“Não compre, plante!” é o singelo título da primeira música do álbum Usuário. Planet Hemp. Figura mítica dos anos 90, que pariu Bacalhau (hoje no Autoramas), B Negão (hoje no B Negão & Os Seletores de Frequência e Turbo Trio) e Marcelo D2, que segue segurando seu próprio nome. Também faziam parte da banda Skunk, que morreu em decorrência da AIDS, Formigão e Rafael.
Não lembro ao certo, mas foi por volta de 1996/1997 que a banda veio a Natal pela primeira vez. Não existia nem de longe o sonho dos dois festivais que hoje a cidade abriga. Os shows eram feitos na raça mesmo, o underground era underground mesmo. A casa dos shows menores já era a Ribeira, só que sem estrutura. O show aconteceu no Casarão. O nome alusivo a beleza da fachada dos prédios históricos do bairro, e só. Caindo aos pedaços, com dois ventiladores de teto bem próximo as cabeças, banheiros com portas imprestáveis e paredes esburacadas. A banda tinha que passar no meio do público antes de chegar ao palco. Se é que aquele tablado com 50 centímetros de altura pode ser chamado de palco. Atrás de Bacalhau uma luz que fazia o baterista suar que nem uma chaleira.
Antes do show começar, fui com meu amigo Renato tomar uma cerveja em um carrinho de cachorro-quente. Ao sentar observamos duas figuras ao nosso lado em outra mesa. Bacalhau e Formigão. Na maior paz tomavam sua cerveja em meio ao anonimato. Internet eram as revistas e a MTV. Que naquela época tinha uma programação supimpa. Folheando o encarte do álbum enfumaçado, vejo Bacalhau ainda com cabelos vestindo uma camisa da Vision Street Wear, marca que vestia muitas bandas, inclusive a Resist Control que fora um clipe na MTV e participação numa coletânea, nunca mais ouvi falar.
No meio do show Marcelo D2 acende o baseado e convoca o público. O tablado era resistente, porque a banda sumiu em meio a tanta gente que queria fumar. Pra mão de D2 ela não voltou. Mas tudo bem, ele já devia estar com a cabeça feita. O show, como de se esperar, foi curto. Tocaram o disco e tchau. Mas o estrago estava feito. E antes do show começar. Sentados a mesa bebendo a cerveja vislumbramos a polícia dando uma dura numa turma que tinha acabado de chegar por uma das ruas adjacentes. Todo mundo na parede, braços e pernas abertas. O famoso baculejo.
O caminho que a banda trilhou é o mesmo que centenas de outras. Mas poucas chegam ao estágio de ganhar dinheiro e viver da música. Diversão é garantida, já dinheiro e fama… É engraçado conversar com pessoas que vivem outra realidade, consomem outra música, elas não entendem como uma banda pode pagar pra tocar, viajar sem ter onde ficar, gravar discos que serão distribuídos e não vendidos. A banda fez esse caminho e pouco tempo depois chegou as manchetes. Culpa da apologia ao consumo de drogas. Shows foram cancelados e eles chegaram a ser presos. O grupo aos poucos foi se desvencilhando da fumaça, mesmo sem nunca tê-la abandonado, culminando com o fim, mesmo que não tenha sido anunciado oficialmente. Há rumores de volta. Rumores.
Enquanto isso Bacalhau toca bateria mundo afora com o Autoramas, B Negão faz seu baile funk com Os Seletores de Frequência e Turbo Trio. E o Marcelo D2 procura a batida perfeita. Nada que Jorge Ben já não tenha achado, na década de 70. Ainda gravaram Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Pára, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça e o MTV Ao Vivo Planet Hemp. Mas nenhum tem a importância do primeiro. Podem até ter vendido mais e tornado a banda mais popular, mas o primeiro é o mais incisivo nos temas e no som.
Hugo Morais: http://www.oinimigo.com/blog/?p=4415


legal esse relato….confere a matéria sobre os 15 anos do Usuário na revista Noize: http://issuu.com/noize/docs/revista_noize_35_julho_de_2010