Monthly Archives: Abril 2010

“É tanta magia que o samba nos traz”

O samba é feito de poesia e a poesia é quase sempre “um diálogo entre a solidão de quem escreve e a solidão de quem lê”. O samba é gregário e coletivo: exige parceiros, acompanhantes, platéia e uma boa dose de malandragem. Além disso, toca no rádio, alimenta vitrolas, inspira beijos. Cantar samba significa ser corajoso e ter medo, preferir a alvorada ao crepúsculo, trabalhar muito, e se possível vagabundear ainda mais.
Bezerra da Silva foi feito de samba. Partideiro número 1 dos morros cariocas, o pernambucano, José Bezerra da Silva, foi um cronista que relatou a realidade quase sempre cruel.
Bezerra foi para o Rio de Janeiro aos 15 anos fugindo da fome. Fez a viagem num navio que carregava açúcar. Iniciou na música pelo coco de Jackson Pandeiro, em 1950, tocava surdo, tamborim e instrumentos de percussão em geral. Seu primeiro disco, um compacto, foi gravado em 1969, pela Copacabana. Estudou violão clássico por oito anos e passou mais oito anos tocando na orquestra da Tv Globo. Um dos poucos partideiros que lia música.
Sua ligação com o mundo musical se deu por causa do  “medo da fome”. A única saída que tinha era por “dias melhores”. Ao invés de sambas românticos ele atirou contra às injustiças sociais, tudo com muito humor.
Como na música “Partideiro Sem Nó na Garganta”

“Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado.
Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado”.

Suas letras expressam conflitos sociais de uma população marginalizada.
Macumbeiro, filho de Ogum e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belfort Roxo, Bezerra da Silva foi o rosto de uma parcela do povo brasileiro.
Descrevia o cotidiano dos pobres e criticava a criminalização de drogas como a maconha.

“Esse é o meu trabalho”, disse. “Tenho fama de que sou criador de caso, mal-educado, cantor de bandido. Vivo num país em que é proibido falar a verdade”.

Em 1997, participou de um show do Planet Hemp, no Canecão, dias depois a banda foi presa em Brasília, por apologia às drogas.
Tornou-se amigo do vocalista Marcelo D2, fã confesso de Bezerra.
Marcelo participou do álbum Meu Bom Juiz, cantando a música “Garrafada do Norte”

“Doutor, Deus criou a natureza / E também as belezas dessa vida / O Planet Hemp quer saber / Porque essa erva é proibida”.

Marcelo D2 está em estúdio gravando um disco em homenagem ao sambista que morreu em 2005, aos 77 anos, de parada cardíaca, um dos seus maiores ídolos.
O álbum tem previsão de lançamento para Junho deste ano.

“Malandro é o cara que sabe das coisas / Malandro é aquele que sabe o que quer”.


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“Me orgulho de ser carioca. Me orgulho de ser brasileiro”

Cantor lembra suas partidas mais marcantes e  a decepção de ver a seleção de azul na primeira vez que teve contato com TV a cores.

A relação com o Flamego está marcada na pele e na letra de “1967”, quando lembra que o avô Peixoto deixou seu sangue rubro-negro. Mas a seleção também faz parte do lado torcedor de Marcelo D2. Ao lembrar os jogos da Copa do Mundo mais marcantes de sua vida, o cantor cita um que doeu como brasileiro e flamenguista: a derrota para a França em 1986, no México, na qual Zico perdeu um pênalti.

– Aquela foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Fiquei emocionado. Nosso maior ídolo perdendo um pênalti, meu pai chorando… Foi a tristeza de ter perdido a Copa com Zico e de ver meu pai triste pra caramba – disse D2.

Durante a Copa do México, D2 tinha quase 19 anos. A primeira lembrança do cantor em um Mundial é 1974, com seis. Mas também não é uma memória muito feliz. Não por causa da derrota da então tricampeã seleção brasileira, mas pela decepção de não ver a amarelinha na tela da televisão.

– Foi a primeira vez que vi uma TV a cores. Mas o Brasil estava de azul! Foi decepcionante… A primeira vez que vejo a seleção e ela está de azul, não de amarelo. Eu queria ver o amarelo! – contou, rindo.

O garoto que não viu a amarelinha em 1974 esperou 20 anos para comemorar com a seleção. Só em 1994, já cantor da banda Planet Hemp e com o apelido D2 incorporado ao nome, Marcelo viu o Brasil ser tetra. E o jogo inesquecível daquela campanha também teve choro. Não o de Zico, mas o de Branco, que fez o gol da vitória por 3 a 2 sobre a Holanda, no dia 9 de julho, pelas quartas.

Peladeiro assumido e amigo de jogadores, como Vagner Love e Ronaldinho Gaúcho, D2 só esteve presente em uma Copa do Mundo. Em  2006, na Alemanha, foi contratado pela prefeitura de Berlim para shows. No dia 13 de junho, o cantor foi direto do palco para a estreia do Brasil contra a Croácia (1 a 0, gol de Kaká), no Olympiastadion. Detalhe: de carona em um carro de polícia.

