, uma vez que, é a responsável pela forma que protestam a problemática social envolta à marginalidade.

Além disso, o rap é um tradutor de poesia oral. É preciso inventar a cor das vogais, o movimento de cada consoante e com ritmos instintivos, escrever silêncios e fixar vertigens.
O desejo pelo limite entre a luz e o breu e a busca por nuances, faz com que o jovem saia dessa vida densa, cinza e barroca e encontre alívio na monotonia do olhos.

As crianças e adolescentes da favela que convivem desde cedo com a criminalidade, presenciam constantemente o tráfico de drogas, são platéias do abuso de poder dos policiais e que de certa forma são mutilados quando perdem seus parentes e amigos, vítimas de bala perdida. Neste caso, a música, ocupa seus abandonos e desamparos, é a maneira mais pacífica e direta que esses jovens têm para protestar, mostrar sua cara e contar suas histórias de vida, onde todos os minutos são iguais. Dias sem opção, na calada da tarde, no improviso da sílaba.

“Contraditorio vagabundo como Chaplin,
Do tipo que gosta de flores, mas não tem o jardim.
Se ainda houver amor de graça quero um pouco para mim.”

Como estar na periferia economicamente desfavorecida e viver de rap? Estar com o rap nas rádios é uma postura comercial, porém esta postura vislumbra possibilidades para o jovem que pretende viver de arte. Estar na mídia é ingressar num sistema responsável pelo capitalismo que causa exclusão social e desigualdade. É preciso reivindicar a luta contra o preconceito, opressão e as desigualdades. Com isso preencheremos espaços com coisas que vem do mundo, coisas menos materiais, com belezas que moram nas coisas imperfeitas e incompletas, tecendo a poesia das transitoriedades leves.

“Corre as areias da ampulheta e nada, além do amor maior.
Cada degrau na escada onde eu derramei o meu suor.
E se não for por isso então não sei para que serve o hip hop.
Me faz esquecer a fome e botar fé de que eu posso ser alguém.
Mudar o mundo com a ponta de uma caneta.
Momento faz a vida a vida faz o rap.
Existem duas certezas uma é morrer.
A outra é se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser rimando.”

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Filed under Gafitte, Hip Hop, Malandragem

Que Droga é Essa?

A revisão da política sobre drogas é um dos paradigmas de nossa sociedade. Trata-se de assunto de extrema importância, de interesse direto das novas gerações. O posicionamento utópico do legalize, sem dados e informações, banaliza a discussão e joga todos os defensores de uma reforma na vala comum dos sonhos impossíveis de atingir.

O Planet Hemp surgiu com muita coragem de erguer a bandeira da regulação das drogas no país, para combater o modelo falido que só enriquece policiais corruptos e os chefes dos grandes cartéis de drogas no mundo. O Planet Hemp avançou bastante na discussão econômica do problema.

“Então por favor, não me trate como um marginal. Se o papo for por ai, já começamos mal. Quer me prender só porque eu fumo Cannabis sativa. Na cabeça ativa, na cabeça ativa. E isso te incomoda?”

O comércio lícito e regulado atingiria em cheio a cadeia de produção/distribuição e geraria muito dinheiro em impostos, que poderia ser investido em campanhas educativas e outras políticas públicas prioritárias ao país. A proibição absoluta não é a melhor maneira de lidar com isso. As pessoas consomem de qualquer maneira e até certo ponto devem ter o direito de utilizar.

Em 1995 as rádios de todo o Brasil começaram a brandar que “uma erva natural não pode te prejudicar.” O refrão de Legalize Já faixa de trabalho de um disco chamado Usuário, de uma banda cujo nome significava Planeta Maconha, em inglês. Onde havia fumaça, havia uma popularidade que crescia a cada tragada. Mais de 100 mil pessoas compraram o disco de estréia do Planet Hemp. Os Cães Ladram Mais a Caravana não Pára chegou em julho de 1997 e rapidamente ultrapassou as expectativas. No final de setembro o grupo comemorava 200 mil cópias vendidas.
A situação impunha medidas enérgicas e imediatas. Os shows do Planet Hemp passaram a ser “protegidos” por um policiamento ostensivo. O disco A Invasão do Sagaz Homem Fumaça exalava ironia, como na música Contexto:

“Tem gente que tá dizendo que o Planet Hemp faz apologia as drogas.

É mentira tchu tchu. É mentira”

Há em nossa espécie um desejo profundo em colocar a consciência para funcionar sob novos parâmetros. Pouco importa se, pessoalmente, gostamos ou não de drogas. Mas é preciso, em nome da sanidade pública, entender que quem as usa não é simplesmente criminoso, doente, covarde ou corajoso – é, antes de tudo, humano.

O veto à maconha veio, nos EUA, na primeira década do século passado por força de lobistas interessados em destruir a indústria de fibras de cânhamo e apoiado por políticos racistas a fim de encarcerar mais negros (praticamente o único grupo a fumar maconha naqueles tempos).

Descriminalizar o uso não é o suficiente. Se o objetivo é reduzir a violência e tirar o poder dos cartéis, o Estado precisa regular e aceitar alguma alternativa para a produção e a compra legal dessas drogas. Sem isso, o jogo não muda.

Existe cerca de 166 milhões de usuários de maconha no mundo, algo em torno de 4% da população mundial adulta. Todo o restante de drogas ilegais é utilizado por 1% dos adultos da Terra, algo em torno de 34 milhões de pessoas. Se a maconha e, apenas ela, fosse retirada da lista das substâncias caçadas pela polícia, todo o orçamento trilionário da guerra às drogas cairia por terra.

“Grandes cidades acostumadas a conviver com a miséria, mas nunca com a maldade. Corrupção, ganância, violência, impunidade, banalização da cultura a tal falta de liberdade. Abandono da população do mundo inteiro pelas autoridades, manutenção do analfabetismo e do desemprego, desigualdade.” O Sagaz Homem Fumaça.

Seguiremos nos entorpecendo para celebrar, para consolar, para pensar menos ou mais. E, sobretudo, para ver as coisas de uma forma diferente.

Amor, saudade…os temas cantados hoje por Marcelo D2 são mais emotivos do que sensoriais. O tema maconha tem cada vez menos destaque nos seus trabalhos solos. Mas, é assim mesmo, tem quem aperte, mas não acenda; quem fume, mas não trague e quem simplesmente esquece.
“Sou muito mais da cerveja do que do baseado. O Flamengo ganhou? Vou tomar uma. Perdeu? Também vou. Mas, no estúdio costumo fumar bastante, ela me dá criatividade.”

A droga ainda é um dos prazeres de D2. “Meu estilo de vida é esse: fumar um, tomar uma cerveja.” D2 transmite ar de serenidade de quem se realizou na vida: vivendo de sua arte, casado e pai de família.

“Um sagaz homem fumaça
Ontem hoje e sempre.
Legitimo sangue azul do clã
Planet Hempa.”


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