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Baseado em Fatos Reais

Madrugada adentro, jogava um bilharzinho na av. Mem de Sá, no coração da Lapa carioca. Prédios centenários, travestis, prostitutas, bandidagem e rapaziada compunham o ambiente do histórico pedaço. O local foi berço de uma das mais fascinantes figuras da mitológica malandragem carioca, o Madame Satã. Meu guia nesta aventura pelas quebradas do Rio de Janeiro é o polêmico vocalista da banda Planet Hemp, o destemido Marcelo D2.
D2 teria como missão mostrar  os locais da cidade maravilhosa que considera os picos mais importantes e que frequenta habitualmente.

No momento em que põe os pés nas ruas, Marcelo é requisitado a todos os instantes para dar autógrafos, cumprimentar os fãs, conversar com os motoristas de táxi. Caminhando ao seu lado é impossível ficar no anonimato.  “Eh, mermão, maconheiro também é gente”, diz D2, caminhando pela cidade.

Depois do Planet Hemp ter lançado o míssil sonoro “Os cães ladram mas a caravana não pára”, que já vendeu mais de 300 mil discos, D2 volta à cena com o maravilhoso trabalho solo: “Eu tiro é onda”. Um lançamento que, pra início de conversa, vem desmistificar esta história de que o seu trabalho é modismo ou coisa passageira. Sem sombra de dúvidas, é disparado o melhor disco do ano em território tupiniquim. As doze faixas são um híbrido de hip hop com samba do crioulo doido e causará um abalo sísmico na mesmice e pasmaceira que impera no pouco criativo cenário da MPB (blergh). Baseado em fatos reais, vamos acompanhar sua saga pelo Rio de Janeiro.

Na tranquila e simpática rua Mário Portela, em Laranjeiras, está a casa, estúdio e laboratório alquímico de D2. A princípio,conseguimos algo que nem a Sharon Stone lograria, isto é, acordar Marcelo às 10 horas da manhã. Normalmente, D2 levanta-se de seu sarcófago entre quatro e seis horas da tarde. Completamente chapado de sono, D2 foi para o banho. Nesse ínterim começamos a xeretar e vasculhar todos os recônditos do seu lar.

Acreditem se quiser, a casa prima pela limpeza e conforto. Tudo se encontra muito bem organizado, a começar pela geladeira, totalmente recheada de produtos. Ele possui na sua coleção de CDs mais de 500 títulos com o melhor do hip hop, rap, samba, funk e jazz do planeta. Marcelo é fã de música negra. Na cabeceira de sua cama um livro de autoria do lama tibetano Chagdu Rimpoche faz parceria com dezenas de revistas de mulher pelada e de skate. A organização da casa fica aos cuidados de Sandra, que dá um trato total no ambiente e faz a comidinha caseira.

Quando íamos saindo para pegar o filho de D2, Stephan, que entra na escola às 12h30, a mãe de Marcelo surgiu porta adentro. Dona Paulette é fã número um do filho e confessa nas entrelinhas que se amarra no som que ele faz. Marcelo comenta: “Cara, minha mãe quando vai nos shows se diverte muito. Ela é minha principal tiete”. A mãe, toda orgulhosa do rebento, exclama que ele é realmente o máximo.

Na porta da escola, Stephan, é puro amor diante do pai. D2 se despede e vamos ao seu restaurante predileto bater uma chepa. Retornando à Lapa caímos no restaurante Nova Capela. O local é um clássico na história do bairro e do Rio de Janeiro. A frequência vai desde figuras globais a notórios bandidos de capa preta.
Depois do almoço, circulando pela Lapa, fomos dar de frente nos escombros do antigo templo da música brasileira, o Circo Voador. O reduto foi fechado devido à perseguição de gente sinistra e de direita. Marcelo explode de raiva e diz: “Porra, o que ocorreu foi um absurdo, o Circo Voador era um cartão de visita obrigatório na cultura popular brasileira em todos os sentidos. O que o prefeito César Maia aprontou foi um terrorismo cultural sem precedentes. Qualé! O cara é maluco, fodeu com a parada. Todo mundo já tocou aqui. O Circo já era um marco, era para ele ter sido tombado e canonizado”.

No final da tarde, quando tem um tempinho, Marcelo gosta de ir ao Posto 9, em Ipanema. A praia é o local mais folclórico da rapaziada inteirada e seus satélites. Pra quem não sabe, foi ali que ocorreu o histórico episódio dos apitos. Quando a polícia chegava e tinha alguém queimando um baseado, o pessoal apitava sem parar. A moçada mais descolada relaxa como lagarto pré-histórico na areia fina do Posto 9, mas o que D2 gosta de fazer é ficar degustando uma cerveja no quiosque à beira-mar, observando os movimentos e o molejo da beleza carioca, como uma mistura de ninja e predador, desde o balanço do mar aos quadris das maravilhosas meninas do Rio.

No caminho para sua casa, pergunto quantos quilos de fumo ele acha que já degustou na vida. “Que perguntinha indiscreta! Mas vamos lá. Como naquela vez que o Jô Soares me intimou perguntando: “Você se esquece muito das coisas por conta da maconha?” E eu respondi: “Que eu me lembre, não” ehehe. Acredito que já traguei mais ou menos uma meia tonelada”.
D2 havia marcado um apontamento no Baixo Gávea para dar uma entrevista para a revista ÉPOCA às 10 horas da noite. O Baixo Gávea é um dos locais em que D2 normalmente aparece para bater o ponto. A região é repleta de bares, botecos e badalação aloprada. Em plena segunda-feira o crowd é absoluto. Uma multidão de gatas deliciosas, malucos terminais e amigos de Marcelo ronda a nossa mesa. A entrevista rola solta e rapidamente é concluída. É dado o sinal verde. Começa então a bebedeira informal da galera. D2 cumprimenta dezenas de pessoas e a sua brodagem o trata como se fosse um Buda reencarnado.

Pelas mesas a descontração é puro delírio. Chego junto do D2, pergunto para ele se finalizamos a parada das atrações turísticas, pois me encontrava esgarçado de tanto agito. Marcelo lança o míssil: “Qualé, sangue bom, isso só foi a entrada, vamos lá para Copacabana dar uma olhadinha no Cicciolina e Barbarella”.
Não teve jeito, fingi que estava tudo pela ordem e saí de fininho. Na esquina peguei um táxi e me dirigi para as Laranjeiras. Estava felizmente precavido com uma chave reserva da casa de D2. Acordei às 8h30 da manhã do dia seguinte e ajeitei minha mala. O silêncio na casa era absoluto e deduzi que o cumpadi estava no segundo sono. Quando estava fechando a porta apareceu a celebridade que sobriamente comentou: “Qualé? Amarelou ou estava sem preparo físico?”

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