– Mandei até ligar a sirene (risos). Eu estava em Berlim, falei que queria ir para o jogo e me colocaram dentro do estádio. O Kaká salvou o jogo, que foi muito ruim – lembrou.

Apesar de estar ligado no que acontece com a seleção, o cantor reconhece que o Flamengo é mais importante em sua vida. Marcelo lembra até o fracasso de 2006 para explicar seu lado mais rubro-negro quando o assunto é futebol:

– Sou muito mais flamenguista. Geralmente, a seleção não é do jeito que você quer, tem jogador que você não gosta. A Copa de 2006 foi meio decepcionante, um timaço, Ronaldinho jogando muito e lá não deu nada. Em Copa, a seleção aguca essa coisa de ser brasileiro, a gente tem poucos momentos assim no povo brasileiro, de ser patriota. Essa é a hora mais patriota – concluiu.

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“Em samba de roda já dei muito nó…Em roda de samba sou considerado”

Tu se consideras o pioneiro do hip hop brasileiro?

Eu sou de uma segunda geração.
A primeira geração que é Racionais Mc’s, Thaide Dj Hum, um dos primeiros a abordar o tema crítico-social com a música “Homens da Lei” que falava da violência social em São Paulo, Osasco e no ABC paulista. No final de década de 80, os Rappers começaram a produzir letras conscientes, versando sobre o racismo, pobreza e injustiças.
A segunda geração é composta por mim, Gabriel O Pensador, Mv Bill, tem até uma terceira geração. A minha época foi bastante influenciada por artistas de outros estilos como, Jorge Ben, Tim Maia, Gerson King Kong, James Brown, além da forte influência do samba que está presente no meu trabalho.
O caminho do rap é esse, regionalizar para tornar universal.

Qual disco da tua carreira solo que tu mais gosta?

Os meus álbuns são como um filho pra mim, não tem como gostar mais de um ou de outro, eles contam muito do meu momento, do que eu to vivendo.
São oito discos, três de platina e cinco de ouro. Os quatro discos, Eu Tiro É Onda, À Procura da Batida Perfeita, Meu Samba É Assim e a Arte do Barulho contam muito bem a história de misturar hip hop com samba. Ainda tem muita coisa para se fazer em cima disso, mas o caminho já ta trilhado.

Tu resgata muito samba antigo que a maioria da galera que escuta as tuas músicas não tem muito conhecimento. João Donato, João Nogueira, Bezerra da Silva…

Depois de Tom Jobim, o João Donato é um dos maiores pianistas de Bossa Nova que tem no Brasil.
Em 1998, quando eu fiz meu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda, resolvi chamar alguns músicos antigos pra participar. Chamei o Dom um Romão, um instrumentistas que tocou com Frank Sinatra, Elis Regina, um dos inventores da batida da Bossa Nova, outros percursionistas participaram também, aí resolvi convidar o João Donato e me surpreendeu muito, porque a maioria dos músicos antigos são mais fechados e ele não, aceitou na hora, gravou duas músicas, contou histórias da época que ele tocou com a Elis Regina.
Foi um dia incrível, ele tocando piano e contando histórias.
É muito bom trazer para a nova geração a velha guarda musical, senão os Arquitetos da Música Brasileira vão ficar perdidos lá atrás, ninguém mais vai ouvir falar de João Nogueira, que é um dos maiores sambistas pra mim, um dos meus preferidos.
Um momento da minha carreira que me deixou muito orgulhoso foi quando eu estava no Aeroporto esperando um vôo e veio um garotinho de 10 anos, eu pensei que ele fosse falar da música que eu cantei com o meu filho, ele virou pra mim e falou:
“Eu nunca tinha ouvido João Nogueira, eu e meu pai adoramos.” Muito legal isso, um garotinho de 10 anos ouvindo João Nogueira porque eu citei.

Como é para ti tocar para públicos diferentes?

Eu adoro tocar em festivais, porque tem bastante gente, sem contar que tem um monte de bandas, de vários estilos.
Mas, também gosto de tocar pra uma galera mais engajada, pra público pequeno e tal.

O que muda nos shows quando vai tocar em um festival para uma galera mais nova?

Em festival eu toco as mais conhecidas, é um show menor também. Se o público realmente quer ouvir músicas do meu disco solo, do Planet Hemp, tem que ir num show meu. Porque festival a gente faz um set começando com “Vai Vendo”, “Qual é”, só as músicas que tocaram mais.

Você acha que existe uma relação da moda com a música, um influência o outro?

A moda influência muito a música, você identifica um músico pela roupa que ele veste. O Rock, por exemplo, mexeu com a moda no mundo. Nos anos 80 vários músicos adotaram um estilo extravagante.
Moda é a maneira que tu te mostra para o mundo, fazer moda é fazer arte.

Tu se sente um produto? Rola uma crisezinha?

Pra caralho, mas não tenho crise não. Eu sei usar o marketing ao meu favor pra fazer as coisas que eu gosto. É engraçado que as bandas que fazem música de cunho social na minha geração (década de 90), são as bandas que sobreviveram, Nação Zumbi, O Rappa, Mundo Livre, a gente… Acho que eu já fui mais o “Pesadelo do Pop”.


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“Peace, Unity, Love and Having Fun”

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